Doutrina monástica

A DOUTRINA MONÁSTICA

DE

DOM ROMAIN BANQUET

FUNDADOR E PRIMEIRO ABADE

DE EN-CALCAT

Tradução do original francês.

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I: A herança do Pe. Muard

1. O DIÁRIO DE DOM ROMAIN

2. NOTAS DE MADEMOISELLE MARIE CRONIER

TESTAMENTO DE DOM ROMAIN

CAPÍTULO II: A família monástica

1. – O ESTADO MONÁSTICO

2. – A REGRA

3. – O ABADE

4. – A COMUNIDADE

5. – O NOVICIADO

6. – OS VOTOS

1. Estabilidade

2. Conversão de Costumes

3. Obediência

4. Pobreza

5. Castidade

CAPÍTULO III: A vida monástica

1. – O OPUS DEI

A .  A salmodia

B.  O canto

C.  As cerimônias

D.  O ofício da noite

E.  Pensamentos esparsos

2. – A ORAÇÃO

3. – A LEITURA

A.  Sagrada Escritura

B.  Evangelho

C.  Documentos da Santa Sé

D.  Santo Tomás

E.  Estudos

4. – O TRABALHO MANUAL

5. – A ESCOLA MONÁSTICA

6. – AS MISSÕES

7. – O REFEITÓRIO

8. – A CELA

CAPÍTULO IV: O espírito monástico

1. – ESPÍRITO DE HUMILDADE

2. – ESPÍRITO INTERIOR

Espírito de silêncio

3. – ESPÍRITO DE IMOLAÇÃO

4. – ESPÍRITO DE POBREZA

5. – O SAGRADO CORAÇÃO

Conforme o decreto de Urbano VIII, declaramos que, se no curso desta obra, damos a certas pessoas o título de santo ou falamos de revelações, não é de nenhum modo querendo nos antecipar às decisões da Santa Igreja, à qual nos submetemos inteiramente.

INTRODUÇÃO

ÍNDICE

A maior parte das pessoas que conheceram Dom Romain Banquet vêem nele um homem de Deus. As almas que se confiaram a ele aprenderam, escutando-o ou simplesmente olhando-o, o que é a autoridade sacerdotal. Ele falava, decidia, dirigia “tanquam auctoritatem habens”, como um homem que acredita na autoridade que recebeu de Deus e que faz uso dela segundo a necessidade das almas. Tudo, nas suas maneiras, tinha o caráter real da autoridade divina. Não era alto, mas sua dignidade se impunha. Sentia-se estar diante de uma alma elevada, forte e simples como um bloco de cristal. Nada o interessava fora de Deus. Quando a conversa se desviava para outro assunto, ele não escutava mais. Procurava somente a Deus. Achava-se que ele não teria lido nenhum livro por curiosidade nem por lazer. Ele parecia feito para agir, para combater, para construir e governar. Não se atrapalhava com sutilezas, análises ou cálculos. Ia direto a Deus. Para isso ele tinha necessidade de alguns princípios indiscutíveis. A Revelação, a Igreja, a Regra de São Bento lhos ofereciam. Ele discerniu os que são essenciais e apegou-se a eles  duma maneira absoluta. Qualquer que fosse o problema que se apresentasse, num rápido olhar, ele captava a relação deste com o princípio e decidia. Nenhuma incerteza dividia o seu espírito. Sua ação era rápida, contínua, irresistível.

Nas suas cartas e nos textos de suas conferências para as monjas de Santa Escolástica de Dourgne, que foram piedosamente guardados, a apresentação da doutrina parece dominada pela afirmação desses princípios. É um chefe que ensina em vista da ação. Não faz demonstrações. Ele dá palavras de ordem, encontra expressões concisas, ardentes, inesperadas, que tocam o espírito, comunicam suas convicções e inflamam o coração.

O sucesso da obra de Dom Romain prova a eficácia desse ensinamento. A comunidade de En-Calcat tinha somente treze anos quando foi expulsa de seu mosteiro. Depois de vários anos de exílio na Espanha, ela recomeçava a prosperar em Besalu, quando a guerra de 1914 disseminou seus monges pelos campos de batalha. Dez deles foram mortos. Essas provações não aniquilaram a fundação de Dom Romain. A comunidade, por humilde e fraca que fosse, sabia bem o que queria, a que aspirava e com que meios podia atingir o seu fim. Qualquer coisa que acontecesse, não havia hesitação nenhuma, nem divisão. Ela tinha unidade pela sua concepção da vida monástica, pelos princípios muito simples, práticos e elevados sobre os quais seu fundador a tinha solidamente estabelecido. Em todas as circunstâncias, ficou  inabalável. O ensinamento de Dom Romain Banquet foi comprovado.

