Nas terras da Santa Cruz

O Mosteiro da Santa Cruz é, ele mesmo, uma feliz demonstração da silenciosa e misericordiosa Graça de Deus para com seus fiéis, que em momentos decisivos e singulares na história entregam sua confiança ao Seu Criador e por ele são correspondidos com abundantes demonstrações de amor. Assim como qualquer outro mosteiro que se queira fiel à Sã Doutrina, toda casa religiosa que é fundada para a efetiva maior glória de Deus é um poderoso sinal da ação de sua Graça.

Com esta confiança, em 3 de maio de 1987 foi fundado o Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, RJ, num magnífico terreno doado por um dos primeiros benfeitores brasileiros. Em gesto benemérito, a doação a princípio englobou uma fazenda às costas de uma grande rocha situada em Janela das Andorinhas, depois expandindo-se pouco mais com o auxílio de tantos outros que se empenharam no seu crescimento. Para suas instalações físicas, concorreram principalmente D. Marcel Lefebvre, D. Gérard Calvet e D. Castro Mayer, sem os quais, com seus preciosos estímulos, provavelmente o mosteiro não teria prosperado, como o testemunham tantos fatos notórios aí ocorridos.

 

Os fundadores enviados da França eram seis monges, tendo como prior um religioso brasileiro que havia ingressado em Bédoin em 1974, D. Tomás de Aquino Ferreira da Costa. Muitos esforços foram envidados para que cada detalhe da obra fosse colocado em seu devido lugar: pedras da mesma região da fazenda foram talhadas; telhas foram escolhidas cuidadosamente e adquiridas; o desenho de cada planta arquitetônica que forma o conjunto do claustro foi inspirado em diversos modelos europeus, colhidos após viagem de missões artísticas até a Europa e harmonizados com o contexto brasileiro. Tal qual uma fortaleza espiritual, como diz a Escritura, os esforços empreendidos carregavam-se do legítimo espírito combativo: "Zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum" (I Reis, XIX, 10), "Eu me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos".

A Benção Solene da Capela e de seus dois sinos, ministrada por D. Castro Mayer, deu-se no mesmo mês de maio de 1987, quando acorreram inúmeros visitantes de diversas regiões do Brasil e do mundo, especialmente os padres de Campos, da FSSPX e monges do Mosteiro do Barroux, que buscaram testemunhar o fato notório.

Nós aderimos de todo o coração e com toda a nossa alma à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade.

 

Pelo contrário, negamo-nos e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio em todas as reformas que dele surgiram".

D. Lefebvre - Declaração de 1974

Ao lado, uma das cartas endereçadas por D. Marcel Lefebvre a D. Tomás de Aquino

Em 1988, porém, uma grave decisão se impôs à comunidade nascente: Dom Gérard acabava de assinar um acordo com Roma e se separa de D. Lefebvre, tomando uma nova direção em detrimento da Fé. Ora, assim como no tempo do Arianismo era sinal de ortodoxia estar em comunhão com Santo Atanásio, assim em nossos dias o mesmo se deve dizer com relação aos então únicos bispos totalmente fiéis à Tradição da Igreja, tanto mais como demonstrou a própria história pessoal e pública de D. Marcel e D. Castro diante do Concílio Vaticano II.

 

O Mosteiro da Santa Cruz decidiu, então, se separar de Dom Gérard o que, apesar de inevitáveis dificuldades, não impediu o desenvolvimento da pequena comunidade, pois que de todas as partes do Brasil e também da Europa chegou-lhe o necessário apoio espiritual e, mesmo, material, permitindo a continuidade da vida monástica. Vocações também foram enviadas por Deus a fim de que seu corpo militante permanecesse crescente. De lá para cá, é certo que fatos angustiantes se deram com a Tradição católica, no Brasil e no mundo, e tantas outras fundações, ligadas ou não ao mosteiro, definharam por inúmeros motivos, que caberá a Deus julgar. Contudo, após todos os mais de trinta anos de sua fundação, como já dito no início deste relato, permanece a certeza inalterável, dia a dia, mês a mês, de que a Providência Divina age por meios misteriosos e garante para seus fiéis a continuidade do Santo Sacrifício da Missa e da propagação do Evangelho para todo o mundo.

Prova desta verdade, uma vez mais, foi o chamado do Prior do Mosteiro da Santa Cruz, Dom Tomás de Aquino, ao notório e fatigante encargo pastoral, aceito sob o lema "Veritatem dilexisti", parte do Salmo Miserere. Com a irredutibilidade da FSSPX de prosseguir com seu perigoso programa de aproximação com Roma Modernista, a Dom Richard Williamson, um dos quatro bispos sagrados por D. Marcel Lefebvre e D. Castro Mayer, não restaram alternativas a não ser eleger três dos principais padres que faziam parte do movimento interno de resistência aos desvios da FSSPX, fazendo-o seguidamente com: Dom Michel Faure, Dom Tomás de Aquino e Dom Gerardo Zendejas. Com suas elevações ao episcopado garantiu-se que os mais elementares e necessários trabalhos de propagação da fé Católica, tão santamente dependentes de bispos católicos, fossem mantidos e consolidados em todo o orbe, trazendo aos fiéis conforto e esperança de que todos os trabalhos de inúmeras vidas piedosas se mantivessem alinhados aos propósitos de D. Marcel Lefebvre e D. Castro Mayer, senão os mesmos propósitos dos Apóstolos: propagar a boa fé e guardar o Sagrado Depósito.