Melhores Relações?



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 07-03-1974


UM LEITOR me pergunta por carta se eu nutro esperanças "do reatamento do diálogo entre o Estado e a Igreja no novo governo". Em primeiro lugar peço ao leitor o obséquio de colocar a questão em termos mais compreensíveis. Diálogo, por exemplo, é um termo que não emprego nem aceito nesse sentido inculcado anos atrás pelas esquerdas para significar tolerância, adesão e até submissão às correntes comunistas. Com esse vocábulo mágico, nos anos 60, transformavam-se na PUC e na FNF mocinhas egressas de colégios católicos em terroristas. Ou também engravidavam-se as ditas mocinhas.


QUALQUER resistência oposta ao sedutor, disto ou daquilo, desencadeava a fórmula fulmínea: então você não é do diálogo! E a pobrezinha, apavorada de tal excomunhão, rendia-se.


TOMEI nojo ao vocábulo, outrora límpido e belo, e só o empregarei para designar os de Platão ou semelhantes. Certamente o amigo quer me perguntar se espero "melhores relações" ou "menos atritos" ou "maior entendimento" entre o novo governo e os eclesiásticos que nos últimos anos tantas vezes perturbaram a ordem pública a favor de uma caricatura de "justiça social" que hoje só pode ser engolida pelos tolos irremediavelmente tolos.


POSTA a pergunta nesses termos, posso ainda simplificá-la a bem da clareza: terei eu esperanças de melhor comportamento cívico da CNBB e dos eclesiásticos desordeiros por conta própria?


MESMO sem ser profeta nem adivinho, esboço o meu temor: não acredito no progresso ou no amadurecimento da maioria episcopal que fala a língua das esquerdas e pensa que pensa pelo pensamento delas. Não vejo possibilidade de emenda onde não se vê o mais débil sinal de contrição ou atrição. Eles estão satisfeitos e felizes. Depois de terem engolido a idéia central: que a Igreja deve acompanhar as andanças do "mundo" para não ficar atrasada; depois de terem achado luminosas as "aberturas" para as ruas nos momentos e lugares de maior perversão; depois de terem acreditado que a razão está em aqueles que vinte anos atrás eram inimigos da Igreja; depois de um novo credo descobrem entusiasmados que estão aqui, como "Igreja", para agradar aos homens até o desprezo de Deus...


AS PESSOAS que fazem essas sucessivas descobertas deveriam, decentemente, aliviar-nos de suas presenças nos lugares católicos. Deveriam ser mais sinceras. Enganam-nos elas tão deslavadamente? Ou enganam-se primeiro a si mesmos para depois nos enganarem? Não sei. A profissão de fé que fazem de mil modos todos os dias, sem incluir a singela declaração "não sou católico", é todavia equivalente. Se eu disser que um Tal não é católico não me acusem de juízo temerário. Longe de mim essa pretensão de sondar os rins e o coração. Direi que Dom Tal tantas e tantas vezes declarou aos quatro-ventos suas ideias não-católicas que, vencido e fatigado, me inclino dizendo: — Acredito, acredito...


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VEJAM a idéia genial escolhida este ano para a Campanha da Fraternidade, cuja fraternidade cada ano me parece menos clara. Inventaram uma frase, uma interrogação que foi feita a Caim depois do fratricídio (Gen. IV,9).


CADA piedosa senhora que entrar na Igreja para cumprir o preceito ou nutrir sua devoção, esbarrará naquele colérico cartaz, como se todos os presentes suspeitassem que ela acabava de apunhalar seu irmão. Aliás seja dito, de passagem, que essa acentuação da idéia de fraternidade tornou-se suspeita. Em si mesma, não há idéia mais cristã desde que colocada no seu honrosíssimo terceiro lugar. Permita-me aqui o leitor dois dedos de teologia, e voltemos sempre a Santo Tomás para honrarmos assim o ano de seu centenário. Na IIª llae qu. 26 a.4 Santo Tomás arma e resolve o problema da hierarquia na Caridade. Sabemos que o amor de si mesmo é geralmente visto com suspeição, como se sempre fosse o mau egoísmo. A doutrina dos dois amores que está no cerne da moral cristã ensina-nos que há um bom amor de si mesmo, e um mau amor de si mesmo. E para surpresa de muitos despreparados em doutrina cristã, Santo Tomás responde afirmativamente à pergunta da questão acima: "Deve amar-se a si mesmo mais do que ao próximo?" Depois das opiniões hesitantes ou erradas ergue-se o sed contra com a autoridade do Evangelho e já com o resumo do argumento de Santo Tomás: "Sed contra em Mat. XXII, 39, lê-se: "Tu amarás teu próprio como a ti mesmo." Por onde se vê - diz Santo Tomás - que o amor-de-si-mesmo é como um modelo do amor do próximo. Ora, o exemplar é superior à imitação. Logo, o homem deve amar-se a si mesmo mais do que ao próximo."


NO RESPONDEO, Santo Tomás desenvolve a doutrina dos dois amores a que atrás aludimos, e coloca a hierarquia da Caridade nestes termos: "Deus, o próprio eu, o próximo." Para ajudar aqueles que se escandalizarem com essa ordem lembro simplesmente o seguinte: em nosso juiz particular, simbolizado na balança de São Miguel, Deus nos pedirá contas do que fizemos com o próximo, com os de casa, com os filhos etc., mas antes de tudo pedirá contas do que fizemos nós com o nosso primeiro próximo, isto é, o que fizemos nós de nós mesmos e dos "talentos" recebidos.


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QUERENDO ser mais realista do que o rei, os revolucionários da perversa e degradante Revolução Francesa ousaram inscrever o doce nome da Fraternidade entre os outros de sua divisa. Curiosa "fraternidade" que começava por matar Deus, o Pai do Céu, e por guilhotinar o Rei!


REAPARECE o termo em todas as turbulências democráticas que começam pelo meurtre du Père. E agora, na "brave new Church" vimos, desde os primeiros dias da balbúrdia dos anos 60 mais de um jovem padre, transformado em conferencista e eventualmente em mágico pela nova posição do altar voltado para o povo, dizer esta monstruosidade: "O cristianismo consiste essencialmente no amor do próximo." Ouvi isto com estes ouvidos que a terra há de comer; como também, num domingo, ouvi o jovem sombrio e mal encarado que oficiava, dizer ISTO: - O cristianismo é essencialmente o amor do próximo... só!


POR onde se vê que essa suspeitíssima fraternidade é, mais uma vez, o disfarce da "morte de Deus".


SÓ AGORA vejo que não respondi cabalmente à pergunta do meu leitor. Sábado voltarei ao assunto se Deus quiser.