Encontrar-se-ão nas páginas seguintes esses princípios, recolhidos de conferências, cartas e de alguns escritos, tais como ele os ensinava a seus filhos. Esses fragmentos inigualáveis datam, os mais antigos, de 1883 e os mais recentes de dezembro de 1928. Algumas perguntas e reflexões que foram inseridas nos diversos textos, a fim de lhes dar uma unidade, formam com eles uma espécie de diálogo

A DOUTRINA MONÁSTICA

DE DOM ROMAIN BANQUET

CAPÍTULO I: A herança do Pe. Muard

ÍNDICE

Para conhecer os projetos de Dom Romain Banquet quando, em 27 de fevereiro de 1890, ele abençoava a primeira pedra da abadia de São Bento de En-Calcat, basta consultar sua correspondência e, em seguida, as conferências nas quais ele expôs suas idéias. As folhas já envelhecidas guardam intactas suas palavras, o torneado de suas frases, suas expressões; e tudo parece ganhar vida novamente. Escutamos sua voz, revemos seus gestos, ele está aqui, de pé, diante de nós, seus olhos azuis fitando os nossos. Nos fala com a autoridade de um chefe e de um pai. À  pergunta que lhe fizemos: “Fundando En-Calcat, o senhor tinha um plano bem preciso, bem definido? Qual era sua idéia?” Ele respondeu: “Fazer uma verdadeira casa do Pe. Muard.” O Pe. Muard era um sacerdote da diocese de Sens que, depois de ter sido pároco de Joux-la-Ville e de Saint-Martin-d’Avallon, fundou uma sociedade de missionários diocesanos em Pontigny, e depois, em 1850, o mosteiro beneditino de “La Pierre-qui-Vire”. Ele faleceu em 1854.

“Cheguei a La Pierre-qui-Vire nove anos após a sua morte. Respirei com toda a minha alma o perfume vitorioso de santidade que o servo de Deus tinha deixado nesse deserto. O Padre Muard tornou-se o ideal da minha vida interior.”

“É o São Bento do século XIX. A caraterística de sua santidade é, ao mesmo tempo, a caraterística mais direta, mais larga e mais segura de toda santidade cristã: o amor divino. Basta olhar os detalhes da sua existência para chegar a essa conclusão. É a caraterística de todas as fases da sua vida. Seu desejo ardente do martírio desde criança, que o acompanha durante sua adolescência, sua juventude, no seminário maior e durante seu ministério sacerdotal, o revela… seu desejo das missões estrangeiras e, depois, o sacrifício total feito a Deus de todas as suas aspirações para fundar, primeiro, a Congregação dos Missionários de Pontigny e, por fim, o mosteiro beneditino de “La-Pierre-qui-Vire”… Enfim, ele morre consumido pelo amor de Deus.”

“Esta santidade está acompanhada de sinais que afastam qualquer equívoco: a imolação constante de si mesmo, a engenhosidade dos seus sacrifícios  pelas almas e por Deus. Ele só pensa no seu próximo e no seu Deus.”

“A grandeza do seu amor por Deus faz pressentir a pureza da sua vida: É uma vida angélica do começo ao fim. Todos diziam: – É um santo! É um pequeno santo! Um santo padre! O santo pároco! O santo missionário! Conheci padres que viveram com ele no seminário maior de Auxerre e que declaravam: “É um santo, da santidade mais autêntica.” Esta característica de santidade foi notada por todos os que se aproximaram dele. Ele comunicava o seu amor. Não era possível aproximar-se dele sem se deixar levar por esse amor. Contava com igual prestígio entre as comunidades que o ouviam e entre seus discípulos. O soberano pontífice Pio IX ficou impressionado pela irradiação daquela santidade e, no entanto,  o Pe. Muard se apresentou em trajes mais que modestos diante do Santo Padre; muito pobre, miserável, um pouco como São Bento Labre. Assim foi recebido em audiência em Gaeta.”

