O Reformismo e a Fé



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 27-04-1974


NO ARTIGO de quinta-feira, a propósito de mais uma fantasia litúrgica, deixei escapar um grito de susto e de medo: — Eles não têm mais Fé; e têm raiva de quem ainda a guarda. Dirão que exagerei a correlação entre a irrequietação do reformismo e a defesa da Fé. Mas hoje, passados três dias, volto à preocupação e começo pelo começo.


TODOS NÓS sabemos que a Fé divina guardada, defendida e servida pela Igreja católica é um dom gratuito de Deus, tornado na alma humana uma virtude teologal infusa, uma qualidade sobrenatural, graças à qual temos uma nova pupila para ver as coisas do mundo sob nova iluminação, e para desde já entrever a Glória de Deus. Esse dom nos é dado por Deus da plenitude de graças do Cristo. Mais precisamente: é da usina de nossa salvação, a Cruz, que procede a energia salvífica que nos leva de volta à casa do Pai.


NÓS MESMOS não nos salvamos, não nos erguemos por nossas forças, mas temos o triste privilégio de podermos perder, desdenhar, não defender, não resguardar o tesouro resgatado com o Sangue de nosso Salvador. Não apenas por estes ou aqueles pecados em que caímos, mas principalmente pela atmosfera de pequenos descuidos, ou pela soma enorme de pequenos descasos com que cercamos nossa Fé.


TODO ESSE reformismo trepidante que quer ser eficiente e só consegue ser profundamente desrespeitoso produz na alma um triste desengano: ora, se é assim ao rés do chão mais pisado e enlameado que queremos trazer a herança de cristo, se é em linguagem "popular" que devemos falar a nosso Rei, se os hierarcas encarregados do condicionamento do depósito nos anunciam que durante vinte séculos os santos se enganaram de tom, a alma ferida começa a sangrar, e nessa hemorragia começa a diminuição da fé que salva e santifica. Quando ao silêncio sagrado se prefere a bulha, quando à língua da tradição e do mistério se prefere a língua popular e quando à permanência do costume, das palavras, dos gestos se prefere o tolo moto-perpétuo do cão que corre atrás do próprio rabo, pode-se, sem receio de exagero, gritar que são os próprios pastores que abrem aos lobos as portas do redil...


E NÃO é isto que temos agressivamente diante dos olhos em cada notícia dessa geração de almas inquietas e carnais, que saboreiam o arruído, a confusão, a comunidade no desprezo da palavra de Deus em favor do alarido humano?


TOMEMOS como especial exemplo os mistérios da Fé que nos eram trazidos na liturgia da Santa Missa; e entre esses tomemos com especial amor a Fé na presença real de Nosso Senhor no pão e no vinho transubstanciados. No momento em que o padre pronuncia as palavras consagratórias todas as almas cristãs presentes deveriam ter dessa presença uma consciência, não digo necessariamente um "sentimento" mas a consciência intensa de uma situação única, incomparável, em que o incompreensível, o bizarro, o mysterium iniquitatis consiste na tranquila desatenção, na aplicada naturalidade com que fitamos aquela hóstia onde pela fé (isto é, pelas gotas do Sangue aplicadas em nosso resgate) sabemos que estão ali, na sombra das espécies, coisas tão exímias. Está ali Ele mesmo, meu Jesus! — está ali seu corpo, está seu sangue, a caminhar dia a dia conosco, com a mesma sede de almas — "sítio!" — até o fim do mundo.


JÁ NOS encheram de estupor e indignação os pruridos doutrinários que nos vieram de Roma, mais de Carthago do que de Roma, mais do Cavalo de Tróia do que da Igreja. Refiro-me às modificações feitas no Ordo Missae, em espetáculos oferecidos aos risonhos heréticos de Taizé, para celebrar esta parte da autodemolição. Nesse trabalho dirigido por um Aníbal que galgou os Alpes e invadiu Roma, vimos a Missa virada de pernas para o ar, e em lugar da idéia da presença real eucarística proposta à Fé dos fiéis, vimos um jogo de espelhos e palavras excessivas, impróprias e descabidas a apresentarem a idéia de três presenças diferentes: a chamada presença espiritual apoiada no texto de Mateus XVIII, 20: "Onde dois ou três em meu nome estão reunidos, aí estou EU no meio deles".


A OUTRA presença é aquela trazida pelo diálogo estabelecido entre o fiel que crê com fé divina na presença eucarística e o outro que dest'arte se prende na crença escatológica. "Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a Vossa vinda". Quando os comentadores se admiraram, os reformistas não conseguiam compreender a impropriedade de tais passagens; desde que todas se referiam à presença do Senhor, parecia-lhes que todas se somavam e se ajudavam. Ora, para quem sabe alguma coisa da arte de dizer, salta aos olhos a evidência contrária: no trecho da missa em que se situa a consagração que realiza a mais relevante e misteriosa presença, a eucaristia, todas as regras da arte de bem transmitir mandam concentrar nela com omissão de qualquer outra, a idéia de presença de Nosso Senhor. Há, assim, na passagem de Mateus que se refere à presença espiritual uma impertinência desastrosa para o vigor da Fé. As pessoas habituam-se a diluir em vários aspectos a idéia de presença de Jesus, e só isto deixa em lugar de um sentido austeramente católico, um outro sentido para todos os gostos.


ESPERO QUE o meu leitor compreenda a delicadeza de todas as cercaduras psicológicas do momento central da Missa, e compreenda que não se deve expor a pensar habitualmente e negligentemente errado em matéria tão grave.


A RESPOSTA escatológica à interpelação eucarística não é menos diluidora da Fé, nem menos nociva. Nas outras coisas, tom de voz, gestos, posição do corpo, podem também se insinuar usos vulgares, relaxamentos, descuidos que vêm todos dizer, no fundo de cada coração, que é vã a nossa Fé. Tudo murmura que fomos enganados e que somos as mais desgraçadas criaturas. E os leiloeiros dessa velharia asiática nos incitam à gritaria popular: é a última chance do cristianismo.