Ainda os ataques ao Brasil



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 01-06-1974


NO MESMO NÚMERO de Documentation Catholique citado em meu artigo da semana passada, no de 17 de março do corrente ano, leio outro tópico especialmente empenhado na encarniçada difamação do Brasil. O título desse tópico é: "Bispos defendem os índios da Amazônia". Vejamos o texto: "Seis bispos brasileiros e numerosos missionários católicos desse país (Brasil) publicaram um manifesto de "extrema urgência" denunciando a exterminação dos índios no Brasil. Este documento de trinta e quatro páginas intitulado "O índio, alguém que deve morrer" pressiona o governo brasileiro a fim de modificar as orientações de sua política".


ESSE TEXTO que a revista francesa comenta com espantosa puerilidade, e da qual não encontramos até agora o menor vestígio, estaria baseado em estudos de "eminentes antropólogos, etnólogos e especialistas na matéria". Em que matéria estariam especializados os especialistas anônimos invocados pela revista La Documentation Catholique, que anos atrás já foi honesta e católica. Continua dizendo esta asneira fundamental com tom grave de quem enuncia um incontestável princípio: "O documento demonstra que a situação dos índios piorou desde que tentaram lhes impor a cultura e a civilização européia."


A ACREDITAR na DC, alguns bispos do Brasil têm por princípio que o atraso paleolítico de sua cultura deve ser mantido e respeitado. Com este princípio seria criminoso, contrário aos direitos do homem, dar-lhes uma enxada ou ensinar-lhes a fazer o sinal da cruz. Sim, a acreditar na obscena enxurrada de mentiras que se revestem de denominações católicas sem nenhum protesto das autoridades realmente católicas, há bispos e missionários "católicos" que erguem a voz em defesa dos índios contra a evangelização.


NA CONTINUAÇÃO do mesmo tópico da DC de 17 de março do corrente ano, pág. 286, lemos o desenvolvimento da idéia pela qual não se deve ensinar, não se deve educar, não se deve civilizar. Eis os termos: "A política oficial do governo (brasileiro) visa unicamente a integração, sem respeitar as formas de vida próprias daqueles que compõem as diferentes camadas do país. Esse processo de integração se inspira numa perspectiva puramente econômica que, segundo o manifesto, coloca a produção acima do produtor, a renda nacional acima da renda dos cidadãos, os lucros acima do trabalho".


INTERROMPO a citação para lembrar ao leitor que se trata de um texto de DC onde essa revista francesa, julgando prestar bom serviço a não sei que espécie de religião, atribui a bispos do Brasil tão primárias asneiras, como se já não nos bastassem as que tantos deles aqui no Brasil e na própria língua difundem. Continuo a citação: "Nessas condições", frisa o manifesto, "não há para os índios senão uma saída: a volta à miséria, isto é, a morte cultural e biológica das comunidades indígenas".


ORA, SE A IMPOSIÇÃO da civilização européia empurra os índios para a miséria e para a morte cultural e biológica, parece-me então que a recíproca nos oferece uma tentadora perspectiva de prosperidade econômica para os pobres que Dom Hélder trocou pelos milhões que diz ter recebido na Noruega. Sim. Eis o caminho que indico ao Governo como sugestão vinda de Paris: indianizar o Nordeste para libertar as massas da opressiva civilização européia. Voltemos ao tacape, ao arco e à flecha, à caça e à pesca. E, onde não houver melhor solução, voltemos à antropofagia. Se os bispos autores desse manifesto espectral, que só a DC conhece, seguirem o itinerário do infortunado Pero Fernandes Sardinha, prestariam à causa que defendem um serviço melhor do que o de escrever manifestos que só a DC publica em pedaços.


REFERI-ME ATRÁS a Dom Hélder. Ora, o mesmo número de DC, decididamente empenhado em denegrir o Brasil, exalta esse personagem, e publica o prêmio que teria recebido na Noruega, para compensar, na opinião pública, o que não recebeu da Suécia. Tudo é prêmio, tudo é escandinavo, e sobretudo opinião pública. Na página 289 lemos a própria declaração de Dom Hélder sobre a aplicação que dará aos 350 000 que teria recebido: "esta soma será consagrada ao combate não violento por um mundo melhor". Como certamente mais de um perguntou como se poderá combater sem flecha, espada, tiro ou bomba, Dom Hélder prometeu informar mais tarde, às autoridades brasileiras, a forma que tomará esse combate comandado por Dom Hélder Câmara. Torna-se evidente que Dom Hélder declarou guerra ao Brasil, mas ainda não explicou se seus canhões despejarão inumanas bombas de aço ou atirarão projéteis de manteiga de cacau, como os canhões humanitários do saudoso comunista Barão de Itararé. Naquele tempo o comunismo ainda podia interessar um louco genial como o Barão de Itararé; hoje só desperta interesse na enxurrada de bobos que cobrirá o mundo de uma noosfera teilhardiana com a altura dos pensamentos de Dom Hélder Câmara, padrão do raquitismo mental que se tornou um imperativo da modernidade.


E O QUE MAIS entristece nessa pantomima de dimensões planetárias é a passiva indiferença com que as autoridades eclesiásticas permitem que esse declaradíssimo agente subversivo continue a dizer-se Arcebispo do infortunado povo de Olinda e Recife, que merecia um pastor de verdade, em lugar do polichinelo anarquista.


FEITO O IRREPRIMÍVEL reparo sobre as autoridades eclesiásticas, dirijo minhas fracas esperanças às autoridades civis: por que não interpela o Governo Brasileiro por seus representantes titulados o Governo que apóia Dom Hélder? Por que não expulsa Dom Hélder do Brasil como declarado inimigo? Se alguma instituição no mundo quer apoiar e enaltecer Dom Hélder, que fique com ele: a nós não faz falta nenhuma.


NA VERDADE, eu não acredito no prêmio, nem dou grande valor ao perigo de suas andanças escandinavas ou moscovitas. Não é o receio pela segurança de meu país que me obriga a voltar a essa triste figura. O que me compele a essa monótona campanha é a sensibilidade ao ridículo. Como brasileiro e principalmente como católico tenho vergonha de ver minha Igreja e minha Pátria expostas às cambalhotas de um histrião.