Como ele se tornou beneditino? – O Pe. Muard tinha o espírito de São Bento antes de chegar a São Bento, de tal maneira que assim que travou conhecimento com a Regra, pensou: “Eis o que Deus me pede”.

“Um dia estava andando e rezando, de repente Deus mostrou-lhe o plano da ordem religiosa que seria preciso estabelecer: uma ordem penitente, pobre, retirada na solidão, consagrada sobretudo à oração a fim de tornar o apostolado mais eficaz. Ele viu essa ordem dividida em categorias, umas  dedicadas à oração e ao estudo, outras mais aplicadas ao trabalho manual, de tal maneira que a comunidade pudesse ser auto-suficiente. Era a visão da ordem monástica tal como ela era no início. Não havia então diferença entre os irmãos conversos e os religiosos de coro. Ao mesmo tempo, o Pe. Muard sentia um impulso irresistível no sentido de que devia fazer aquilo, que devia estabelecer uma família monástica daquele tipo. Deus assim o queria.”

“O Pe. Muard dirigia nesse tempo uma fundação de missionários que acabava de estabelecer em Pontigny. Ele rezou, resistiu e dizia a si próprio: “Não, isso é impossível, é uma loucura!” Ele fez retiros, consultou os homens mais distintos que conhecia, entre eles o Pe. de Ravignan e o Pe. Lacordaire, o abade da Trapa de Sept-Fonts e, ainda, seus diretores. Fez um retiro após outro. Quanto mais ele pensava e rezava, mais sentia que devia por mãos à obra. Mas nenhuma regra lhe foi apresentada com precisão, e sua intenção era de  não compor, ele próprio, nenhuma: “É preciso que eu escolha entre as regras antigas “, dizia consigo mesmo.”

“Ele tinha pedido, como sinal da vontade de Deus, dois companheiros: um padre e um leigo. Um dia  ele se achava no seminário maior de Sens onde, através de um grande portão, via-se até o fundo do jardim. Um jovem diácono passava pela ala central. O Pe. Muard disse ao padre que o acompanhava: “Ah! Aí está o meu sacerdote!” Nunca o havia visto antes. O jovem diácono queria ser religioso. Ele fora suplicar ao padre que o levasse consigo: este o aceitou e lhe disse: “Está bem.”

“Estava passando um outro dia na rua duma aldeia. Encontra um carpinteiro  no seu caminho. A conversa começa, e o padre lhe diz: “O senhor irá comigo. – Sim, senhor.” E o irmão Mauro se entendeu com sua família, deixou seu trabalho, tudo, e foi para Pontigny. O Pe. Muard já tinha seu programa definido. Ele sabia que naquele momento não poderia deixar Pontigny. Ninguém sabia de nada. O irmão Mauro pensava em entrar lá, mas o padre lhe disse: “Não, não é para aqui. Se quiser, é outra coisa. – Quero o que o senhor quiser.” E adotaram um regime de vida nada fácil, a fim de se prepararem para partir para a Itália.”

“O Pe. Muard compreendeu que devia ir a Roma, onde as tradições religiosas estavam mais bem conservadas. Estava com seus companheiros. Eis como lhes impôs suas condições: “Meus irmãos, vamos fazer a vontade de Deus. Se quiserem saber aonde estamos indo, não sei dizer. A Roma, mas muito pobremente. O que faremos? Não sei de nada. Como voltaremos? Sei menos ainda. Se não têm coragem de ir, não vão. Irei sozinho.” É realmente a maneira  de proceder dos grandes fundadores.”

“Partem então a pé até Ars. Ali se detêm para consultar o cura d’Ars, que lhes diz: “Oh! Sim! É a vontade de Deus. Deus o quer certamente. É a vontade de Deus.” O irmão Bento se aproxima e o cura d’Ars, com sua voz fraca, lhe diz: “Vá, meu filho, siga-o. Deus os cumulará de graças. É a vontade de Deus.”

“A iniciativa pessoal do Pe. Muard o levava para a Regra de São Francisco de Assis, porque ele amava a pobreza. Mas, em Roma, os franciscanos o mandaram embora, contrariamente ao costume deles. Tomaram-no por louco. Todos os franciscanos o puseram para fora: tratavam-no como a um aventureiro. E cada vez que era despedido, ele entrava na primeira igreja que encontrava e dizia: “Te Deum laudamus.”

