Boletim da Santa Cruz n 50

Boletim da Santa Cruz


Agosto /2014 – nº 50



Caríssimos amigos e benfeitores,


Neste momento dramático da vida da Igreja, momento em que a crise, estendendo-se, assume aspectos inesperados, é preciso mais que nunca empreender o bom combate da fé católica com ânimo e coragem.

Quem poderia crer que um dia beneditinos, capuchinhos e dominicanos da Tradição veriam seus ordenandos terem suas ordenações adiadas ou ameaçadas de o ser, por terem mantido uma conduta que Dom Lefebvre mesmo havia aconselhado e seguido? Quem poderia crer que um dos quatro bispos sagrados por Dom Lefebvre seria expulso da Fraternidade São Pio X, quando sua posição na crise atual se mantém fiel ao ensinamento e às diretivas práticas de Dom Lefebvre, o que não acontece com Menzingen? Quem poderia crer que padres antigos, como os padres Faure, Pivert, de Mérode, juntamente com tantos outros, se achariam um dia fora da Fraternidade por manterem-se fiéis às orientações de Dom Lefebvre? Quem teria crido que não somente os padres mas também os leigos, entre os quais alguns combatentes da primeira hora, seriam tratados de forma semelhante pelas mesmas razões?

Tudo isso é de natureza a nos desnortear e nos paralisar no prosseguimento da obra de restauração católica.

Mas é necessário não sucumbir a esta tentação. É necessário reiniciar o combate como Dom Lefebvre, sempre cheio de ânimo no meio das piores dificuldades. Imitemos aqueles que nos precederam, e, ainda que nós não sejamos numerosos, lembremo-nos da visão com que o profeta Eliseu foi beneficiado, ele, que rezou ao Senhor para mostrar a seu servo que os que estavam com ele eram mais fortes e mais numerosos que os que estavam contra ele:

“E o Senhor abriu os olhos do servo e ele viu, e eis que a montanha estava cheia de cavalos e carros de fogo, ao redor de Eliseu” (IV Reis, 6, 16).

Será o mesmo conosco, se permanecermos fiéis ao ensinamento e às diretivas daquele graças ao qual as portas do inferno não prevaleceram.


Dom Prior



DOUTRINA


Uma recensão anônima, acreditada por Menzingen, acusa o livro do Pe. Pivert “Nossas relações com Roma” de haver centralizado indevidamente o combate de Dom Lefebvre na questão de Cristo Rei.

Mas foi o próprio Dom Lefebvre quem o afirmou, como podemos ver nesta passagem:

“Eis o que constitui nossa oposição, e o motivo por que não podemos nos entender. Não se trata, primeiramente, do problema da missa, uma vez que esta é justamente uma das consequências do fato de terem querido aproximar-se do protestantismo, tendo para tanto de transformar o culto, os sacramentos, o catecismo, etc.

A verdadeira oposição fundamental é o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Opportet Illum Regnare, diz-nos São Paulo, Nosso Senhor veio para reinar. Eles dizem não, e nós dizemos sim, com todos os papas” (Dom Marcel Lefebvre, L’Église infiltrée par le modernisme, edições Fideliter, 1993, pág. 70)

Menzingen mudou de posição? De nossa parte, queremos guardar a doutrina e as diretivas que Dom Lefebvre nos legou, pois que ele é o eco fiel da Tradição.

Que releiam “Do Liberalismo à Apostasia”. Tudo está dito neste livro consagrado a esta questão do Cristo Rei.

É até necessário dizer mais que isso. Cristo Rei não é somente o centro das dificuldades entre Dom Lefebvre e a Roma liberal. Cristo Rei é o centro do drama dos tempos modernos. Por que foi guilhotinado Luís XVI? Por que a Vendeia foi devastada, os Estados pontifícios ocupados, Garcia Moreno assassinado, os Cristeros esmagados, quinze mil padres, religiosos e religiosas martirizados na Espanha e a liberdade religiosa proclamada no Vaticano II a pedido da seita maçônica judaica B’Nai B’rith? Por que, enfim, Nossa Senhora pede a Consagração da Rússia ao seu Coração Imaculado, senão para que seu Divino Filho reine e reine sobre o mundo inteiro? “Nós não queremos que Ele reine sobre nós”, gritam os ímpios. Nós, ao contrário, dizemos: “Venha a nós o vosso reino”. É este, pois, o centro do combate de Dom Lefebvre e de toda a Igreja, de que Dom Lefebvre foi o filho mais meritório, mais fiel e mais devotado.


***


Duas Igrejas?


