CELAM-DEC



Por Gustavo Corção Publicado n’O Globo em 06-09-1973


TENHO diante de mim um grosso volume de folhas tamanho ofício oriundo do DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN DEL CELAM-DEC com este ameaçador subtítulo: PLAN DE ACTIVIDADES PARA 1974.


APARENTEMENTE, a julgar pelas siglas que designam comissões episcopais, trata-se, neste grosso volume, do grave problema da educação posto na especial e gravíssima perspectiva da educação sobrenatural, isto é, de ensinamentos da doutrina da salvação e de preceitos para a mais exigente procura da santidade. Uma pessoa pouco atualizada com a evolução do episcopado na América Latina poderia agasalhar a ilusão de encontrar no programa de ação para 1974 um cuidado especial em defesa da sã doutrina, e um zelo continental pela difusão das verdades da Fé, como também um especial trabalho de valorização dos mandamentos de Deus.


ORA, em lugar desse amor pelo tesouro de Revelação divina, e pelo Sangue de nosso Salvador, o que lemos no volumoso documento é uma série de relatórios de reuniões e de aprazamento de novas reuniões de Presidentes e Secretários das siglas. Num desses, por exemplo, lemos um título: PRINCIPIOS DOCTRINALES DE UNA EDUCACIÓN LIBERADORA. O que será isto? O texto abaixo esclarece:


I. “La Realidad Latinoamericana


1. El anhelo de liberación constituye una característica fundamental de los pueblos latinoamericanos y especialmente de la juventud. Es un signo de los tiempos que hay que interpretar a la luz del Evangelio.


2. Nuestros pueblos van tomando consciencia de su situación de dependência, de presión interna y externa; de la necesidad de sacudir todo tipo de servidumbre y de projectar hacia el futuro su vocación de ser un hombre nuevo que no solo tenga más sino que sea más.


3. Hay una injusticia institucionalizada que incluso adopta formas jurídicas"..., etc., etc. etc. Ou melhor, blá, blá, blá.


NESTA pequena amostra notamos uma primeira distorção no sentido atribuído à palavra "liberadora". Ela se aplicaria bem à situação política de países escravizados, como a Estônia, Lituânia, Letônia, Romênia etc.; mas se aplica mal para exprimir deficiências econômicas. Seria de pouca relevância essa impropriedade do termo se nós todos não soubéssemos que ela é usada por todos os revolucionários que, nesta nova linguagem tirada do liberalismo, fazem a mesma colocação dos marxistas. Não digo que os redatores da resma de papel que tenho diante de mim sejam marxistas, e que todos os bispos da infortunada América Latina sejam comunistas ou servidores úteis do comunismo. Digo apenas que o documento que leio é escrito na língua que não é católica e que seu conteúdo, se posso usar esse termo para exprimir o NADA, é particularmente medíocre, penosamente tolo.


SE EU IMAGINASSE que todos ou quase todos os bispos da infortunada América Latina conhecem esse documento e com ele se solidarizam, correria a gritar "aqui d'el rey" ou a tocar os sinos de alarme, porque nesse caso o documento me pareceria um perigoso facho incendiário preparado para incendiar o continente.


SABENDO com quase certeza que a maioria dos bispos ignora o que fazem os Presidentes e os Secretários das Siglas, e não chegam a se entristecer com o abuso do termo "homem novo" que no documento, longe de significar o homem santificado ou configurado pelo exemplo de Cristo, significa o habitante da nova sociedade sem classes, mesmo assim tenho ímpetos de gritar — porque não só pelo fogo corre o risco de ser destruída uma civilização, mas também por um dilúvio de tolices que apresente a Igreja como uma sociedade de indivíduos hierarquizados pela parvoíce.


E EU ME envergonho por todas as páginas nesse documento que insolentemente se apresenta como obra inspirada pela religião de um Deus crucificado por nós.


PARA um coração católico é intolerável todo o documento, e especialmente repulsivo nos pouquíssimos tópicos que ainda falam de Deus. Assim é que no sentido Bíblico de Liberación nos diz:


"LA INTERPRETACIÓN de esta realidad a la luz del sentido bíblico de la liberación nos enseña que, a partir de la "historia de la salvación", esta liberación se inscribe en el corazón de la historia y culmina en el misterio pascual de Cristo, Señor del Universo. Tal liberación se ordena primariamente a la creação del "hombre nuevo". (Rom. 6,4)


E AQUI está, mais uma vez, o abuso intolerável que consiste em confundir dois planos inconfundíveis. Nossa doutrina não nos ensina que Cristo veio liberar os homens das servidões exteriores, políticas ou econômicas, e sim que veio para liberá-lo do pecado, da servidão interior; e é esse homem assim liberado que São Paulo chama de "novo homem". É profundamente lamentável que organizações ditas episcopais, praticando um abuso de poder, publiquem documentos tão afastados da sabedoria, e tão aproximados da subversão que ameaça a civilização cristã.


E NÃO diga o leitor que eu esteja aqui exagerando a impropriedade de um termo usado acidentalmente ou por contágio da moda. Não, o termo "liberación" e "educación liberadora", no documento que estou analisando a contragosto, está presente desde as primeiras até as últimas páginas (mais de 100), e reaparece com a frequência obsessiva de un mot d'ordre. E não é por mera coincidência que esse mesmo termo aparece no título de um livro severamente criticado pelo Cardeal Vicente Scherer, Arcebispo de Parto Alegre, e na centena de publicações que nos chegam do Chile e dos demais países da infortunada América Latina que é hoje a meta mais cobiçada da Revolução mundial.


PODE-SE então dizer, aos leigos e aos bispos, ao Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico e a Sua Santidade Paulo VI, que há na América Latina e no Brasil uma perseguição religiosa, sim, um peculiar flagelo que o Papa chamaria de auto-perseguição religiosa, muito mais parecida com a de Judas do que com aquela de Saulo de Tarso.