“Um dia no Vaticano, um arquiteto francês lhe indica Subiaco. O abade o recebe como um enviado do céu. Vendo-o, aquele beneditino, de espírito largo porém preciso, inclina-se diante do Pe. Muard, cheio de veneração e considera a vinda dele como um dom de Deus. Ele se tornou o diretor do Pe. Muard. Foi, pois, a um beneditino da velha cepa que Deus o dirigiu.”

“Nosso Pe. Muard tomou a Regra de São Bento, porque Deus a pôs na sua mão. Ele a leu. Ele não a conhecia ou a conhecia duma maneira confusa, e à medida em que ia lendo ele se dizia: “É isso. Eis o que Deus quer.”

“Fez uma apresentação completa de tudo o que desejava a Pio IX e este lhe disse as seguintes palavras: “Vá, meu filho, faça tudo isso. Mas não acabe com o “irmão asno”[1]. Depois, quando voltar, acertaremos tudo. Faça isso.” Pio IX tinha sido conquistado por seus argumentos e sua santidade.”

“No começo não havia nada em La Pierre-qui-Vire. A característica marcante, a mais incontestável era, sem dúvida alguma, o sobrenatural. Havia unicamente o sobrenatural, nada de humano.”

“O Pe. Muard não é um gênio. Seus primeiros discípulos eram  simplesmente  pessoas de bem. Nenhum deles fez qualquer descoberta notável. Se alguém era despretensioso era  o próprio Pe. Muard. “Não sou fundador.” – Quais são seus últimos desejos? perguntavam-lhe seus discípulos. – “Não sou fundador, repetia: O fundador é o Sagrado Coração.”

“Quanto aos recursos: nada! Foi dado ao Pe. Muard o essencial para construir uma casa.  A primeira construção de La Pierre-qui-Vire? Um casebre. Seus filhos precisavam de um alojamento e havia somente troncos no chão. Fizeram um barracão de madeira e palha. Uma parte servia de capela. A casa tinha de quinze a dezesseis metros de comprimento. A capela ficava na extremidade. Um cômodo servia de refeitório e de sala de conferência. Do outro lado, estava a cozinha. Uma espécie de sótão servia de dormitório para o irmão Mauro, que dormia na palha. O Pe. Muard dormia sobre a bancada de ferramentas. Viveram lá de 2 de julho até o mês de outubro de 1850.”

“Edificaram com suas próprias mãos seu mosteiro, e não é brincadeira construir em La Pierre-qui-Vire. Era necessário retirar rochedos e aplainar os terrenos íngremes. O Pe. Muard havia profeticamente marcado com seu bastão o lugar que Deus queria. No lugar exato marcado por ele se acha hoje o altar-mor da grande igreja de La Pierre-qui-Vire. Conservamos aquele projeto a fim de obedecer à vontade de nosso santo fundador.”

“Eles tinham somente as pequenas coisas que lhes eram dadas. Um dia sobravam dois tostões. Passa um pobre. Ficaram encantados em oferecer-lhe sua moeda de dois tostões. Acharam que sua fortuna estava completa. Tinham tudo o que era necessário para dizer missa: tinham um cálice, que foi usado por nós durante muito tempo: a copa de prata dourada, o pé de cobre dourado. O vestuário não era nada opulento. Um só hábito de reserva para todo mundo. Quando era preciso consertar algum, aquele hábito deveria servir para todos os tamanhos. Para alguns, ele era demasiadamente comprido; para outros, demasiadamente curto. Os hábitos eram lavados e costurados no mosteiro. Isso se fazia como se podia sem recorrer a ninguém de fora. Irmão Mauro era homem que sabia fazer de tudo.”

“As pessoas da redondeza eram camponeses. Eles traziam legumes, nabos e couves. Não era difícil cozinhar: para a sopa, punha-se água e sal numa panela, e ali se colocavam os legumes nesse caldo, e mergulhava-se o pão. Uma vez a sopa foi feita com maçãs silvestres.”

“Assim viveu aquela santa gente! E os mais fortes ainda pregavam missões!”

