Chamado de D. Williamson – dever ditado pelas virtudes teologais

Quando chamar Dom Williamson sem permissão de Dom Fellay

pode ser um dever ditado pelas virtudes teologais

São Bernardo diz que quando alguém faz o mal porque lhe mandaram, ele não faz ato de obediência, mas de rebelião. Pela mesma razão, não faz ato de rebelião aquele que desobedece aos homens para obedecer a Deus. Foi assim que em 1976, Dom Lefebvre desobedeceu a Paulo VI que lhe pediu para suspender as ordenações já previstas para o 29 de junho daquele ano. Dom Lefebvre desobedeceu a Paulo VI para obedecer a uma lei mais alta e ele se explicou com simplicidade: “Eu não quero que na hora da minha morte, Nosso Senhor me diga: ‘Então, o senhor também, o senhor contribuiu para a destruição da minha Igreja’. Não estas palavras eu não quero escutar”. E por que Nosso Senhor diria isso a Dom Lefebvre, se a obediência basta ao súdito e a culpa recai toda sobre o superior que ordena mal, segundo muitos autores entre os mais reputados? Engano. Os autores entre os mais reputados, os doutores da Igreja, como São Bernardo e tantos outros, a começar com São Pedro, ele mesmo, sempre nos ensinaram que é melhor obedecer a Deus do que aos homens. A obediência é uma eminente virtude, mas para que ela seja uma virtude é preciso que ela esteja submetida à Fé, e não somente à Fé, mas também a muitas outras como à Caridade, à Justiça, etc. Tudo está conexo na vida moral.

Ora, quando os superiores conduzem os inferiores à perda da graça divina, à perda da Fé Católica ou à sua diminuição, então os inferiores devem dizer: “Non possumus”. Poderão nos acusar, e já nos acusam, de desobediência, de rebelião e de outros pecados por termos chamado Dom Williamson para fazer as crismas no nosso mosteiro, assim como em diversos lugares do Brasil. Eles dizem: “Dom Williamson veio sem a permissão de Dom Fellay. Logo Dom Williamson é um rebelde. Logo Dom Tomás também o é”.

Teriam razão os que falam assim se Dom Fellay não estivesse agindo como agiu Paulo VI no tempo de Dom Lefebvre. Que escândalo! dirão alguns. Comparar Dom Fellay a Paulo VI?! Sim, caro leitor, a comparação, infelizmente, não é gratuita, nem desprovida de fundamento.

Vejamos, pois, este ponto que é o ponto nevrálgico da questão. Paulo VI contribuiu com grau supremo à auto-demolição da Igreja. Ora, Dom Fellay está fazendo o mesmo com a Tradição. Muitos dirão: “Nego. Dom Fellay está salvando a Tradição. Dom Fellay é o esteio da Tradição. Dom Fellay é o mais ilustre e fiel dos filhos de Dom Lefebvre!” Agora sou eu que digo: “Nego” e o demonstro.

Comparemos as palavras e atitudes e doutrina e combate de um e outro. Dom Lefebvre diz que o Concílio Vaticano II foi o maior desastre da história da Igreja desde a sua fundação. Dom Fellay diz que na Fraternidade então fazendo o grave erro de considerar os erros do Concílio Vaticano II como super heresias[1]. Dom Lefebvre reprovou vivamente aqueles que fizeram acordos com Roma, se submetendo à autoridade dos modernistas. Se ele hesitou antes de tomar uma posição mais determinada a este respeito foi porque lhe repugnava fortemente sagrar Bispos sem a permissão de Roma. Ele esperou para que a Providência lhe mostrasse com os fatos que a sagração era realmente o caminho a seguir para a preservação de Fé católica, ou seja, para a preservação da Santa Igreja. Dom Fellay, ao contrário, procura os acordos, sem antes ter as mesmas razões que Dom Lefebvre tinha para fazê-lo.

