Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 01



João Melchior Bosco nasceu aos 16 de Agosto de 1815 em Becchi, um lugarejo da cidade de Castel Nuovo d'Asti (hoje Castel Nuovo Bosco, no Piemonte, Itália), e foi batizado no mesmo dia. Órfão de pai aos dois anos de idade, foi educado por sua mãe que, apesar da pobreza, esforçou-se com muito discernimento e piedade a fim de que os defeitos da criança não impedissem que os dons naturais se transformassem em verdadeiras virtudes.


Em 1835, João Bosco entrou no seminário de Chieri, na diocese de Turim, e em 5 de Junho

de 1841, quando ordenado padre, passou a se chamar Dom Bosco. Aconselhado pelo futuro São José Cafasso (1811-1860), do qual já era íntimo, passou três anos no Convictório Eclesiástico de Turim para aperfeiçoar sua formação sacerdotal. Familiarizou-se então com as obras de Santo Afonso de Ligório (1696 1787), a cuja doutrina seria fiel pelo resto da vida.


Há muito o animava o zelo apostólico. Vários sonhos, cujas relações foram às vezes escritas por ele mesmo, contribuíram para esclarecer sua vocação: evangelizar os adolescentes pobres e abandonados. Desde seu primeiro ano de sacerdócio, começa a reunir jovens operários no intuito de catequizá-los e distraí-los. Sua obra não tarda a chamar-se Oratório de São Francisco de Sales, título que manifesta em Dom Bosco as influências de São Filipe Neri (1515-1594), fundador do Oratório, e do santo bispo de Genebra e Annecy (1567-1622). Crescendo o número de meninos, novas necessidades aparecem, às quais Dom Bosco obriga-se a remediar: cria sucessivamente aulas noturnas (1844), uma oficina de aprendizes (1847), uma escola secundária (1848), colônias de férias (1848) e cursos profissionalizantes (1853). No bairro do Valdocco, em Turim, onde ele se instala definitiva mente em 1846, Dom Bosco funda, pouco a pouco, um centro extremamente importante. Mas seu zelo ultrapassa Turim. Escreve para os jovens os livros História da Igreja para uso das escolas (1845) e História Sagrada para uso das escolas (1847), um manual de vida cristã intitulado A juventude cristã instruída sobre seus deveres (1847) assim como uma História da Itália contada à juventude (1855) entre outros, que se espalham por todos os lados.


Dom Bosco começou sua obra literária em 1844 com uma edificante biografia de Luís Comollo (1818-1839), um condiscípulo de seminário, seguida de outras, mais íntimas à família salesiana: a de São Domingos Sávio (1842-1857), em 1859, e a de Miguel Magone (1845-1859), em 1861. Estas últimas obras eram editadas numa coleção de brochuras periódicas chamada Leituras Católicas, fundada em 1853 para o povo simples da cidade e do campo, surpresos pela onda anticlerical que se alastrava pelos Estados sardos depois de 1848.


A sociedade fundada por Dom Bosco ganha corpo a partir de 1859. Desenvolvendo-se rapidamente, ela passa as fronteiras do Piemonte, sai da Itália e alcança outros países como a França e a Argentina. Seus membros são habitualmente chamados salesianos e recebem oficialmente a aprovação de Roma no dia 1º de Março de 1869, tornando-se membros de uma congregação de votos simples.


Paralelamente a esta congregação masculina, Dom Bosco, levado pelas circunstâncias, também funda, em 1872, uma congregação de religiosas dedicadas à educação das moças, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Não tardou tampouco a ser fundada uma Ordem Terceira, a Pia União dos Cooperadores Salesianos, reconhecida por Pio IX em 1876. Pouco a pouco a reputação do santo sacerdote alcança Roma e toda a Itália. Pio IX tinha-o em grande estima devido a seu senso diplomático, sua sabedoria e prudência; parece ter recorrido a seus serviços para a solução do problema das dioceses italianas vacantes.


Durante os últimos anos de sua vida, Dom Bosco esteve na França e na Espanha para fazer coletas. Paris e Barcelona reservaram-lhe verdadeiros triunfos. Decerto aclamava-se em sua pessoa o apóstolo da juventude operária, porém mais ainda o taumaturgo: anúncios do futuro, visões inexplicáveis, curas e sonhos instrutivos eram correntes em sua vida.


