O Padre Arrupe em Cuba



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 13-09-1973


QUEM conheça alguma coisa da gloriosa história da Companhia de Jesus, quem acaso já tenha lido, mesmo superficialmente, a vida de seu fundador e de seus heroicos seguidores, ou já tenha passado os olhos, mesmo distraidamente, pelos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, ou quem tenha alguma noção, mesmo aproximada, dos imensos serviços prestados à Igreja, à Civilização e especialmente ao Brasil pelos militantes jesuítas, não pode deixar de sentir admiração, respeito, veneração por essa gigantesca obra deixada pelos filhos de Santo Inácio de Loyola. No Brasil, torno a dizer, sobretudo nos duros tempos da colonização processada num mundo imerso no espesso mercantilismo, foram eles que deixaram, na brutalidade de nossa história nascente, traços luminosos de espiritualidade cristã. O Brasil, que até hoje não teve um santo canonizado, e certamente o não teve mais por causa de nossa negligência do que pela real ausência de qualquer vida cristã chegada ao ápice das virtudes heroicas, quando o tiver, será um santo S. J.


RETOMO o fôlego bem empregado nesta justa apologia para passar à mais melancólica das antíteses. Sim, quem sabe, pouco que seja, o que foi a Companhia de Jesus, não pode ler as notícias das declarações do Padre José Arrupe S. J., em Cuba, sem sentir vontade de sentar-se no meio-fio da rua e chorar as lembranças de Sião e o presente em Babilônia.


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LEIO: "A complexidade da revolução que está sendo feita em Cuba tornou muito difícil poder valorizar plenamente o que foi realizado até agora, principalmente para quem faz uma visita de poucos dias. Contudo, o testemunho de vida dos sacerdotes, religiosos e leigos justifica a confiança dos que esperam que os valores evangélicos enriqueçam cada vez mais o programa de desenvolvimento do País."


O PADRE José Arrupe S. J. é o superior-geral da Companhia de Jesus e esta alta posição dá um sentido especialmente deplorável a tal declaração. Se ele dissesse que o tal testemunho justifica a confiança dos que esperam ver um dia os valores evangélicos alterarem e até inverterem a inspiração dos atuais programas marxistas, que, aliás, até agora não passam de programas, ainda poderíamos lamentar a ingenuidade do Pe. Arrupe; dizendo o que disse, só podemos ver sua capitulação, seu abandono de todos os critérios da Igreja, para louvar uma experiência e uma programação política que tem formal e insistente condenação da Igreja.


MAIS adiante, sem aspas, o jornal acrescenta: o padre Arrupe disse que não pode deixar de admirar a reflexão ideológica e apostólica a que se dedica a igreja cubana para acompanhar as profundas reformas sociais que se registram no País.


E AGORA, novamente entre aspas, lemos: "A Igreja Cubana quer ajudar todos os fiéis a viver sua fé com mais profundidade para que cooperem de forma positiva no desenvolvimento econômico, social e cultural do país." NESTE ponto me vem à mente o título de um livro norte-americano "NONE DARE CALL IT TREASON". Ouso eu: isto se chama traição. O leitor bem-humorado, e que não gosta de se aborrecer, sobretudo aos sábados, dirá que lá venho eu com minhas exagerações!


INFELIZMENTE, leitor, não há nenhum exagero no que digo; há apenas constatação de um fato triste e brutal. Estou diante de um superior-geral da Companhia de Jesus, agachado diante dos cruéis inimigos da Igreja, a louvar os que em Cuba se agacharam e adoram Nabucodonosor Rex. E eu imagino o sorriso feliz com que Nabucodonosor afaga as barbas diante de tal espetáculo: a mais altiva raça dos humildes servos de Deus agacha-se diante de sua impiedade, e promete, após profundas "reflexões ideológicas", a ainda se agacharem mais profundamente.


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NUM salto da memória vejo agora o superior-geral dos frades dominicanos, espanhol de 76 anos — esqueci-me seu nome —, a receber os votos religiosos de um moço preso e acusado de cumplicidade com Marighela nos planos de subversão, de sequestros e assassinatos. Noutro salto da memória dolorida vejo o Provincial e o Vice-Provincial do Convento das Perdizes, em São Paulo, saírem pela porta dos fundos, "chacun avec sa chacune" como recomendava o best-seller medieval, Romance da Rosa.


E AGORA, noutra guinada da memória cada vez mais dolorida, vejo a atoarda feita no dia em que ousei escrever o que já foi escrito em todas as línguas do mundo, isto é, que a destruição da Igreja é principalmente devida, com as exceções que sempre haverá e que foram recusadas pelos que me criticaram, aos senhores bispos. Agora acrescento: aos superiores em geral.


HOUVE tempo em que o cristão tinha por símbolo o peixe. Ora, o provérbio diz que o peixe apodrece pela cabeça, ou morre pela boca. Não sei se biologicamente é exato o provérbio, mas eclesiologicamente são numerosíssimos os fatos que o confirmam.


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ESTAMOS assistindo no mundo a um processo de anarquia crescente inspirado por uma secreta e violenta aversão a Deus. Essa revolução, que na Dinamarca avilta os costumes, nos Estados Unidos abala a autoridade presidencial, e na Igreja corrompe superiores, ou nomeiam-se superiores previamente corrompidos, quer destruir uma civilização que, apesar de quatro séculos de Reforma e de humanismo infra-humano, ainda conserva o tropismo ascensional que tem Deus como fim último. O demônio, o orgulho individual (também chamado "carne") e o orgulho coletivo, cultural, social (também chamado "mundo") querem demolir a Igreja. O episódio de que nos ocupamos neste modesto artigo é apenas um também modesto trabalho de demolição. Será a soma de demolidores maior do que a soma dos que clamam?


A VITÓRIA de Deus é garantida porque "ninguém como Deus" clama o arcanjo pelo esplendor de sua essência. Bem sabemos que as portas do inferno não prevalecerão. Mas a mesma voz que nos garante a vitória também nos incita a lutar aqui e agora, como se de nós ela dependesse. E então, meu Deus, meu Deus, sobra-nos ao menos o direito de gemer: — Até quando, Senhor?


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P.S. — Aviso ao leitor que PERMANÊNCIA se associa ao FORHUM (Associação cultural de Formação Humanística) e convida os amigos para a Missa que será celebrada nas intenções do Professor Hélio Fraga, Diretor-Presidente do FORHUM, recentemente nomeado Reitor da UFRJ. Local: Igreja S. José da Lagoa, dia 17, às 19 horas [nota do artigo no jornal].