Alguns minimizam a crise atual tentando desfazer a distinção entre Igreja Católica e Igreja oficial. É certo que Nosso Senhor não fundou senão uma Igreja, mas esta se encontra hoje ocupada por seus inimigos. Escutemos ainda a Dom Lefebvre, citando Leão XIII e São Pio X em seu livro Do Liberalismo à Apostasia. Estas citações nos ajudam a melhor compreender a realidade tenebrosa que é a Contra-Igreja que se instalou dentro da Igreja Católica. É um mistério, o mistério da iniquidade.

“Eis que astutos inimigos encheram de amargura a Igreja, Esposa do Cordeiro Imaculado, deram-Lhe absinto para beber e puseram suas mãos ímpias sobre tudo o que há nEla de mais precioso. Onde a Sede do bem-aventurado Pedro e a Cátedra da Verdade haviam sido estabelecidas como luz para as nações, eles erigiram o trono da abominação da sua impiedade, para que uma vez golpeado o pastor possam dispersar o rebanho” (“Pequeno Exorcismo de Leão XIII”, citado por Dom Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia, pág. 165).

Citando a São Pio X, Dom Lefebvre relembra passagens marcantes da Pascendi:

“… Eles se escondem, o que é motivo de grande ansiedade e angústia, no centro e dentro do próprio coração da Igreja. Na verdade, inimigos tanto mais prejudiciais quanto menos declarados.

“… em nossos dias o perigo está quase nas entranhas da Igreja e até mesmo em suas veias; o dano produzido por tais inimigos é tanto mais inevitável quanto mais fundo eles conhecem a Igreja. Some-se o fato de que aplicaram o veneno não nos ramos nem nos rebentos, mas na própria raiz, ou seja na Fé, e em suas fibras mais profundas” (São Pio X, Pascendi, citado por Dom Lefebvre em Do Liberalismo à Apostasia, pág. 168).

As “canonizações” de João XXIII e de João Paulo II confirmam o que acabamos de ler. O inimigo ocupa a Igreja. Dom Lefebvre o denunciou, e disso nos preservou. Outro espírito anima a muitos dentro da Tradição. É outro espírito, não é o de Dom Lefebvre. É por isso que o recusamos.


Pio IX e o Liberalismo Católico


É sempre benéfico ter presentes os ensinamentos dos Papas sobre o perigo do Liberalismo que nos cerca a todo instante.

Não é suficiente estar na Tradição para estar isento do perigo de pactuar com o Liberalismo.

Escutemos o santo e grande pontífice, que foi Pio IX, falando aos peregrinos franceses da diocese de Nevers em 1871:

“Meus queridos filhos, é preciso que minhas palavras vos expressem o que vai dentro de meu coração. O que aflige vosso país e impede que mereça as bênçãos de Deus é a mistura de princípios. Eu o direi e não me calarei; o que receio não são todos esses miseráveis da Comuna de Paris, verdadeiros demônios do inferno que se lançam sobre a terra. Não, não é isso; o que receio é essa infeliz política, esse liberalismo católico, que é verdadeiro flagelo. Já o disse mais de quarenta vezes, e repito-o em razão do amor que vos tenho. Sim, é um jogo… Como se diz em francês? Dizemos em italiano altalena. Sim, é justamente essa gangorra o que destruirá a religião. É necessário, sem dúvida, praticar a caridade, fazer o que for possível para reconduzir os que estão extraviados; mas para isso não é necessário concordar com a opinião deles. Mas não quero prolongar meu discurso, minhas forças e minha idade já não mo permitem” (Barbier, Tomo I, Histoire de Catholicisme Libéral et du Catholicisme Social en France, p. 214).

Tal gangorra é uma tentação permanente na Tradição. Não foi justamente tal gangorra o que fez perder a Dom Gérard, a Campos e a tantos outros? Quer-se dialogar com Roma sem se considerarem os avisos de Dom Lefebvre e as lições da experiência, e terminar-se-á cedendo em alguma coisa, para agradar aos homens e não a Deus. E assim se entra na gangorra que inevitavelmente destrói a religião.

Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer não entraram nesse jogo. E nós tampouco.

É necessário jamais abandonar os princípios, e entre estes estão as condenações feitas pelos Papas, condenações que recaem sobre o Concílio Vaticano II, “o latrocínio do Vaticano II”1, como o chamou Dom Lefebvre.

