Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 08


OITAVA CONSIDERAÇÃO


A especial assistência do Anjo da Guarda

na hora da morte


Visto que os cuidados a nós dispensados por nosso Anjo durante a vida não têm outro

fim senão o de preparar-nos uma morte preciosa, quanto mais percebe ele estar chegando

nossa hora, mais redobra a vigilância para alcançar o sucesso. O Anjo trata de preparar com muita antecedência este grande passo da alma que ele ama tanto. Constantemente vê-se o fato de que são especialmente as almas retas e dóceis à voz de seu Anjo que têm certo pressentimento ou segurança da proximidade de sua morte, e por isso buscam levar uma vida de maior recolhimento e com mais ardor dedicam-se às boas obras, a fim de melhor terminarem a vida. Isto é sem dúvida efeito das inspirações interiores que elas recebem de seu Anjo.


É também verdade que algumas almas particularmente favorecidas conheceram com

maior exatidão, graças a comunicações angélicas, a chegada desta hora, e assim puderam aumentar ainda mais seus tesouros de boas obras durante o breve tempo de vida que lhes restava. "Tu hás de morrer no primeiro dia do ano", disse o Anjo ao abade São Marcelo. "Tu morrerás no primeiro dia de março", comunicou também o Anjo ao príncipe David, da família real inglesa. "Dentro de um ano virei para levar-te comigo para a glória", disse igualmente o Anjo a Santo Huberto. No entanto é certo também que, embora de maneira menos precisa, o Anjo habitualmente não deixa de prevenir a alma a si confiada, através de internas inspirações mais ou menos explícitas, se a alma em questão quiser ouvi-lo. "Pensas tu, infeliz, que hás de viver para sempre ? E se morreres daqui a pouco?" Assim ouviu em seu coração uma pessoa que se dispunha a pecar e, arrependendo-se logo sinceramente emendou-se, restando-lhe pouco tempo de vida. "Ah, pobre homem, dentro de pouco morrerás!", ouviu claramente em seu interior um indivíduo parecido

ao mencionado acima -- com uma vantagem a mais, pois morreu pouco depois de se ter confessado. Oxalá fossem sempre assim correspondidos os avisos do Anjo; não veríamos

tantas mortes desventuradas.


Nas angústias das últimas horas da vida mostra-se o Anjo mais do que nunca protetor

eficaz e amoroso consolador. Ele opõe-se aos últimos ataques do inferno, reprimindo seus

assaltos e solapando suas forças, de maneira que seu protegido fique tranquilo e seguro em meio às amarguras da morte. Ele conhece, de fato, melhor do que qualquer um, o modo mais conveniente de aliviar as angústias da agonia, seja sugerindo suaves pensamentos de resignação amorosa, seja suscitando confiança nas mãos paternas de seu Senhor ou em suas chagas, ou ainda despertando no moribundo um vivo desejo de gozar da divina beleza no céu. E, para alcançar-lhe socorros mais vigorosos, o Anjo intercede amorosamente com suas orações junto a Jesus Salvador das almas e a Maria, Mãe piedosa e grande protetora dos agonizantes. Tampouco deixa ele de implorar o

auxílio dos outros anjos e santos, especialmente de São Miguel, que preside às agonias,

e de São José, que nestes momentos há de prestar singular assistência.


Além disso o Anjo estimula o fervor das almas mais agradáveis a Deus e o zelo dos sacerdotes, aos quais São Filipe Neri considerava que em tais ocasiões os anjos sugerem as palavras mais apropriadas, de modo que sejam como bálsamo celeste para a alma naquelas poucas horas de vida que lhe restam, durante as quais nos encaminhamos para a eternidade. Um moribundo, de fato, assim falou: "Oh, que grande conforto me dá meu bom Anjo, ele me dá o ósculo da paz e com ele vou para Deus". Um outro, pouco antes de expirar, disse: "Oh, como combate o Anjo em prol de seus devotos, como os consola! Já podeis vê-lo aqui, e em sua companhia vou-me embora. Santa Teresa, ao morrer o filho de uma distinta mulher, exclamou: "Oh, senhora, quantos anjos estão vindo receber a alma deste pequeno anjo da terra. Feliz quem morre desta maneira!"


Santo e amabilíssimo Anjo da Guarda, fiel e constante amigo mesmo de quem o ultrajou e

ofendeu, contanto que se tenha arrependido, recomendo-vos minha derradeira agonia e seus angustiantes momentos, decisivos para minha salvação eterna. Feliz de mim se vos tornardes favoráveis, de modo que sejam o princípio de uma melhor e eterna amizade convosco. Ah, querido Anjo, na hora de minha morte, iluminai-me, dirigi-me e governai-me.


PRÁTICA


Todos os dias, de manhã e de noite, recomendai ao vosso Anjo da Guarda de todo o coração as últimas horas de vossa vida e assegurai-lhe de que confiais em suas mãos vossa salvação eterna. "Em vossas mãos está o meu destino" (Salmo 30, 16). Visitai hoje um doente ou dai uma esmola.


EXEMPLO


Dentre os inumeráveis casos que se poderiam mencionar como confirmação do solícito

cuidado que têm para conosco nossos Anjos da Guarda ao terminarmos a vida, parece-me

muito ilustrativo o que conta o Venerável Pedro de Cluny¹. Escreve ele que um jovem, já

próximo do fim de seus dias devido a uma grave doença, ao confessar-se deixou de dizer

certo pecado por vergonha. Na noite seguinte, seu Anjo da Guarda, pesaroso em extremo ante o infeliz estado daquela alma, deu-lhe a entender por uma terrível visão que se não manifestasse o pecado que havia calado à confissão, o Paraíso lhe seria proibido e ele seria eternamente condenado. O doente, tendo voltado a si, confuso e arrependido chamou imediatamente o confessor e derramando lágrimas confessou tudo o que por vergonha havia calado. Recebeu devotamente o Viático e a Extrema Unção, morrendo placidamente com sinais evidentes de eterna salvação agradecendo sem cessar seu Anjo tutelar.


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1 - Pedro o Venerável, Livro dos Milagres, II. Mesmo em vida já se dava a este abade de Cluny o título de "Venerável". Foi um dos personagens mais marcantes do século XII. Morreu aos 25 de dezembro de 1156, depois de ter pregado o sermão da noite de Natal, e tendo pedido a Deus para morrer em tal data.