Vejamos mais atentamente este ponto. Dom Lefebvre esperou ter um sinal da Providência a respeito das sagrações sem permissão de Roma e teve dois: Assis I em 1986 e a resposta de Roma às suas objeções a respeito da liberdade religiosa, creio que também em 1986 ou começo de 1987. Qual dos dois sinais Dom Lefebvre considerou o mais importante? O segundo, ou seja, a reafirmação, por parte de Roma, dos falsos princípios a respeito da liberdade religiosa. Ora, o que faz Dom Fellay após as discussões doutrinárias, que se terminaram pela constatação da radical incompatibilidade entre o ensinamento da Igreja defendido pela Fraternidade e o ensinamento modernista defendido pela Igreja Conciliar? Diante dessa reafirmação de princípios falsos, que faz Dom Fellay? Age como Dom Lefebvre? Não.[2] Mas faz exatamente o contrário. Ele vai adiante. Mas alguns dirão: “Dom Lefebvre também foi adiante, já que após a resposta de Roma, após o anúncio das sagrações feitos em 1987, após o pedido de Roma para iniciar negociações, Dom Lefebvre aceitou tratar com Roma e assinou um pré-acordo.” Boa objeção. Sim. Dom Lefebvre aceitou, mas ele mesmo disse: “Eu fui longe demais” e pôde constatar melhor aquilo que ele declarou ao Cardeal Ratzinger: “Nós queremos coisas opostas. Nós queremos cristianizar a sociedade e os senhores querem descristianizá-la.”

Ora, Dom Fellay parece esquecer tudo isto. Mas dirão ainda os defensores de Dom Fellay: “Roma mudou. A situação não é a mesma.” Será que é preciso demonstrar e demonstrar de novo e recomeçar a demonstrar indefinidamente as mesmas coisas? Será que não veem que Bento XVI não mudou nada? Será que não leram a Pascendi, na qual São Pio X diz que o modernista é capaz de escrever uma página católica e, em seguida, no mesmo livro, uma outra anti-católica? Roma não mudou, contrariamente ao que diz Dom Fellay. Roma pode variar na superfície, mas o fundo é sempre modernista. Roma terá mudado quando ela voltar à Tradição e aceitar a Pascendi, a Quas Primas, o Syllabus, etc. Antes disso Roma não terá mudado.

Mas, dirão ainda alguns, com Dom Fellay e o Pe. Iscara, que a solução virá aos poucos, gradualmente. Sim, respondemos nós. Provavelmente, embora haja outros meios, como um terrível castigo que mude a face da terra. Mas admitamos que a solução venha aos poucos. Se assim fôr, ela será pela mudança gradual de Roma, uma mudança que levará Roma à Tradição. Mas o que estamos vendo é o contrário. É uma mudança gradual da Tradição, que se aproxima da Roma modernista, uma Tradição que abaixa o tom[3], e pune os seus melhores defensores[4].

Não é, pois, a conversão de Roma que estamos assistindo, mas a caída gradual da Tradição, ou seja, sua própria auto-demolição, a não ser que ela acorde a tempo e retome o combate, sob as ordens daquela que venceu todas as heresias em todo o mundo.

Eis aí as razões que nos fizeram convidar Dom Williamson ao Brasil, pois é com todos os que prosseguem no caminho traçado por Dom Lefebvre que se obterá o triunfo da Igreja, porque Dom Lefebvre não inventou nada e pôde dizer com Nosso Senhor: “Minha doutrina não é minha, mas d’Aquele que me enviou.” Trata-se, pois, de nos ater à doutrina que o Pai revelou ao Filho e o Filho à Igreja e a Igreja a nós. Fora disso só há caos e condenação eterna, pois fora da submissão a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Esposa legítima não há salvação.

Ir. Tomás de Aquino

6 de setembro de 2012

[1] Carta de Dom Fellay aos três Bispos (14 de abril de 2012)

[2] A isto se acrescentam todas as reuniões inter-religiosas renovadas desde 1986 até hoje, além de inúmeros atentados a Fé Católica por parte de Bento XVI.

[3] Ver carta dos três Bispos a Dom Fellay e a seus assistentes.

[4] Basta ver o que se passou com os capuchinhos, dominicanos e alguns membros da Fraternidade, sejam eles padres ou mesmo Bispos.

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