IX - O Paraíso - Os Bens do Paraíso



Um eremita e a vista do Céu – Dois nobres cavaleiros, indo à caça, toparam um eremita que numa mísera cabana levava vida bem penitente. Aí o interrogaram:


- Como podeis estar aqui? Não sentis a melancolia e os incômodos...?


Retrucou o eremita:


- Oh! Sim! Sinto-os. Mas quando sofro e estou melancólico, vou àquela janelinha (e apontava a janelinha da cabana), e imediatamente me reconforto e me rejubilo.


Um dos cavaleiros foi à janelinha, a fim de ver o que havia lá fora. Depois disse ao eremita:


- Meu caro, eu não vejo nada, e vós, o que vedes? E o que é que, visto por vós, tanto vos consola?


Disse o eremita:


- Como? Não vedes o Céu? É este o meu grande conforto nas penas: a vista do Céu.


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Queridos filhos, esta terra é para todos um lugar de penas; é um vale de lágrimas. Aqui não há senão desconfortos, dores, enfermidades, desgraças. Vós também, embora pequenos, tendes os vossos padecimentos no corpo e na alma. Não é assim? Pois bem, façamos também como aquele eremita: pensemos no Céu. Aí teremos motivo de nos rejubilar.


I – Os bens do Paraíso


a) Não se pode descrever – Que podereis dizer do Paraíso?


Uma curiosa amostra – Hiérocles, escritor grego, conta que um sujeito tinha um belíssimo palácio que pretendia vender. A fim de fazer propaganda do tal palácio, tirou de uma parede dele um tijolo, e andava girando a mostrá-lo ao povo, dizendo: “Quem quer comprar a minha casa? É belíssima! Eis aqui uma pedra como amostra!”. O povo só fazia rir, e exclamava: “Esse homem está doido! Pode-se ter ideia de uma casa, vendo dela só um tijolo?”


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Eu também pareceria esse homem se vos quisesse descrever as alegrias do Paraíso; pois tudo o que os mais doutos disseram do Reino do Céu, ainda é menos do que essa pedra do palácio, para fazer compreendê-lo.


“Pretender descrever o Paraíso (diz o Pe. Segneri Jr.) seria o mesmo que tomar na mão um carvão e querer pintar uma bela luz”. Por isso S. Paulo, que foi arrebatado ao terceiro Céu, disse: “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem penetrou no coração dos homens o que Deus tem preparado para os que o amam (1 Cor 2,9). Os santos que experimentaram um pouquinho dele nesta terra, quando queriam falar nisso diziam apenas: “Paraíso! Paraíso!”. E aqui terminavam num doce pranto e ficando em êxtase.


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Assim, quando as criaturas querem vingar-se sobre o pecador e destruí-lo, Deus misericordioso lhes diz: “Não! Deixai-o viver ainda; poupai-o, para que possa converter-se: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat”. (Ez 33,11).


b) O que podemos saber dele


Uma resposta de S. Agostinho – Um dia uma boa menina que agora é santa (e era filha de Santa Paula), escreveu uma carta a S. Agostinho, pedindo-lhe que lhe dissesse alguma coisa dos gozos do Paraíso. E o santo Doutor respondeu com estas palavras: “A alma no Paraíso gozará da isenção de todos os males, da posse de todos os bens e da visão beatífica de Deus”. Eis tudo: muito em pouco. Três coisas, portanto: Nenhum mal, todos os bens e a vista de Deus.


c) Nenhum mal e todos os bens


O sonho de um menino – Um menino sonhou que o Senhor havia tirado do mundo todos os males. Por conseguinte, não mais enfermidades, não mais desgraças, nem dores, nem afãs: pois todos os viventes eram sadios, ricos, alegres, contentes. Oh! Que belo mundo! Que felicidade!


Além disso, parecia-lhe que na terra havia toda espécie de bens: jardins deliciosos, belíssimas plantas, flores perfumosas, ervas delicadas, dulcíssimos frutos... Depois uma eterna primavera sem igual: nada de gelo, nem de sol ardente, nem de chuva, nem de ventos; depois palácios de mármores finíssimos e dourados, com todas as comodidades... E ele era dono de tudo! Depois comidas esquisitas... e todos os divertimentos. E que lhe parecia que o Senhor dissesse: Aqui não falta nada: queres jantares? Ei-los prontos; queres músicas? Ei-las prontas. Queres teatros, espetáculos, torneios? Queres caçadas, cavalos, automóveis, criados...?


