Mundo, Mundo…

Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo, 22-5-75


DESDE ABRIL, William Safire, colunista do New York Time, que está longe de ser um anticomunista vigoroso, vem anunciando, e quase poderíamos dizer denunciando, a ameaça suplementar e a vergonha complementar que pairam sobre este infortunado hemisfério ocidental: a próxima conferência a ser realizada “somewhere in Europe” sobre o tema da “Segurança Européia”, na qual, entre outros resultados trará a consagração da conquista e do amordaçamento das “Nações Cativas”, entregues à URSS em Ialta e Potsdam pelas nações que acabavam de vencer Hitler, e por conseguinte seu aliado Stalin, aliás já vencido por Hitler. Sim, parece que, para a Segurança da Europa é preciso reconhecer, admitir e proclamar a perfeita regularidade internacional das nações mantidas em cativeiro tutelar e pastoral pelo Irmão Primogênito. É preciso ficar bem claro que a URSS tem razões infinitamente maiores de pretender colonizar a Lituânia, a Ucrânia, a Polônia, a Romênia e tantas outras na Europa e na Asia, como o Kazaquistão, do que tinha a França de colonizar a Argélia, e Portugal de se atrever a civilizar a Angola, Guiné e Moçambique. Que sentido terá, para os que organizam tal Congresso, o termo “Segurança Européia”?

OS ESTADOS UNIDOS, para o espanto do Sr. Safire, mas já não para o nosso, mais uma vez se preparam para conceder tudo em troca de nada, como no termo da 2ª Guerra Mundial em que, um dos inimigos, traído pelo outro, ambos reconhecidos como inimigos da Civilização, e responsáveis pela Guerra, foi incompreensivelmente e imperdoavelmente promovido a vitorioso. Agora será proclamado o principal, ou quem sabe se não o único vitorioso. Naquele tempo todo o mundo sabia que os Estados Unidos forneceram à URSS 11 bilhões de dólares em munições, alimentos, sapatos etc., e que a Inglaterra em 1942 bombardeava a Alemanha todas as noites, depois do desgaste total da aviação alemã e da heróica resistência inglesa. Graças a esses dois fatores decisivos, o exército alemão que já ocupava metade da Rússia européia, e avançava numa frente de Petrogrado a Rostov, não chegou a Irkutz ou ao Estreito de Bhering, e teve de se deter em Stalingrado, a mais de 1500 km da fronteira. Esta exaustão do vigor nazista foi então mundialmente e imbecilmente apelidada “vitória de Stalingrado”.

O COLUNISTA do New York Times exprime sua pouca confiança nas cúpulas governamentais dos Estados Unidos: “O Presidente Ford, que tem intenção de participar de uma reunião da NATO, não fez referência alguma à Conferência sobre a Segurança Européia na sua mensagem sobre o estado do mundo. Talvez tenha julgado que se omitindo em relação ao problema — como fez no caso de Portugal — lograria afastá-lo.”

É TAMBÉM BASTANTE estranhável, diz o cronista do New York Times “que não tenha sido colocada na agenda dos debates a doutrina Brezhnev por cujos termos os soviéticos reivindicam o direito de esmagar, com seus tanques, as insurreições dirigidas contra os regimes títeres da União Soviética”, isto é, contra qualquer tentativa de libertação patriótica das Nações Cativas. “Se isto não é assunto relacionado com a Segurança Européia e de grande importância no que diz respeito à inviolabilidade das fronteiras, não sabemos o que seja digno de atenção em tal conferência”.

OU MELHOR, eu sei perfeitamente que, o que mais importa nessa Conferência é uma dose suplementar de imposturas para cada vez mais habituar o mundo ocidental à idéia de que deve se submeter à dominação e às imposições do mundo.

NESSE TEMPO, enquanto o mundo Ocidental prepara sua ruína, o Brasil mais uma vez repeliu a instituição do Divórcio, a despeito do empenho contrário do Congresso que não logrou obter 2/3 de votos. A esse respeito, a Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil, instituição anticatólica que, pelo mais monstruoso equívoco de nossos dias, é formada por Bispos católicos em promiscuidade com Bispos anticatólicos não podia perder a oportunidade de uma declaração infeliz. No Globo de 10 do corrente lemos as palavras do Presidente daquela instituição. Começa por se declarar satisfeito com a derrota do divórcio, embora tenha meses atrás declarado sua neutralidade no assunto, ousando falar “em nome da Igreja no Brasil”. Em seguida, o mesmo titular diz: “Como não é possível nos alienarmos dos problemas da humanidade, a “Igreja” deve marchar com o tempo e seguir o progresso”. Refere-se evidentemente à sua “Igreja” nova ou progressista, e não à católica que jamais, em pronunciamento realmente emanado do magistério, proclama sua adesão ao “progresso” colocado em termos tão equívocos. Na grande tradição católica o termo “progresso” é carinhosamente reservado na teologia mística para os avanços espirituais e a Igreja sempre foi extremamente reservada quanto aos progressos materiais de que se gaba excessivamente o mundo. Ainda o mesmo titular ousa insinuar que só agora a Igreja descobriu o homem, e por sua sorte se interessa.

NÃO MENOS CURIOSA é a declaração de D. Evaristo Arns que diz estar absolutamente certo do desejo do Presidente da República e de seus assessores de restabelecer a plenitude dos direitos humanos no Brasil. Acho um pouco excessiva a sem-cerimônia com que Arns fala pelo Presidente da República para, em seguida, repudiar todo o movimento de 64.