A combatividade do bom cristão

Um dos maiores expoentes do catolicismo tradicional no Brasil, Gustavo Corção pode ser caracterizado como o arquétipo do professor, esforçado em auxiliar seus amigos e conhecidos, bem como todo o público brasileiro, a compreender a profunda natureza da crise que pouco a pouco percebe e rechaça, especialmente no limiar de seu falecimento, na década de 1970, quando torna-se claro o naufrágio da religião e dos costumes na sociedade brasileira. Era combativo e pela pena combativa defendeu a boa causa.

Fluminense, nascido em 17 de dezembro de 1896, Corção era filho de Francisco Braga e de Graciete Corção Braga. Desde cedo, enquanto estudou no famoso Colégio Pedro II, demonstrou pendor para as ciências exatas, cursando engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e desempenhando os encargos profissionais com esmero por toda sua vida. Sua mãe, muito dedicada à área da educação, possuía uma escola chamada Colégio Corção, cujo ambiente refletirá futuramente na própria forma de Gustavo observar o cultivo da educação: a Permanência, que fundar-se-á após o agrupamento de amigos e conhecidos que lhe instavam para que lhes ensinasse sobre o catolicismo e sobre a cultura católica, carregará este ar colegial, marcando a memória de tantos pelos que por ela passaram, a exemplo do casal Sileno e Maria Tereza Muniz, pais do prior do Mosteiro da Santa Cruz, Dom Tomás de Aquino. Todavia, ainda que católico desde o berço, não quer dizer que Corção não tenha atravessado um inverno espiritual: após ler e se aprofundar, em alemão, no estudo de Marx, desde sua juventude se distanciou da Igreja, apenas para retornar ao catolicismo após o falecimento de sua esposa, Diva Paiva, em 1936, quando então atravessa uma crise e retorna ao seio da Igreja. Pela época, tomou como referências principais a Gilbert Chesterton (de quem admirava não apenas a obra, mas também o conceito de Distributismo, sendo talvez o pioneiro no país na propagação deste ideário) e Jacques Maritain, fontes de onde sorveu a filosofia tomista e o gosto pela elegância na escrita. Desta aproximação surge sua primeira obra de sucesso: A Descoberta do Outro.

Percorreu parte do Brasil no desempenho de seu trabalho de engenheiro, passando pelo Mato Grosso, Espírito Santo e pelo interior de vários outros Estados. Era apaixonado por música e pela invenção do rádio, trabalhando na Radiobrás, no Instituto Militar de engenharia do Exército e na Rádio Cinefon Brasileira, não deixando de aprimorar seus estudos em visitas à Europa para observação das últimas tendências tecnológicas. Trabalhou também, na década de 1940, na CTB (Companhia Telefônica Brasileira) e em cursos de eletrônica ministrados em diversas universidades e faculdades do Rio de Janeiro, então Capital Federal, a exemplo da Faculdade Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil.

Sua aproximação com o Centro Dom Vital e com o Mosteiro de São Bento, no período anterior ao Concílio, lhe rendeu um engrandecimento de espírito, trazendo-lhe novas influências e fazendo-o aprofundar-se na propagação do catolicismo. Empenhou-se nesta causa principalmente enquanto trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Imputam-lhe nesta fase, inclusive, a conversão ao catolicismo de outro famoso polemista, mas de caráter predominantemente político, que foi Carlos Lacerda, cobrindo sua influência sobre tantos outros, a exemplo de Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz e Ariano Suassuna.

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Conheça alguns escritos de Gustavo Corção

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O sopro das mudanças vindas da Europa encetam um novo rumo na vida do Corção da década de 1960: com o Concílio Vaticano II e sua recente direção do Centro Dom Vital, assumida com a ida de Alceu Amoroso Lima, seu amigo, para os EUA, cada vez mais a defesa da tradição católica lhe surge como uma necessidade em face dos problemas espirituais enfrentados pela civilização ocidental com a traumática II Grande Guerra. O pensador imprimia esta convicção com muito fulgor em suas reuniões no Centro Dom Vital, o que aos poucos cria um "racha" interno. Retornando Tristão de Athayde para o Brasil, torna-se insustentável a permanência de Gustavo no Centro Dom Vital, principalmente em razão dos constantes embates entre ambos pensadores, levando Corção consigo, durante sua saída, nada menos que cerca de duzentos associados ao antigo centro.

Colaborando com a TFP (Tradição, Família e Propriedade) e com a revista Permanência (de sua organização), Corção viverá a "III Guerra Mundial", como conhecemos o Concílio Vaticano II, esperançoso de que, no mesmo espírito de D. Lefebvre, o Comunismo fosse condenado solenemente e o crescente distanciamento entre os fiéis e os sacramentos fosse sanado com um revigor da liturgia. Todavia, não foi isto o que ocorreu: o Concílio não apenas não condenou o Comunismo como também cedeu lugar para que o liberalismo, o modernismo, o americanismo e diversas outras heresias se aproximassem da Igreja, destilando o produto desta aproximação na forma de uma mudança radical da liturgia católica. A Permanência se choca frente a esta agoniante constatação em sincera dúvida sobre a situação futura.

 

Com os anos torna-se crescente sua resistência perante os escândalos verificados no clero brasileiro, especialmente nas ordens religiosas e nas ações de alguns bispos, cujo nível de distanciamento da Tradição era tão escancarado que até mesmo escritores menos combativos, porém lúcidos, como Nelson Rodrigues, desferirão golpes contra este clero corrompido em lúdica facilidade. Por esta época muitos conhecidos e amigos rogam pelo auxílio de Corção, como o filho de Maria Tereza, sua amiga, quando pede-lhe uma indicação para confirmar sua vocação religiosa, realizando o escritor as tratativas para que D. Tomás de Aquino entre em contato com D. Lefebvre, de onde receberá a boa formação intelectual em Écône.

Amplo foi o trabalho de Gustavo Corção e ampla foi sua influência sobre os leitores brasileiros. Mas a coroação deste embate em favor da Tradição surge com a obra O Século do Nada, volumoso exame de consciência lançado em 1973, em que realiza a síntese de todos os erros passados que havia cometido e cristaliza sua convicção sobre o presente e o futuro do catolicismo romano. Obra de fôlego, é seu legado principal para nós, católicos resistentes.

Gustavo Corção falecerá no dia 06 de julho de 1978, deixando quatro filhos e sua segunda esposa, além de um já menor grupo de bons católicos e seu conjunto imorredouro de realizações técnicas e literárias.