Os católicos franceses lutam

Os católicos franceses lutam

GUSTAVO CORÇÀO

JÁ FALAMOS NOS ENCONTROS e nas proveitosas conversações com nossos companheiros de luta na França, cola­bores de Itinéraires e de outros movimen­tos, Jean Madiran, Hugues Kerally, Louis Saleron, Pierre Tilloy, Antoine Barrols, Jacques Perret, Annick De Lussy, Jean Beaucoudray do Office International, e Marcel de Corte que veio de Liège ao nos­so encontro no último dia de nossa es­tada em Paris, e com o qual tivemos uma calorosa e mútua transfusão de alegria fraterna, Pe. Cotard, Fernand Sorlot da Nouvelles Editions Latines, e em outro artigo falaremos de nossos encontros em Paris e Bédouin, com Dom Mareei Lefebvre.

HOJE QUERO TRANSMITIR ao leitor o proveito, a admiração e a alegria que tive no encontro com um personagem anô­nimo e coletivo que, por esta e aquela razão, não desperta habitualmente meu entusiasmo: refiro-me ao chamado “povo de Deus”, ou a multidão de fiéis.

FOI NO DIA 20 DE OUTUBRO, no auditório da Mutualité, 24 rue Saint-Victor, onde se realizava uma reunião sob a presidência de Monsenhor Ducaud Bourget, e na qual falaram os seguintes oradores, Hugues Kerally de Itinéraires; Roland Gaucher, jornalista e escritor; André Figueras, de Monde et Vie; Pierre Arnaud, sociólogo; Pe. Noel Barbara, de Fort dans la Fol, e Pe. Louis Coache de Combat de la Foi. O objetivo anunciado para esta reunião era?. o de prestar homenagem a D. Lefebvre. Em volantes distribuídos por moços des­de a entrada do auditório lia-se o apelo: JUSTICE POUR MONSEIGNEUR LEFEB­VRE e também DROIT À LA MESSE.

TODOS OS ORADORES falaram a língua católica substituída hoje por um jargão revolucionário e primário, especialmente nos documentos das conferências episcopais que, dentro da mundial algazarra de despropósitos, se destaca em baixo relevo; mas o que hipnotizou nossa atenção nessa noite foi a presença fervorosa, firme e disposta a lutar de cerca de 5.000 pessoas de todas as idades e condições sociais, unidas no propósito de reafirmar sua rejeição dos “resultados conciliares” em que a Igreja de Cristo foi, não apenas reformada no que carecia reforma, mas deformada, transformada, transtornada, adulterada.

SERIA ERRÔNEO E INJUSTO pensar que aquelas pessoas eram lideradas, ou seguiam Dom Lefebvre. Em conferência pronunciada a 2 de maio de 76 na Villa Aurore, sede de um movimento católico de preservação da família, o próprio Dom Lefebvre rejeita esse título de líder e coloca em termos justos a posição dos que o apoiam. A conferência começa pelo relato de uma conversa de Dom Lefebvre com o Cardeal Benelli em Roma. Eis o que diz D. Lefebvre aos seus ouvintes de Villa Aurore:

“NO ÚLTIMO ENCONTRO que tive com o Cardeal Benelli que, como sabemos, é o constante secretario do Papa e com ele se encontra regularmente todos os dias, o cardeal me interpelou nestes termos:

O Sr. compreende, o Sr. e seus adeptos…

Eu não tenho adeptos, respondi, o Sr. se engana completamente e não sei o que o Sr. quer dizer.

Todos aqueles que o seguem…

— Mas não há ninguém que me siga, insisti, o que há no mundo inteiro, são milhares de padres, de fiéis, e até bispos apavorados com o que acontece atual­mente na Igreja e naturalmente sofrem e reagem do mesmo modo e que coincidem com nossas próprias reações. Sendo eu um Bispo, diretor de um Seminário, é natural que esse Seminário exerça atração sobre as almas e que ai venham buscar apoio para perseverar. Mas se amanhã eu desaparecer essas pessoas continuarão a manter as mesmas convic­ções na Fé. Estamos numa situação anormal e devemos defender nossa Fé de uma maneira muito especial nos nossos tempos. É ilusão dizer que sou uma espécie de leader e que tenho adeptos que me seguem incondicionalmente; e não menor ilusão é crer que se me derrubarem, derrubarão toda a resistência à destruição da Igreja…”

MAS A MAIOR E MAIS GRATA surpresa, no que concerne ao vigor e è expansão de um movimento de fiéis que em tempo e contratempo querem guardar a Fé e assegurar a Salvação, tivemo-la na Santa Missa da sala Wagran. Sim, é em torno da Santa Missa que se configura essa resis­tência dos católicos franceses. Eu os vi e, com estupefação ouvi dizer que, em cada domingo, aquela sala Wagran cinco vezes fica lotada com cerca de 2.000 pes­soas de todas as idades e condições sociais. Durante a semana, uma capela menor anexa oferece aos católicos duas vezes a mesma Missa virginalmente guar­dada. Esboço aqui a curta e eloquente história dessa sala Wagran. Aquele an­cião Monsenhor Ducaud Bourget que no dia 20 presidia a sessão na Mutualité, era anos atrás capelão do Hospital Laennek onde celebrava a Santa Missa hà não sei quantos anos, e tranqüilamente conti­nuou a celebrar a mesma Santa Missa a despeito das reformas anunciadas que eram feitas para acomodar a Liturgia à “mentalidade contemporânea”

SUA CAPELA FREQUENTADA apenas pela» pessoas do hospital, foi descoberta, e começou a ser procurada por fiéis católicos que não podiam em consciência aceitar “o novo humanismo”. Dia a dia aumentou o número de fiéis e a Direção do Hospital se viu obrigada a reclamar. Puseram-se os fiéis em campo à procura de um salão espaçoso já que as Igrejas de Paris, como de toda a França estão nas mãos dos “humanistas” ou, se preferem, dos invasores. Depois de muitos episódios conseguiram um grande e velho cinema que seria sombrio e feio se não ganhasse esta nova e deslumbrante sig­nificação de catacumba do século XX no centro do mundo. Esses fiéis também não são seguidores ou adeptos de Mon­senhor Ducaud Bourget, são seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo que se reúnem num local em que, pela graça de Deus, acharam sinais de seu Sangue.

DEVO ACRESCENTAR QUE SÔ em -Paris e arredores existem, aos Domingos, 14 missas rezadas por padres tradicionais. No resto da França dizem-nos que são 400 as capelas, ou lugares Improvisados, em que se reúnem para o santo preceito. È evidente que sendo numerosos os fiéis e as missas, numerosos serão os padres corajosos que tudo enfrentam para bem marcar a permanência de sua fé.

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ESTE SINAL DE VITALIDADE me volta obsessivamente à memória, à imaginação, sobretudo quando se evidencia a exces­siva miséria espiritual de nossos bispos, de nossos padres, de nosso pobre povo.

#GustavoCorção