Glória ao Homem



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 31-01-1974


ESTUDANDO em Santo Tomás o problema da necessidade da Graça, contido na Iª. IIªe. qu. 109, detenho-me nos pontos em que o Doutor Angélico conclui que, no estado de corrupção o homem já não pode por suas próprias forças naturais realizar, em toda a sua plenitude, o bem, o próprio bem natural proporcionado à sua natureza. Poderá sim fazer aqui e ali coisas boas, atos bons. Mas não será capaz de viver bem sem desfalecimentos e descontinuidades.


SANTO Tomás aborda o problema pensando no homem em estado posterior ao pecado original; mas não aborda o problema do que será e do que poderá, não apenas um homem afastado de Deus, ainda mergulhado numa civilização, de algum modo cristã, mas este outro pavoroso problema que para nós se arma com extrema angústia: o que poderá fazer de bom uma civilização, um mundo inteiro afastado de Deus.


ATÉ hoje vivemos a experiência do ateísmo esparso e individual; e até, por uma antítese que talvez não seja muito difícil explicar, temos a experiência vivida de homens que se dizem ateus e que nos confundem com virtudes que muitas vezes não encontramos onde elas deveriam ser viçosas e abundantes. Eu possuo uma especial coleção de ateus ou pseudo-ateus pelos quais tenho real admiração e profundo respeito. Tenho para mim que essas pessoas possuem a fé oclusa das criancinhas batizadas, mas padecem de um bloqueio psicológico que os impede a clara consciência, ou digamos assim: a clara consciência das obscuridades próprias da Fé, e por conseguinte impedem a profissão do Credo. Por sinais indiretos podemos alimentar nossa esperança, mas não podemos achar repouso senão no oferecimento a Deus de tudo que Ele quiser nos tirar para a salvação daqueles amados irmãos. A convivência de católicos e não-católicos é dolorosa, e só não será dolorosa para os católicos que perderam as últimas noções do valor do Sangue de nosso resgate.


IMAGINEMOS agora a situação de um mundo em que nos recintos da própria Igreja o gosto de agradar aos homens já chegou, em movimento acelerado, ao esquecimento e ao desprezo de Deus.


SANTO Tomás, com a graciosa ingenuidade dos grandes santos, para exemplificar as obras boas que ainda pode fazer o homem sem o auxílio da graça, diz: "pode ainda fazer alguns bens particulares como construir casas, plantar vinhas e outras obras do mesmo gênero" (Iª. IIªe. qu. 109, a.2).


O ESTADO galopante a que está chegando uma civilização em agonia, e uma Igreja onde parece que as mais altas responsabilidades estão inebriadas de agradar aos homens, num tal eclipse com que a permissão de Deus pune o abuso de graças de milhões de cristãos em vários séculos, neste lumiar do apocalipse que já se delineia, nós vemos esta situação espantosa que fica aquém das margens ingenuamente expostas por Santo Tomás. Vejam: os homens são ainda capazes de construir uma cidade e de distribuir razoavelmente os frutos das vinhas. É na própria glória técnica que esta civilização, tão elogiada pelos inebriados levitas que cantam hinos de glória ao homem, atinge o seu visível fracasso. Sim, amigo, considera um aparelho de televisão. Em si mesmo é uma maravilha de atingimento da inteligência humana. Falo de meu próprio ofício e de metade de minha vida, e posso pôr um pouco de água fria nessa aboborada estupefação que ficam os leigos diante de um aparelho eletrônico. Posso gabar-me de ter inventado em 1926 um órgão eletrônico que só pouco depois apareceu na França inventado por um Martenot, se não me falha a memória. Estou habilitado a dizer que esse atingimento da técnica é muito mais fácil do que o atingimento da sabedoria, porque a obra técnica é facilmente comunicável e facilmente capitalizada. Pode dividir-se em equipes e somar-se em resultados, enquanto o saber da sabedoria tem de ser atingido do princípio por cada um. Mas depois dessa água fria, e para não assustar os espíritos fracos, concedamos que um aparelho de televisão ou um órgão eletrônico são coisas maravilhosas. Ora, salta aos olhos dos mais distraídos que o uso dessas maravilhas está longe de ser maravilhoso.


A TELEVISÃO, na melhor das hipóteses, e com os melhores programas, é um poderoso massificador de carne humana. Multiplicando a ação massificadora pela ação corruptora dos programas perversos feitos para agradar ao homem temos o monstruoso resultado que se agiganta no ocaso de uma civilização.


O LEITOR aflito, e ansioso por tranquilizar-se, me perguntará que lógica existe entre os programas pornográficos, e o humanismo delirante que a própria hierarquia eclesiástica admira? Qual a lógica que existirá entre as deferências da Igreja diante da ONU, e os programas pornográficos da Tv?


RESPONDEO dicendo que esse paralelo é mais fácil de demonstrar do que talvez pensasse o leitor. Vejamos: se as altas categorias se inclinam diante de um humanismo que pratica o culto do homem, isto quer dizer que nesse humanismo em que o homem deixa de reconhecer e proclamar o senhorio de Deus, vê-se que o homem se recusa ao Senhor e se inclina para o que é inferior, isto é, para o homem exterior. Ora, nesse humanismo em que até a Igreja parece inclinar-se diante do homem, essa inclinação para baixo se transmitirá a cada alma. E quando o homem se inclina a admirar o que lhe é exterior e interior, para tornar bem ostensiva a liturgia de tal culto, chegará à pornografia que é a atitude anti-hierática, a atitude última duma alma rebaixada. E aí está o futuro que se delineia diante de uma humanidade que acelerou o culto do homem até o desprezo de Deus. Ao cabo de alguns séculos nem casa de cachorro saberão construir, e nem capim saberão plantar. Desde já não sabem mais os homens construir uma cidade e muito menos guardar e manter os valores de civilização até aqui guardados. Chegamos a estas conclusões sombrias a partir do estudo de uma questão da Suma Teológica, e da confrontação da doutrina com os quadros que os famosos mass media nos proporcionam.


SERÁ preciso dizer que a nossa responsabilidade, nossa — dos CATÓLICOS, é maior do que a de todos os outros?