A posteridade o admira sobretudo como Educador. Sua pedagogia aparece mais em sua maneira de ser e em suas diretrizes ocasionais do que em seus escritos didáticos, rápidos e incompletos. O tratado sobre o método preventivo em educação (1876) exemplifica esta idéia. Sua pedagogia é deliberadamente fundada na caridade cristã e leva em grande consideração a instrução religiosa e a vida sacramental dos jovens. Dom Bosco pensa que uma educação sem amor é sempre imperfeita e que a religião deve sempre acompanhar a razão na obra de formação.


Seu falecimento ocorre em 31 de Janeiro de 1888. Sua causa de beatificação foi introduzida em 23 de Julho de 1907 e em 2 de Junho de 1929 Pio XI o beatificou. Foi canonizado pelo mesmo papa, no dia 1º de Abril de 1934 e em 17 de Janeiro de 1958, Pio XII declarou-o padroeiro celeste dos aprendizes. Sua festa é celebrada no dia 31 de Janeiro.


Foi com sua mãe Margarida que Dom Bosco aprendeu a conhecer e a amar os anjos, especialmente seu Anjo da Guarda, cuja preciosa companhia foi-lhe muitas vezes sensível durante a vida. Não é de se espantar, portanto, que uma de suas primeiras publicações tenha sido um convite à devoção ao nosso Anjo. Trata-se essencialmente de uma novena preparatória à festa dos Santos Anjos, incluindo, para cada dia, uma meditação, uma breve prática e um exemplo. Para coroar a novena, uma décima consideração é consagrada ao dia da festa.


A presente tradução oferece aos leitores de língua portuguesa a possibilidade de familiarizarem-se com este opúsculo de Dom Bosco.


Introdução


Uma prova da excelência do homem é certamente o fato dele ter um Anjo da Guarda. Deus, uma vez criados o céu, a terra e todas as coisas que existem no céu e na terra, deixou todas essas criaturas seguirem por si mesmas o curso de suas leis naturais, segundo a disposição ordinária da providência que as conserva. Não é essa no entanto a situação do homem. Depois de tê-lo dotado de nobres faculdades, tanto espirituais quanto corporais, e lhe tendo legado o domínio sobre todas as demais criaturas, quis Deus que ele fosse assistido por um espírito celeste, que dele tomasse conta desde o primeiro instante de sua existência no mundo, olhando por ele noite e dia, acompanhando-o em suas viagens, defendendo-o de todos os perigos tanto da alma quanto do corpo, aconselhando-o sobre os males a evitar e sobre o bem a fazer. Grande é a dignidade do homem, grande a bondade de Deus, à qual temos o imperioso dever de corresponder.


Portanto, com o intuito de animar os fiéis a terem uma viva devoção a estes bem-aventurados espíritos que, pela inefável Providência de Deus nos foram destinados como custódios, os Sumos Pontífices concederam muitas indulgências às orações que os honram e também às associações instituídas em honra deles. Além disso, de modo a avivar ainda mais a gratidão e a confiança que devemos a estes celestes benfeitores, redigiu-se o presente opúsculo, no qual se expõem, em forma de novena, os mais vigorosos e ternos motivos que devem nos levar a protegermo-nos sob seu santo patrocínio. Ajunta-se ao final uma décima consideração com uma cantiga espiritual que se pode cantar no dia da festa correspondente.


Feliz será aquele que, meditando sobre o grande mérito do seu Anjo, prestar-lhe as homenagens que se sugerem nestas páginas, tornando-se para sempre seu devoto. Assim terá consigo um indubitável indício de sua salvação eterna, visto que os teólogos e mestres de espiritualidade, apoiando-se nas autoridades da Divina Escritura e dos Santos Padres, reconhecem ser um dos sinais de predestinação a terna e constante devoção aos Santos Anjos Tutelares. Que o Senhor bendiga estas páginas e todos os que as lerem.


