Quadros de uma exposição - I



Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 11–10–1973


NASCI SEGUNDO — Para descanso do leitor e meu próprio, lembrou-me trazer a este canto do jornal, não com a continuidade dos folhetins de antigamente mas com a moderna desarrumação, os quadros da exposição que venho tentando completar. No desejo de conseguir um mínimo de ordem, começo pelo princípio.


NASCI; e nasci segundo. E suspeitando que o leitor não dê a devida atenção a tal circunstância, explico melhor, começando por procurar em mim mesmo a primeira lembrança da consciência desse fato. Recuando, recuando, recuando vejo-me desbotar, vejo-me desaparecer na espécie de morte branca do ainda não ser. Confusamente, antes da brancura total, entre a minha pequenez engatinhante ou balbuciante e o gigantesco mundo dos deuses tutelares que me erguiam do chão a alturas incalculáveis, confusamente entrevejo um pequeno e enorme ser intermediário que já não engatinhava nem balbuciava. A figura desse ser prodigiosamente superior marcou-me para a vida inteira. Quando hoje escrevo esta simples proposição: "nasci segundo", estou prolongando a consciência que logo me marcou como vim a saber pelas crônicas familiares. Rezam essas crônicas, nos mais antigos documentos, que eu parecia aceitar de bom grado a condição de meu nascimento. Quando ambos já falavam e andavam, eu geralmente andava atrás do essencialmente irmão-mais-velho. Dera-lhe um nome saído ao acaso de minhas experiências fonéticas: Mandã. A mesma crônica familiar revelava, quando a mamãe moça contava a história fresca dos filhinhos, que Mandã, como todo o superior, uma ou outra vez abusava de seu superiorato, como também eu, como todos os dependentes, abusava de minha dependência. Até hoje, quando o irmão-mais-velho me entra em casa e me fala, ainda sinto lá nas profundezas da alma as ressonâncias de obediência e respeito. Correndo a vida inteira num relance eu nos vejo brincando com terra, — admirando o ovo que a galinha se gabava de ter posto, ou então, mais crescidos, no salão do cabeleireiro, onde era ele quem dava as instruções ao oficial: meia-cabeleira curta com franjinha. Um dia que fui sozinho, exprimi-me sem a necessária convicção, e o resultado foi o vexame de voltar para casa com a cabeça rapada escovinha zero.


PASSAM na memória quadros vertiginosos que não me dão o tempo de pintá-los. Ora nos afastamos, ora nos aproximamos. As vezes a mamãe nos confunde e fala-me como se eu fosse mais velho, mas depois restauram-se as hierarquias e eu volto ao meu lugar. Casamo-nos. Com sua vocação de pôr e dispor, ele virou, mexeu, montou comércio, ganhou dinheiro e ficou rico, enquanto eu seguia minha regular ascensão de subalterno: engenheiro de telecomunicações. Antes disso andara a fazer coordenadas geográficas em Mato Grosso e a dirigir uma mini-Light em Barra do Piraí. Foi mais tarde, quando eu já tinha mais de dez anos de engenharia eletrônica, em Jacarepaguá, que meu irmão, com a maior simplicidade do mundo, me avisou que comprara uma casa para mim. Aqui estou eu dentro dessa casa bendita, sem cujo chão não sei o que seria de mim. Morre minha mulher com vinte e nove anos, e é nesses dias, nesses quadros sombrios que eu vejo sempre a figura exemplar do irmão mais velho partilhando comigo a dor insuportável. Voam os anos. E agora morre-lhe a ele a doce filha e lá estamos lado a lado diante do absurdo, a sentirmos a mesma dor insuportável. Nesse dia fui desobediente porque o irmão mais velho, pensando em minhas desgastadas coronárias, não queria que eu acompanhasse o caixão até a sepultura.


VOLVAMOS à Rua Conde de Bonfim, 31-F, e ao menino de 2 ou 3 anos que nascera segundo. Naqueles claros tempos a rua era um lugar tranquilo onde de meia em meia hora passava um bonde, algum pregão, carroças raras e pessoas vagarosas.


ORA, naquela tarde ouviu-se entre outros arruídos um som de trombeta e um frêmito correu pela casa: um batalhão em exercício, não sei por que, passava maravilhosamente na Rua Conde de Bonfim. Correram todos às janelas da sala de visitas, e eu senti-me levantado pela mamãe que, arrepanhando as saias, correu comigo no colo e me alçou à janela. Mas Mandã se atrasava e o menino de três anos, que nascera segundo, gritava aflito: — Mandã! Mandã!


O TIRANO, para bem afirmar seu senhorio, avançava majestosamente. A mamãe levanta-me então para ver os soldados, as cometas, os cavalos, mas, não vendo Mandã, fiz uma coisa que a crônica familiar registrou: fechei os olhos e só os abri quando senti que Mandã chegara e então, sim, podíamos ver juntos os cavalos, as cornetas, os soldadinhos de verdade que brincavam muito sérios de soldadinhos de chumbo.


***


NASCI segundo. Ao longo da vida esse fato se traduzirá em oscilações vertiginosas que às vezes me levam ao delírio de me julgar o primeiríssimo, e outras ao abatimento de me julgar o último dos últimos, porque, nascido segundo, só nos momentos de equilíbrio, que são raros, vejo verdadeiramente que nem uma coisa nem outra: segundo.


HOJE estamos ambos irmãos, e mais as três irmãs que de sobejo nos vieram, na faixa dos setenta. Viveremos o tempo que Deus quiser, mas às vezes penso com aflição no caso de chegar primeiro às portas da casa do Pai. E então me enredo em desejos contrários porque não posso desejar que ele morra primeiro nem posso desejar achar-me sozinho naquele limiar. Seja como for, imagino às vezes esse dia, essa hora, e me divirto com a lembrança da Rua Conde de Bonfim. Se a Mãe do Céu me levantar primeiro no seu colo, e se Mandã demorar nos corredores da vida, lá me vejo a esconder o rosto na roupagem de ouro e lua do regaço de Nossa Senhora com os olhos fechados até poder abri-los. Não é muito ortodoxo este quadro, mas eu explicarei a Nossa Senhora: — Eu nasci segundo. E Ela compreenderá logo, mesmo porque, para seu coração, todos nós nascemos segundos. E então quando sentir Mandã a meu lado, abrirei bem meus olhos e então, e então veremos juntos o rútilo exército de anjos com cornetas de fogo e cavalos de luz desfilarem diante de nós anunciando a vitória final da Mulher sobre o Dragão.