Dom Lefebvre e o "una cum"



Dom Lefebvre e o "una cum"



No cânon da Missa, o sacerdote começa rezando pela Igreja:


“In primis quae tibi offerimus pro Ecclesia tua sancta catholica, quam pacificare, custodire, adunare et regere digneris toto orbe terrarum una cum famulo tuo Papa nostro N. (Em primeiro lugar, vo-los oferecemos por vossa santa Igreja católica – dignai-vos, através do mundo inteiro, dar-lhe a paz, protegê-la, reuni-la na unidade e governá-la, – e também por vosso servo nosso Papa N. ¹)"


No Sel de la Terre nº 37 (p. 240), Dominicus publicou uma “Disputatio sobre o una cum” ² para explicar e defender o verdadeiro sentido dessa oração. Abaixo, damos explicações de Dom Lefebvre, tiradas de uma de suas conferências do retiro pregado às religiosas de Saint-Michel-en-Brenne, em 1º de abril de 1989.


Podemos acrescentar às palavras de Dom Lefebvre a opinião do próprio Santo Tomás de Aquino. Em seu comentário sobre as orações da Missa (III, q. 83, a. 4), ele escreve:


“Deinde sacerdos secreto comemore, primo quidem, illos pro quibus hoc sacrificium offertur, scilicet pro universali Ecclesia, ET PRO his qui “in sublimitate sunt constituti” (I Timóteo 2, 2); et specialiliter quosdam qui offerunt vel pro quibus offertur. (O sacerdote, em voz baixa, comemora aqueles por quem este sacrifício é oferecido, ou seja, pela Igreja universal­, E POR aqueles que, segundo São Paulo, "estão estabelecidos em dignidade", e especialmente aqueles que oferecem ou por quem se oferece.)”


Assim, para Santo Tomás de Aquino, “ una cum” nesta oração equivale a “ et pro (e por)”.


Le Sel de la Terre



DOM GUILLOU repassa todas as orações do Cânon Romano. Ele as repassa uma após outra e mostra a diferença. Ele dá traduções, traduções muito boas. (...) Por exemplo, para esse famoso una cum..., una cum dos sedevacantistas.


"Ah! Os senhores rezam una cum? Rezam una cum no cânon da missa! Então não podemos rezar com os senhores, os senhores não são católicos, não são isso, não são aquilo, não são...”


Ridículo! ridículo! Porque eles pretendem que quando se reza una cum summo Pontifice, com o Papa, então se está aprovando tudo o que o Papa disser. É ridículo! Esse não é o significado da oração.


Te igitur clementissime Pater. Esta é a primeira oração do Cânon. Eis como Dom Guillou a traduz, uma tradução muito exata (...): "Portanto, nós vos pedimos com profunda humildade, Pai misericordioso, ­e vos suplicamos por Jesus Cristo, vosso Filho, Nosso Senhor, que vos digneis aceitar e abençoar estes dons, estes presentes, estes sacrifícios, puros e imaculados, que vos oferecemos primeiro pela vossa santa Igreja Católica. Seja de vosso agrado dar-lhe a paz, guardá-la, mantê-la na unidade e governá-la por toda a terra, e com ela, o vosso servo, nosso Santo Padre, o Papa..."


Não está dito nessa oração que abraçamos todas as ideias que o Papa possa ter ou todas as coisas que ele possa fazer. “Com ela, vosso servo, nosso Santo Padre, o Papa, nosso Bispo e todos aqueles que têm o culto da fé ortodoxa, católica e apostólica!"


Então, justamente na medida em que, eventualmente, infelizmente, os papas [...] estiverem deficientes na fé ortodoxa, católica e apostólica, pois bem, não estamos em união com eles, não estamos com eles, é claro. Rezamos pelo Papa e por todos aqueles que têm o culto a fé ortodoxa, católica e apostólica!


Ele [Dom Guillou] fez uma pequena nota sobre esse assunto, precisamente para esclarecer um ­pouco:


Na tradução oficial, baseada em um estudo crítico de Dom Botte, o UNA CUM, ou "em união com" dos sedevacantistas de todo tipo, equivale apenas à conjunção "e" reforçada, seja pela necessidade de ­retomar a frase, seja para combinar com o estilo solene do cânon romano. Em todo caso, todo católico permanece sempre em união com o Papa na esfera precisa em que se exerce a assistência divina, infalibilidade confirmada pelo fato de que tão logo haja um afastamento da tradição dogmática, o discurso papal se embaraça em contradições.


Recolhamos o bom grão, sabendo que, de resto, agora é mais do que nunca necessário pedir a Deus, com as antiquíssimas Ladainhas Maiores, que as “ordens eclesiásticas” e o próprio “Senhor Apostólico” (isto é, o Papa) sejam “preservados na santa religião”: “Ut dominum apostolicum et omnes ecclesiasticos ordines in sancta religione conservare digneris, te rogamus, audi nos."


É um dos pedidos da Ladainha dos Santos. Pedimos a Deus que conserve o Papa na verdadeira religião. Pedimos isso nas Ladainha dos Santos! O que prova que às vezes pode acontecer que, infelizmente, talvez haja hesitações; há passos em falso; há erros que são possíveis.


Desde o primeiro Concílio Vaticano, acredita-se com muita facilidade que qualquer palavra que sai da boca do Papa é infalível. Isso nunca foi dito no Vaticano I! O Concílio nunca disse tal coisa. Condições muito precisas são necessárias para a infalibilidade; condições muito, muito específicas. A melhor prova é que durante todo o Concílio [Vaticano II], o próprio Papa Paulo VI disse: “Não há nada neste Concílio que esteja sob o caráter da infalibilidade”. Então está claro, ele mesmo o diz! Ele o disse explicitamente.


Não se deve manter essa ideia, que é falsa, e na qual um certo número de católicos mal instruídos, mal ensinados acreditam! Então, evidentemente, não entendem mais, ficam completamente desesperados, não sabem mais a que se ater!


Devemos conservar a fé católica como a Igreja a ensina.


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1 — Tradução retirada de: New Sunday Missal, traduzido e apresentado pelos Beneditinos ­de Hautecombe, Brepols, Paris, 1961.

2 — Ver também Le Sel de la Terre nº 39, p. 263.


Le Sel de la Terre nº 90, OUTONO 2014