Advento



Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 6-12-1973

SABEMOS pelo calor e pela aceleração da máquina do mundo que estamos em dezembro e que, portanto, se aproxima o fim de mais um ano. Descontado o foguetório convencional não se sentirá solavanco nenhum na passagem do novo ano. O jornal anuncia que o Pentágono teme confronto nuclear no Oriente Médio; mas os homens confiam na regularidade das engrenagens planetárias e não levam muito a sério a astrologia do Pentágono. Ainda ontem um homem moderno demonstrava-me por a + b, sem chegar à janela para procurar algum sinal dos tempos, que a técnica pôs termo às guerras, já que uma guerra com as bombas nucleares seria o fim do mundo. Ora, o homem sendo racional não pode querer o fim do mundo, logo, não pode querer guerra.


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A SEUS discípulos mais atentos Jesus anunciou o que acontecerá sobre "esta geração": — Jerusalém! Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha reúne os pintos sob as asas, e não me quisestes (Mat. 23, 37).


E SAINDO Jesus do Templo sentou-se no monte das Oliveiras com os discípulos que queriam saber qual seria o sinal da consumação do mundo e da vinda de Jesus que então respondeu-lhes: "Não vos deixeis enganar pelos que dirão em seu nome: — Eu sou o Messias! e enganarão a muitos. Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras, mas não vos perturbeis porque é preciso que tudo isto aconteça, mas ainda não será o fim. Levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, haverá fome e tremores de terra, mas tudo isto é apenas o começo das dores" (Mat. 24, 4). Que duração e que profundidade terão essas dores? Não sabemos. Sabemos que os homens estão capitalizando.


JESUS deixou no coração de sua Igreja este sentimento peregrino de não ser este mundo a pátria verdadeira. Deixou-nos a lição que mais tarde a Igreja chamaria a dos três Adventos, que serve para aquilatar em cada época o verdadeiro sentir cristão, e que basta para medir a cegueira de nosso tempo desatento às coisas de Deus e confiante no homem.


TRÊS adventos, simples e tríplice, porque é sempre o mesmo Filho de Deus que vem, mas em três tempos e de três maneiras diferentes.


DIZ São Bernardo: "no primeiro Ele vem em carne e enfermidade; no segundo em espírito e potência; no terceiro em glória e majestade". Pierre de Bois, citado por Dom Gueranger, diz também: "O primeiro Advento ocorreu no meio da noite (...) E já passou porque o Cristo foi visto na Terra sentado entre seus amigos. Estamos agora no segundo Advento: desde que estejamos preparados para recebê-lo porque Ele mesmo disse que se nós o amássemos Ele viria e permaneceria conosco.


ESSE segundo Advento é misturado de incertezas e seguranças, de inquietações e de esperanças porque nosso coração é assim feito. E é por isto que a Igreja reserva toda uma estação do ano litúrgico a fim de avivar o advento místico, isto é, para agradecer as alegrias do primeiro, e esperar com firmeza a força terrível do terceiro. Aproveitemo-lo bem, na oração e na penitência, para que nossa vida se amolde bem pela vida de Cristo em sua Igreja.


DIZ ainda Pierre de Bois: "Quanto ao terceiro Advento, é certo que ele virá; muito incerto porém o seu dia. Nada mais certo do que a morte e mais incerto que seu dia. No momento em que todos falam de paz e prosperidade — diz o Sábio — a morte surge de repente, como as dores do parto no seio da mulher, e ninguém poderá fugir."


"O PRIMEIRO advento foi humilde e escondido, o segundo é misteriosa perseguição de amor, mas o terceiro será estrondoso e terrível. No seu primeiro Advento Jesus foi julgado pelos homens com injustiça; no segundo ele nos tornará justos pela graça; no terceiro ele julgará com Justiça; Cordeiro no primeiro Advento, Leão no último; amigo cheio de solicitude e ternura Ele nos acompanha neste Advento da peregrinação para o qual nos chama e nos exercita o Advento litúrgico que anuncia o Natal.


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AO CONTRÁRIO do que possa parecer à alma desafeiçoada às coisas do espírito, que tem por monótonas e insípidas, muitas são as atitudes que a alma aprende na prática da oração insistente. Aprende a atitude fundamental com que a criatura racional curva a cabeça e diz: "Eis aqui a serva do Senhor", aprende a posição de filho: "Pai nosso que estás nos céus...; aprende a submissão, o temor, a dependência, a gratidão, aprende a somar todos os sentimentos numa admiração de adoração. Deus é Deus. Deus é o Senhor. Aprende a paciência do socorro esperado; aprende a impaciência da alma enamorada: — Vem! Vem Jesus! O tempo de Advento é especialmente propício para aqueles que esperam às avessas das esperanças do mundo. No Cântico dos Cânticos o verbo de Deus ensina ardor ao amor dos homens, e estímulo a impaciência do ardor do amor. "Eis a voz do Bem-Amado! Ele vem!" (...).


"Meu Bem-Amado fala e [me diz:

Levanta-te, minha amiga, [minha bela, vem!"

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Eu durmo, mas meu [coração vigia]

É Ele! A voz do Bem- [Amado!]

Ele bate: "Abre-me, irmã, amiga, [pombinha imaculada]

Abre-me que estou com a [cabeça coberta do [orvalho...]


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APROVEITEMOS bem, leitor amigo, a lição do Advento litúrgico que nos reaviva o segundo Advento místico que é o da ansiosa e amorosa espera da vinda de Jesus. Vem, Senhor. Aprontemo-nos. Façamos obras na casa. Adornemos nossos corações porque num desses avisos litúrgicos, que a Igreja todos os anos repete, haverá um clarão de Oriente a Ocidente e entre prodígios dos céus e da terra Ele virá.