Mas ai de mim! O menino acordou e se encontrou em suas misérias como dantes!


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Direis: Mas isso era o Paraíso? Será assim o que teremos no outro mundo?


Pobrezinhos! Eu vos lamento! O Paraíso da outra vida é coisa muito diferente! O que sonhou o menino é um paraíso material e terrestre. No entanto, o Paraíso que Deus preparou para os bons é bem mais belo, mais esplêndido, mais delicioso. É tal que nossa mente de modo algum o pode imaginar.


Lá, nenhum mal – Neste mundo sofreis, chorais, sois infelizes... Lá, no entanto, serão enxutas as lágrimas dos beatos, não haverá mais morte, nem luto, nem clamores, nem sofrimentos (Apc 21,4). Termina para sempre toda aflição.


Lá, todos os bensSão Fulgêncio e as belezas de Roma – Achando-se S. Fulgêncio em Roma por ocasião de grandes festas, ao ver aquela cidade toda iluminada e resplandente, aqueles magníficos palácios, aqueles monumentos e toda aquela grandeza, pensou logo no Paraíso, e voltando para seu companheiro, disse: “Olha que magnificência! Oh! Como deve ser bela a Jerusalém celeste! Se neste mundo se concede tanta honra e deleite aos homens que amam a vaidade, qual será a honra, a glória e a paz dos Santos que no Paraíso contemplem a verdade?” (Massini). O profeto Isaías chama a celeste Jerusalém cidade rica, cidade de festas e de importantíssimas solenidades. “Teus olhos verão Jerusalém, mansão de abundâncias (Is 33,20).


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Que maravilha! Que admiração! Que encantamento para as vossas almas, se entrardes naquela mansão! Que júbilo para vós, ver virem ao vosso encontro os cidadãos do Céu! Os vossos parentes... os amigos... ver os Anjos e os Santos vossos protetores, os quais vos dirão: “Agora não sois mais, como fostes, hóspedes e peregrinos na terra; mas sois nossos concidadãos, e da família de Deus (Ef 2, 19).


Maior será vossa alegria diante do trono de Maria Santíssima, a nossa advogada, a nossa Mãe. Ver Nossa Senhora...! E dizer-lhe: se estamos no Paraíso, é por vossa causa, ó querida Mãe, que me guardastes e me preservastes do pecado. Ver Nossa Senhora e ouvi-La falar...! E ser por Ela abraçados e acariciados...! Já não é isso um Paraíso de imensa alegria?!


d) A vista e a posse de Deus


Mas o que levará ao auge a felicidade dos justos no Paraíso será ver Deus, a Augusta Trindade; poder fixar os olhos na Humanidade santíssima de Jesus Cristo Salvador. Que raios de luz sairão daquele rosto divino!


Lê-se de Santa Teresa que uma vez ela viu em espírito, por um instante e de passagem, a Humanidade santíssima de Jesus. Ficou ela nesse momento tão extasiada, que daí por diante o próprio sol lhe parecia pálido, e as mais belas pessoas lhe pareciam esqueletos disformes e pavorosos.


No Paraíso veremos Deus, justamente como Ele é: Videbimus eum sicuti est (1 Jo 3,2). Ver Deus, centro de todos os bens... fonte de beatitude... abismo de luz inacessível! Será isso que constituirá o verdadeiro Paraíso. Oh! Que torrentes de alegria, de contentamento, empolgarão os justos! (Sl 25,8). No Paraíso veremos Deus, amá-Lo-emos e possui-Lo-emos para sempre, exclamava S. Agostinho.


No Paraíso seremos felizes pela própria felicidade de Deus; seremos ricos pelas próprias riquezas de Deus; gozaremos das mesmas alegrias de Deus. E não teremos mais medo de perder essa felicidade: ela não deixará de existir! Durará eternamente!


Neste mundo nunca estamos certos de que uma bela coisa dure mesmo por pouco tempo. Hoje se é rico, e amanhã se pode estar pobre; hoje se está sadio e amanhã se pode estar doente ou morto. Não é assim? Mas lá no Paraíso, sempre felicidade, sempre doçuras! Lá, sempre com os Santos, com Maria Santíssima, com Jesus! Sempre! Sempre!


Ó Paraíso, como és belo! Como és desejável!


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)