Não devemos hesitar quanto a isto. Mantenhamos com firmeza o que recebemos e transmitamo-lo aos mais jovens. Tradidi quod et accepi. A doutrina sim, mas não somente a doutrina. A experiência também. A de São Pio X e de Dom Lefebvre, que perceberam muito bem o jogo do inimigo. Guardemos o fruto desta experiência e apliquemo-lo à situação atual, pois são os mesmos falsos princípios e o mesmo modo de agir que devemos enfrentar enquanto durar esta crise. As últimas canonizações são a prova disso. É uma caridade advertir ao próximo para que não caia na goela do lobo. Que a Fraternidade São Pio X não faça tais acordos, que terminarão por pô-la, de pés e mãos atados, nas mãos dos inimigos do Reino Universal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Possa a Fraternidade honrar aqueles que, por sua reação, a preservaram de uma queda sem retorno, queda esta que sempre a ameaça, infelizmente. Ainda que ela não tenha assinado nenhum acordo propriamente dito, a Fraternidade tem-se comportado, porém, como se já o tivesse feito. Ela faz o jogo do inimigo em detrimento de seus filhos, os mais devotados e mais fiéis ao combate da Fé. Até quando ela agirá assim? Até quando será desonrado Dom Williamson pela Fraternidade São Pio X, ele que provavelmente salvou Dom Fellay de um acordo em 2012 escrevendo a carta dos três bispos da Fraternidade aos superiores da mesma Fraternidade? Bem que gostaríamos de ver a obra de Dom Lefebvre restabelecida sobre suas verdadeiras bases. Graças a Deus padres de valor não deixaram que se perdesse a herança espiritual de Dom Lefebvre e resistem ao movimento pró-acordo que se manifesta nos dirigentes da Fraternidade.

Rezemos pelos membros da Fraternidade São Pio X e por nós também. Que quem está de pé se cuide para não cair.


1 “O latrocínio de Éfeso” é a expressão com que ficou conhecido o conciliábulo realizado nessa cidade por bispos que não tinham a doutrina católica, no qual fizeram decretos perniciosos, mas que eles consideravam como se fosse um verdadeiro Concílio Ecumênico da Santa Igreja, apesar de que esta o haja condenado e considerado totalmente nulo.


CRÔNICA


3 de fevereiro

Dom Prior, acompanhado do Irmão Plácido OSB. e do Sr. Deivid Nass, parte para a França, onde visitará Saint Nicolas du Chardonnet, Avrillé, Bellaigue e Morgon, os Padres Pinaud e Rioult na casa do Sr. Bonnet de Viller e algumas famílias entre as mais fiéis, antes de atravessar o Canal da Mancha para encontrar-se com Dom Williamson, o Padre Joseph Pfeiffer, os fiéis de Londres e de Middleland, antes de passar pela Irlanda e depois retornar a Paris para enfim tomar o avião de volta ao Brasil.


17 de abril

Dom Williamson, que nos honra com sua presença, consagra os Santos Óleos no Mosteiro numa longa cerimônia que exigiu longos e numerosos ensaios.


19 de abril

Dom Williamson faz uma conferência aos fiéis e crisma, em seguida, a vinte e nove pessoas.


20 de abril

A comunidade acompanha Dom Williamson ao estado da Bahia, até o mosteiro do Pe. Jahir, onde Sua Excelência reordena, sob condição, o Pe. Marcelo Masi e confere o subdiaconato ao Irmão Lourenço FBMV. e ao Irmão André O.S.B., além de ministrar o sacramento da Crisma a dezenas de pessoas.


1º de maio

Dom Prior e o Irmão Agostinho partem para a cidade de Volta Redonda, para o sepultamento da Sra. Sônia Araujo Ferreira da Costa, mãe de Dom Anjo, que fundou Bellaigue e deixou em toda parte uma viva impressão de ser um homem de Deus.


13 de maio

Cerimônia de profissão, em Anápolis – GO, das Irmãs de Nossa Senhora do Rosário; para onde fomos com alguns fiéis.


2 de junho

Visita do R. P. Fernando Lopes, cujas irmãs de Nossa Senhora do Rosário cuidam de nossa pequena escola São Bento e Santa Escolática.


NOTA DO CELEIREIRO


Estar na Resistência não é fácil. Longe disso. Os trabalhos só se intensificam. O celeireiro que o diga. Necessitamos de novas celas e de uma segunda sala de aula. Também nossa escola, aos cuidados das Irmãs do Instituto Nossa Senhora do Rosário, solicita, sem cessar, os trabalhos do celeireiro, que tenta de todas as formas obter o que falta à nossa reserva financeira.

ir. Celeireiro



Endereços e contas bancárias para correspondência e para quem quiser nos ajudar:


Soc. C. Mant. do Mosteiro da S. Cruz

Banco Itaú S.A.

Agência 0222 – conta 29186-6

Nova Friburgo – RJ


Soc. C. Mant. do Mosteiro da S. Cruz

Banco do Brasil S.A.

Ag. 0335-2 – conta 5055-5

Nova Friburgo – RJ


Sociedade Civil Mantenedora do Mosteiro da Santa Cruz

Caixa Postal 96582

Nova Friburgo – RJ

28610-974

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