Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 07


SÉTIMA CONSIDERAÇÃO


Ternura do santo Anjo da Guarda para com o pecador


A bondade de nosso amoroso custódio não cessa nem mesmo quando caímos em algum pecado. É verdade que naquele infeliz momento em que pecamos nosso bom Anjo de certa maneira afasta-se de nós com indignação, prorrompendo em altos gemidos de dor. E apesar de estar ele, em razão de seu estado beatifico, vogando num delicioso oceano de paz, sua aversão pela culpa o faz parecer submergido num mar de lágrimas: "Os anjos da paz chorarão amargamente" (Isaías 33, 7).


No entanto, mesmo grosseiramente ofendido por quem peca sob seu puríssimo olhar, mesmo desprezado em favor do espírito maligno, nem assim se retira nem abandona aquele que o ultrajou. Sofre, dissimula e não deixa passar nenhuma ocasião de recuperar esta alma infeliz que ainda lhe é querida. "Que grande coisa," exclama São Pedro Damião, "todos os dias e de tantas maneiras nós afrontamos estes tão amantes protetores, e seu amor continua a suportar-nos! Mais ainda, como se tal não bastasse, eles perseveram em assistir-nos, crescendo neles e tornando-se mais piedosa sua solicitude para conosco, já que nos veem mais miseráveis e mesquinhos. Assim como um coração de mãe torna-se mais terno quando a doença de um filho querido se agrava, assim também nosso amoroso custódio, vendo nossa alma num estado tão deplorável, fica por ela todo enternecido e envia em seu favor, aos pés do divino trono, seus primeiros atos de piedade, intercedendo com estas palavras: "Oh, Senhor, tende misericórdia desta alma a mim confiada, somente Vós podeis liberá-la e sem Vós ela está perdida. Livrai-a para que ela não seja rebaixada à corrupção" (Jó 33, 24). Tais são as súplicas que faz o Anjo ante o trono de Jesus Redentor, e também ante o trono de Maria, refúgio dos pecadores. Graças a tão poderosos intercessores, como não se haveria de aplacar a justiça divina?


Ah, se não fosse tão obstinada nossa resistência a tantos e tão amorosos impulsos de

nosso Anjo da Guarda, ninguém deixaria que o sol se pusesse sobre sua culpa sem tê-la antes chorado e espiado com frutuosa penitência. Mas nem mesmo quando nos vê desdenhosos aos seus chamados o Anjo deixa de nos amar. Em tais ocasiões ele se vê forçado a servir-se da vara de correção, enviando infortúnios ou revezes, vistos por nós como desgraças mas que em realidade são delicadezas de nosso Anjo, que sabe amar e corrigir, sabe mudar um castigo em bem. Em que abismo de culpas não se afundava Balaão, que queria amaldiçoar o de Deus? Mas o Anjo, tendo-o primeiro conduzido a um estreitamento do caminho, apareceu-lhe com uma espada de fogo na mão dizendo-lhe ter vindo justamente para estacar lhe o passo, porque estes mesmos passos eram iníquos e perversos [Cf. Números 22, 31-32]. Desta maneira viu-se Balaão transformado pelo Anjo. Assim também, a cada dia, são mudados muitos corações, antes rebeldes e agora arrependidos de seus erros e de volta ao reto caminho da virtude depois de terem sido colocados no aperto de algum transtorno ou de terem ouvido as censuras de seu Anjo da Guarda. E qual não é então a alegria do Santo Anjo! Em júbilo voa ele para o céu e lá convida todas as hierarquias angélicas a festejarem consigo, conforme as palavras do Redentor a propósito da ovelha perdida e felizmente tornada ao redil: "Haverá mais alegria no céu por um só pecador convertido do que por noventa e nove justos que não precisam

converter-se" (Lucas 15, 7).


Oh, meu pacientíssimo Custódio, há quanto tempo já vos esforçais para reconduzir ao

aprisco esta ovelha extraviada que é minha alma! Ouço as vozes a chamar-me e no entanto escapo-me de vós, como fazia Caim fugindo da face de Deus [Cf. Gênesis 4, 6-16]. Ah, não quero mais cansar vossa paciência! Coloco novamente minha alma em vossas mãos para que a coloqueis nos braços de Jesus, o Bom Pastor. Ele prometeu fazer grande festa com todos os seus anjos por causa deste retorno. Que para mim hoje seja o dia desta festa; dar-vos-ei a ocasião oferecendo-vos minhas lágrimas por meus pecados e que vosso júbilo seja prolongado pelo meu arrependimento.


PRÁTICA


Fazei todo o possível para fugir, como se fosse peste, das más companhias e das conversas suspeitas, durante as quais vosso Bom Anjo não pode deixar de vos olhar com desgosto, porque vossa alma está em perigo. Somente se evitais estes perigos podereis estar seguros da assistência do Anjo e da ação da divina graça.


EXEMPLO


A história que Cesari¹ nos conta a respeito do famoso Linfardo manifesta claramente os

sentimentos que despertamos em nossos amorosos Anjos ao cairmos em pecado, e com que urgência esforçam-se eles para fazer-nos voltar ao estado de graça. Nascido de nobre família, Linfardo fez-se religioso e, no intuito de exercitar-lhe a humildade, foram-lhe impostos pelos superiores os mais baixos cargos. Durante alguns anos manteve-se ele nestas ocupações dando grande exemplo de virtude, até que um dia o espírito maligno enviou-lhe uma tentação de soberba, sugerindo que o exercício de tarefas demasiado modestas desprestigiava seu nobre nascimento. Esta tentação chegou a ser tão violenta que o pobre monge já estava quase decidido a deixar o hábito religioso e a abandonar o claustro. Mas enquanto tais pensamentos o agitavam seu Anjo da Guarda apareceu-lhe

de noite sob forma humana e disse-lhe: "Vem e segue-me". Linfardo obedeceu e foi levado

para visitar alguns sepulcros. Andando por aqueles lugares, vendo uns esqueletos e sentindo o mau cheiro da putrefação, ele não demorou a aterrorizar-se e a pedir ao Anjo que o deixasse ir embora. Então o celeste guia conduziu-o a um lugar afastado e com voz autoritária reprovou-lhe a inconstância, dizendo-lhe: "Tu dentro em pouco não serás mais que um viveiro de vermes, um monte de cinzas. Veja pois se te convém dar entrada à soberba, voltando as costas a Deus por não querer suportar uma humilhação que te valeria uma coroa de glória eterna". Ante tal bronca Linfardo pôs-se a chorar, pediu perdão por sua falha e prometeu ser mais fiel à sua vocação. O Anjo então reconduziu-o ao seu quarto e desapareceu, tendo o monge permanecido fiel até a morte aos seus sinceros propósitos.


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¹ - Domingos CESARI, Panegíricos dos Santos, livro 4, 54.