"None Dare Call It Conspiracy"



Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 30-08-1973


O INIMIGO da Civilização, que ainda tenta guardar os últimos valores do cristianismo, e do humanismo verdadeiramente humano, investe agora furiosamente contra os alicerces da grande nação norte-americana que tantas vezes, neste século, já mandou seus filhos defenderem em terra alheia aquele ideal de civilização. E os golpes da sinistra picareta soam e doem em nossas últimas e escassas esperanças humanas.


O INIMIGO a que me refiro é a quadrilha dos "liberais" do partido democrata, que se agrupam em torno do candidato fragorosamente derrotado nas eleições, o Senador McGovern, que anunciava aos quatro ventos o seu desejo de fazer os Estados Unidos se aliarem a Cuba, à URSS e à China na tarefa de destruição da dignidade humana em todos os recantos do planeta.


TODOS nós já acompanhávamos com sombrias apreensões o processo de amolecimento que vem da congênita fraqueza da grande nação de língua inglesa, o liberalismo, isto é, a filosofia que, em nome das belas ressonâncias do termo "liberdade", relativiza a verdade e o bem. Todos nós já estremecemos da indignação patriótica por solidariedade quando, no apogeu da indecente campanha contra a guerra do Vietnam, uma atriz, em público, limpou-se nas partes vergonhosas com a bandeira da pátria! E não aconteceu nada! O horror do caso concentra-se, não no gesto obsceno feito no centro da cena, mas no fato ainda mais obsceno de não ter acontecido nada.


DEPOIS disso tornamos a estremecer de indignação e a tremer de pavor quando um, tal Ellsberg furta documentos secretos do Pentágono e publica-os nos jornais viorte-americanos. E tornamos a estremecer e a tremer quando deparamos o novo horror: não aconteceu nada.


E ISTO aconteceu, ou melhor, e nada aconteceu porque os Estados Unidos têm em West Point e no Pentágono uma admirável organização técnica, um poderosíssimo equipamento, mas não têm Exército, Marinha e Aviação no sentido militar, não têm soldados. Têm engenheiros e técnicos, mas não têm militares, e conseguintemente não podem possuir as "virtudes militares" a que se referia Charles Peguy, e da qual ele mesmo, como Augustin Cochin, deu ao mundo tão maravilhoso exemplo.


FORAM essas "virtudes militares" — graças a Deus ainda as possuímos! — que em 1964 nos salvaram do desmoronamento total que hoje ameaça toda a América e já destruiu boa parte do Chile.


MAS, a par da congênita fraqueza de seu liberalismo e da falta insanável das "virtudes militares", não digo falta individual em cada militar americano mas falta social, cultural, sentida por toda a nação, a par dessas debilidades, os Estados Unidos possuem (ou possuíam?) em sua estrutura política um forte presidencialismo que de certo modo vinha compensando a influência corrosiva do democratismo.


ORA, é precisamente neste último reduto que hoje o inimigo golpeia a nação norte-americana. A atoarda em torno do caso Watergate contra Nixon visa à viga-mestra que ainda mantém os Estados Unidos num clima de civilização. Mas todos nós (excluídos os pervertidos e os imbecilizados) já trememos quando observamos que Nixon não tem critérios e parece não ter palavras para responder aos inimigos. E em torno dele a ninguém ocorre dizer tranquilamente o "óbvio ululante" do caso: diante das declarações aberrantes feitas por McGovern em sua campanha (declarações que lhe valeram a maior derrota eleitoral dos últimos tempos) o partido democrata se configurou como um puro e simples grupo de conspiradores. Mas "None Dare Call it Conspiracy" porque todos estão hipnotizados pelas superstições do democratismo que impedem de ver os valores que de muito superam o chamado "jogo democrático".


OS DEPARTAMENTOS incumbidos da segurança nacional, que hoje inclui necessariamente a defesa universal da civilização, estavam na obrigação funcional de tratar a sede do partido como um "aparelho" de subversão, e, em nome de uma lei mais alta do que a lei constitucional escrita, estavam no patriótico dever de instalar os equipamentos necessários à neutralização do veneno, não se seguindo daí que, necessariamente, e a despeito do forte presidencialismo, tal diligência emanasse diretamente do Presidente Níxon.


MAS "nona dare Call it conspiracy". E, então, ninguém, no ambiente norte-americano, ousa pensar em leis mais altas que devem ser invocadas quando a Revolução e a Anarquia se valem da lei escrita e do chamado jogo democrático para destruir os últimos baluartes da Civilização.


É PENA que a grande nação norte-americana não desconfie de seu letal subdesenvolvimento, e não tenha a ideia de pedir socorro ao Brasil. Sim, o Brasil está em condições de ensinar aos engenheiros do Pentágono que as Forças Armadas existem também, e principalmente para defender a Pátria do novo e moderníssimo inimigo que é inimigo da própria ideia de Pátria.


É PENA que estas pobres linhas não tenham a menor probabilidade de ser vertidas em inglês e lidas pelo Pentágono.


MODÉSTIA à parte, creio que lhe fariam algum bem.