“Havia pessoas que vinham a La Pierre-qui-Vire. Montalambert, que ficava na vizinhança, no castelo de La Roche, era um admirador e um amigo dos beneditinos de La Pierre-qui-Vire. Monsenhor Dupanloup também. Vi os dois lá. Os castelões dos arredores vinham também. O espetáculo que tinham diante dos olhos os transportava a séculos passados. Deus queria que as coisas fossem assim ao começo de La Pierre-qui-Vire. Sem dúvida eles ficaram profundamente edificados.”

Esses começos tão pobres e tão austeros foram conformes à Regra de São Bento? – “O Pe. Muard começou como nosso Pai São Bento, como São Bernardo, como todos os grandes fundadores.”

“O Pe. Muard não inovou nada em relação à Regra, não fez nada mais que São Bernardo, que São Bernardo Ptolomeu, nada mais que os santos que adotaram a Regra de Nosso Pai São Bento e que se serviram dela com um fim determinado. Tomou a Regra tal como ela é e, por causa de sua preocupação com a penitência e a austeridade, quis praticá-la, na medida do possível, no seu rigor primitivo.”

“Estabeleceu um horário de levantar noturno que permitia  não se deitar novamente. Fazendo isso não inovava nada, pois a ordem de Cister praticou assim o horário noturno. Levantava-se às três horas, deitava-se às oito horas. Ele era discreto tanto quanto podia, tendo em vista os desígnios de Deus. Deus lhe pedia penitências pelas almas e pelos crimes que se cometem. Adotou a média de sono da Trapa. Os trapistas têm sete horas de sono contínuo durante o inverno. No verão, eles se deitam às oito horas e se levantam às duas horas da madrugada. O Pe. Muard havia estabelecido levantar às três horas.”

“Ele abrandou o jejum, pois em seu regulamento havia uma colação todas as noites. É mais brando que nos trapistas que tinham uma refeição de vinte e quatro em vinte e quatro horas, às duas horas da tarde, desde o dia 14 de setembro até o começo da Quaresma; e durante a Quaresma, às dezesseis horas. Nosso Pe. Muard coloca a refeição ao meio dia, a colação à noite sempre, e quando alguém estava com fome de manhã, comia um pedaço de pão e tomava uma sopa leve. Era uma mitigação. Dever-se-ia seguir o jejum em qualquer parte, no mosteiro ou enviado em Missão.”

“A respeito da abstinência, Nosso Pai São Bento não exclui nenhum alimento, a não ser a carne de quadrúpedes. O Pe. Muard queria que se fizesse abstinência de tudo a não ser de pão, de ovos, de sal, de frutas, de legumes. Onde ele punha discrição era em conceder mitigações. O pão dá muita energia e se comia muito pão.”

“O Pe. Muard estabeleceu o apostolado. Realmente quem acha espantoso ver os beneditinos pregarem, está fechando os olhos para os sete primeiros séculos de nossa ordem. O monge sacerdote fica à disposição para fazer apostolado se a Igreja lho pedir. Ora, quando o Pe. Muard estabeleceu a Regra, a necessidade de missões era mais importante que nunca. Ele não inovou realmente nada.”

“De resto, não excluía nada. Quando perguntavam-lhe: “Mas o que é que o senhor fará? – Todas as obras que podem servir a Deus e à Igreja, exceto as que sejam incompatíveis com a Regra de São Bento.” Falando assim, ele resumia os séculos mais fervorosos de nossa ordem.”

“Ele estabeleceu um silêncio perpétuo. Inovação? De maneira alguma. Ele tomou a Regra palavra por palavra. Alguns vão dizer: mas e Cluny? Cluny não é o primeiro modelo da Regra. Os cistercienses adotaram o silêncio perpétuo. Os cartuxos o praticaram durante muito tempo. Agora, por razões sábias, a Santa Igreja lhes impôs momentos de recreação. Em La Pierre-qui-Vire tínhamos os sinais monásticos, e posso lhes dizer que o silêncio não é uma privação. Tive a felicidade, durante quatro anos, de não ter de me acusar de  uma só palavra contra o silêncio. Eram raras as acusações de faltas contra o silêncio. Éramos fustigados em público. Jogava-se uma disciplina para o culpado, um círculo se formava, ele apanhava a disciplina e se batia com ela. É um erro deixar cair essa sanção em desuso. Agora temos o silêncio, mas não perpétuo. O silêncio não era um constrangimento, ele dava uma grande facilidade para o trabalho intelectual.”