Primeira Consideração (Primeiro dia)


A bondade de Deus ao nos destinar os Santos Anjos da Guarda


Nosso Pai Celeste manifesta para conosco uma grande e incompreensível bondade ao dar-nos um anjo como custódio. E esta divina bondade é a que nos quer filhos, dignos filhos de tão grande Pai. Por isso, ao criar-nos, imprimiu Ele em nós sua imagem e semelhança, nomeando-nos herdeiros de todos os bens paternos que se encontram nas alturas do céu. E assim como aos filhos de um grande rei é designado um educador de grande caráter, que os instrui e inspira-lhes sentimentos principescos e grandes, assim também nos é reservado por Deus, desde nosso nascimento, um de seus Altos Ministros celestes que nos preste os mesmos serviços. Quer Ele, com efeito, que um Anjo nos tome nos braços desde o primeiro instante em que aparecemos neste mundo: "Eles te levarão em suas mãos" (Salmo 90, 12). Ele deve constantemente, por vontade de Deus, tomar-nos sob sua guarda e defesa, infundindo-nos o primeiro leite da piedade e da virtude. Segundo a expressão dos Santos Padres, nosso bom Deus quer que durante toda nossa vida um Anjo seja verdadeiramente educador e guia de cada um de nós, como se fôssemos seres menores de idade que Deus educa neste mundo para depois elevá-los ao trono e coroá-los. "Como são amáveis Vossos desígnios sobre mim, ó meu Deus", exclama São Bernardo, "nos quais descubro Vossa paterna bondade para comigo e a meu favor. Vejo-Vos, Deus meu, a velar com solicitude sobre mim e ocupar-Vos continuamente comigo. E com que cuidados Vos mostrais, com quais desvelos! Vossa bondade é tal que ao me prometerdes o céu já empregais em meu favor tudo quanto lá se encontra. Tendes no céu Vosso Filho Unigênito e O enviais para que morra por mim. Tendes lá Vosso amor consubstancial, o Espírito Santo, e eis que O fazeis descer sobre mim em profusão. Tendes ainda os Vossos Anjos e os mandais de lá de cima para que me assistam e me guardem. Enviais em serviço estes bem aventurados espíritos. Vós os encarregais de guardar-me. Vós os escolheis para fazer deles nossos preceptores e guias." Bondade admirável de Deus quanto à obra de minha salvação! Se sou débil, tenho comigo um sustento firme e invicto; se sou pobre, tenho um provedor rico e generoso; se estou infeliz, tenho comigo um Anjo transbordante da mais plena felicidade. Se além disso sou frio para com Deus, tenho comigo alguém que é um incêndio de caridade; se me vejo carregado de culpas, comigo tenho quem pode aplacar a indignação de Deus. Oh, quanta verdade há na famosa afirmação de Tertuliano, que diz ser nossa salvação algo como a grande preocupação de Deus! Ah, quão pouco compreendemos o preço de nossa alma!


Oh meu Deus! Fico estupefato diante de tanta bondade para comigo, e ao mesmo tempo pasmo com o fato de ter vivido até agora com tanta ingratidão. E Vós, meu amantíssimo Anjo da Guarda, não permitais que eu continue assim tão ingrato e tão pouco reconhecido. Descerrai meus olhos, enternecei meu coração, fazei que eu corresponda ao meu Deus e que corresponda também a Vós, a ambos conservando a minha alma, que com tanto afeto guardais para que um dia ela possa, com vosso júbilo, ser coroada de glória no paraíso.


PRÁTICA


Cada dia, ao menos pela manhã e à noite, ao rezar a oração Santo Anjo do Senhor tenha a intenção de agradecer a Deus pela bondade que teve para conosco ao dar-nos tão excelso príncipes como custódios.


EXEMPLO


Esta bondade de Deus em ter-nos destinado um Anjo como custódio é confirmada na prática pela vida da beata Joana da Cruz. Esta menina, ainda criança, foi agraciada com o dom da presença visível de seu Anjo da Guarda, que lhe serviu de mestre durante toda a infância. Uma vez adulta, e sempre guiada pelo mesmo mestre, abraçou a vida religiosa, e tendo-se tornado superiora do mosteiro, sempre resolveu maravilhosamente os mais espinhosos problemas. Cada vez que surgia algum inconveniente na comunidade, seu Anjo da Guarda era quem lhe sugeria o melhor modo de corrigir os defeitos alheios, e desta maneira tornou-se ela uma grande santa. Por meio de seu Anjo soube também em que dia haveria de morrer, e na data indicada apareceu-lhe o Anjo com aspecto muito alegre para acompanhá-la e conduzi-la à posse dos bens celestes.


(O devoto do Anjo da Guarda, por São João Bosco [Edições Trifolium, Avrillè, 2012])