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Igreja e Estado



Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 15-08-1974


CAUSOU-ME ESTRANHEZA, para não aludir por enquanto às outras paixões da alma, o artigo aparecido no Caderno Especial do "Jornal do Brasil", com o mesmo título deste meu; assinado por Carlos Castelo Branco que parece entender o que seja a coisa chamada Estado mas não dá sinais de ter a menor noção do que seja a coisa chamada Igreja.

ANTES DE QUALQUER COMENTÁRIO estou pronto a admitir que apesar do exagero dos anos idos e vividos conservei certa forma do corpo e do espírito que, por sua permanência, não consegue encaixe no puzzle desta modernidade tão evidentemente amalucada. Os tolos dizem e dirão que vivo fora da realidade sem se darem conta do disparate, porque não faço outra coisa, todos os dias, demonstrando pelo protesto ou pelo gemido que vivo com muita vivacidade dentro da dita.

O FATO É QUE DESTA VEZ QUEM PARECE VIVER fora da realidade é o inteligente cronista do atualizadíssimo jornal, que no caso cochilou diante de acontecimentos atordoantes para descrever a suave e sonolenta paz que debuxa seus primeiros sinais.


DE INÍCIO DEVO NOTAR QUE O CRONISTA do JB [Jornal do Brasil, N.E.] toma desde os primeiros tópicos de seu artigo uma indisfarçada, diria mesmo uma descarada posição de apoio e aplauso à anti-Igreja dos progressistas que identifica sistematicamente com a Igreja de Cristo um abuso de equívoco que um ouvido católico não pode suportar. Suplicamos ao Sr. Carlos Castelo Branco que não fale tão desembaraçadamente daquilo que tão abismalmente desconhece.


NO ENTUSIASMO DE DEFENDER O QUE CHAMA DE IGREJA, não somente incidindo numa abusiva sinédoque, mas num responsável equívoco, diria quase num dolo, o Sr. Castelo Branco chegou a escrever isto: "A Revolução brasileira que se fez para libertar o País de uma ameaça subversiva, era em substância um movimento que refletia a profunda reação das elites financeiras empresariais e da classe média contra o estado de coisas que se criara com o aparente desgoverno do Sr. João Goulart."


A LEITURA DESTE TÓPICO me trouxe uma vergonha, uma tristeza envergonhada pelo cronista que até então estimara através de muitas divergências. Agora vejo a inteligência em que apostara descer ao nível dos Basílicos OSB e dos Tristãos de Athayde. O Sr. Castelo Branco desce ao linguajar dos marxistas sem ser marxista, e chama de aparente desgoverno a anarquia total trazida pelo João Goulart de triste memória. E neste tópico amesquinha totalmente o movimento libertador do Brasil em 1964, desdizendo assim tudo o que disse de bem de homens públicos dos governos anteriores, que agora expõe ao ridículo.


MAIS ADIANTE, ABUSANDO DE SUA IGNORÂNCIA especializada em matéria de religião, ousa tentar tapar o sol com peneira de pedreiro, quando quer atenuar ou adoçar o triste e perverso papel dos padres de passeata e de marxismo, os padres que transformaram moços e moças católicos, egressos de colégios até então respeitadíssimos, em terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que um energúmeno eclesiástico aplaudia e encorajava no Palais des Sports diante de 20.000 dopados que se inebriavam de ódio contra o Brasil. Não sei se o Sr. Castelo Branco conhece ou não conhece os fatos que cobriram nosso clero de opressiva tristeza e depressiva vergonha. Se conheceu, agora mente; se não conheceu, agora fala irresponsavelmente em matéria gravíssima.


TERMINA TENTANDO LANÇAR O GOVERNO GEISEL contra seus ilustres antecessores, nestas palavras aladas: "Sabe-se que a normalização da política repressiva é um dos objetivos do Governo..." Interrompo para um aparte: a verdadeira normalização de uma política repressiva de uma subversão perversa só pode ser a da firmeza sempre mais enérgica da repressão do mal. Continuo a citação do Sr. Castelo: "e isso permitiria que daqui por diante se evitem excessos e se respeitem direitos e prerrogativas que de há muito vinham sendo postos de lado. Se tal ocorrer, a Igreja terá concorrido, pela atitude conciliatória dos seus chefes..."


QUE IGREJA? QUE CHEFES?


— "... para um Estado de Direito, objetivo e meta do Chefe de Estado a quem se atribui de dar à Revolução de 64 sua verdadeira dimensão política".


DEUS NOS LIVRE DESSA DIMENSÃO que o Sr. Carlos Castelo Branco ousa atribuir ao Presidente da República, e ousa imaginar que é desejada pelo povo brasileiro que até hoje, desde abril de 1964, apoiou e aplaudiu os governos que salvaram o Brasil.


AGORA VOLTO A FALAR NA ALIENAÇÃO que marca todo o artigo encomendado não sei por quais forças ocultas. O fato é que, pela primeira vez, que eu saiba, o Sr. Carlos Castelo Branco fere o ídolo dos ídolos, com a ignorância de um FATO REALÍSSIMO E BRUTALÍSSIMO.


SIM, ELE NOS FALA EM TEMPOS DE BONANÇA entre os progressistas, que ele chama Igreja, e o Estado, no momento em que, por indicação da CNBB, por consentimento do Núncio, essa gente chamada Igreja por carismática proclamação do Sr. Castelo Branco, acaba de agredir os brios dos brasileiros e de esbofetear o Governo do Brasil.


REFIRO-ME À INDICAÇÃO DO SR. HÉLDER CÂMARA como REPRESENTANTE DO BRASIL para o próximo Sínodo a ser realizado em setembro próximo em Roma. Ora, parece-me evidente que o Sr. Câmara não pode representar o Brasil em um congresso de ornitólogos, dentistas, paleontólogos, filatelistas, não somente por não entender nada de nada, mas principalmente por ser notoriamente antibrasileiro, e difamador oficial, com diploma do PC, dos governos que salvaram o Brasil da podridão do século. Por mim sinto o rosto ainda a arder da bofetada que me coube; e não posso crer que o Governo continuador da grande missão brasileira na defesa da Civilização seja insensível à injúria a que agora se associa o Sr. Castelo Branco.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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