“A pobreza! Gostaria de saber em que estilo Nosso Pai São Bento construía os mosteiros. Não se pareciam certamente com a torre de Babel. Vê-se que a mais austera pobreza presidiu o nascimento da Ordem de São Bento. Houve dias em que os monges não tinham absolutamente nada para comer. Ia-se ao refeitório, dizia-se o “Benedicite”, o celeireiro não tinha nada para dar aos irmãos, São Bento os consolava, e, milagrosamente, Deus mandava víveres. Isso mostra uma pobreza extrema. E ainda reprovaram o Pe. Muard por causa de sua pobreza: “É um exagerado! Vejam como é ridículo!”

“O Pe. Muard foi onde Deus o guiou. Não se guiou a si mesmo. Não fez uma obra humana. Não é uma nuance da Ordem de São Bento que ele quis estabelecer.”

“Quanto ao trabalho manual, havia, e era feito com seriedade. Durante as férias, a tradição era de deixar a pele das mãos no cabo das picaretas. Era necessário trabalhar seriamente, pois o solo era granítico. Tínhamos picaretas com pontas terríveis. e mesmo assim com uma forte pancada, arrancávamos pedaços bem pequenos. Honrar o trabalho manual não é inovar. É a Regra.”

O Pe. Muard tinha o espírito beneditino?

“Tinha o espírito de São Bento. Praticou, num grau heróico, todas as virtudes que nosso bem-aventurado Pai ensina na sua Regra. Como o espírito beneditino consiste nisso, ninguém, neste século, demonstrou duma maneira mais viva e mais evidente o que é um filho de São Bento. É difícil  definir o espírito do Patriarca dos monges. Lemos que São Bento era cheio do espírito de todos os justos: “Omnium justorum spiritu plenus fuit”. O espírito de todos os justos pode-se definir assim: uma adesão total, permanente à vontade divina. São Bento simplesmente recebeu ordens do Céu e as cumpriu. Nosso Pe. Muard simplesmente recebeu ordens do Céu e as cumpriu. Sabem onde encontro a exata definição do espírito do Pe. Muard? No texto do prefácio de Nosso Pai São Bento. “Ducem et magistrum coelitus edoctum”[2]. É a característica deste grande beneditino: receber, experimentar, fazer controlar pela Igreja e executar as ordens do Céu.”

“O Pe. Muard faz parte dos maiores beneditinos do século XIX. De todos os beneditinos contemporâneos, é um dos maiores santos, um dos mais autênticos enviados de Deus, um dos mais semelhantes a São Bento, o patriarca dos monges. E entre os restauradores da Regra, um dos mais ousados e completos.”

“Olhando para trás, até as origens de nossa ordem, encontro a santidade brilhando sozinha com seu mais forte brilho na pessoa de nosso glorioso Pai, de Santa Escolástica e dos seus primeiros filhos. Mais tarde, a ordem brilhou por sua ciência, seu poder e suas riquezas, mas foi também por essas coisas secundárias que ela pereceu, quando os monges deram a elas uma importância dominante e relegaram a santidade ao segundo plano. Sendo essa consideração histórica inexpugnável, quem não vê logo a gloriosa semelhança entre nosso Pe. Muard e nosso Pai São Bento, entre as origens da ordem e as de La Pierre-qui-Vire?”

Foi o Pe. Muard quem atraiu o senhor a La Pierre-qui-Vire? – “Foi unicamente a fama da sua santidade que me fez ultrapassar os obstáculos que estavam diante de mim e que tornavam moralmente impossível minha entrada em La Pierre-qui-Vire.” Sem ele o senhor não se tornaria beneditino? – “Entrei na ordem de São Bento, porque os seus exemplos me encantaram.” – O senhor, portanto, só pôde conceber sua fundação de En-Calcat  segundo o espírito do Pe. Muard. – “Devemos fazer de nosso Mosteiro de São Bento de En-Calcat uma verdadeira casa do Pe. Muard, que traz a sua marca e a sua efígie e vive de seu espírito e de suas idéias, modificando no entanto quanto ao exterior, alguns pontos da observância que ele mesmo teria modificado.”

Dois documentos nos fazem conhecer a origem desse pensamento de Dom Romain:

1. uma página de seu diário íntimo.

2. uma n