Quadros de uma exposição - II



Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 13–10–1973


SOPA DE LETRAS — Sentada num banco do jardim, a mamãe lia. Vejo-a muitas vezes assim, de livro na mão. O menino de três ou quatro anos brinca no chão da Rua Conde Bonfim, 31-F. Brinca com pedrinhas ou acompanha a azáfama das formiguinhas. Nessa tarde, erguendo os olhos viu que a mamãe, sem despregar os olhos do livro, ria-se. Devagarzinho o menino levantou-se e veio por detrás, na ponto dos pés, ver a figura do livro que fazia a mamãe rir-se tão divertida. Ora, não havia figura nenhuma. E então, intrigado, o menino perguntou: — De que é que você está rindo se não tem figura?


COM mais gosto ainda, a mamãe riu-se abraçando o menino, mas depois, muito séria, essencialmente mãe e mestra, molecularmente mestra, começou a falar com o menino no mundo maravilhoso que se escondia dentro das letras. O menino, com a cabeça encostada na mamãe, ouvia pensativo aquela lenda maravilhosa dos sinais que serviam para significar os nomes das coisas e das pessoas, e que serviam para a gente aprender tudo.


DANDO um exemplo do que dizia, a mamãe leu uma linha do livro apontando as letras à medida que prosseguia a leitura. E o menino, sem entender bem o que a mamãe lia, admirava-se e desejava saber tirar palavras das letras com aquela facilidade da mamãe, que agora continuava a ler sem precisar seguir as linhas com o dedo.


MINHA primeira cartilha era um livro austero. Ou, se quiserem, um austero opúsculo. Despojado de adornos, enfeites e figuras, apresentava na primeira página as vogais, creio que dispostas assim:


a e

i

o u




e embaixo, a carreira de algarismos de 0 a 9. Nas páginas subsequentes vinham palavras silabadas, BO-LA, U-VA, e só mais adiante apareciam as palavras agrupadas em proposições. Hoje os livros de leitura são enfeitados, dizem que para motivar e atrair as crianças, e até os livros de catecismo para guapos rapazes de 13 a 19 anos são ilustrados com a figura do astronauta e as tatuagens dos hippies. Dizem que sem esses atavios o moderno jovem não poderá entender proposições como esta: amarás a Deus de todo o espírito, de todo o coração, e ao próximo como a ti mesmo. Dizem até que vivemos na era espacial que coincide com a era da imagem, e que relegará a palavra aos museus.


UI! LÁ ME escapou a lição polêmica nestas páginas em que prometi descanso ao leitor. O quadro de hoje ia se tornando o quadro negro de uma aula. Detenho-me, mas não resisto à tentação de proclamar minha convicção de que a austeridade de minha cartilha era mais sábia do que as sedutoras imagens modernas porque, iniciando a criança na leitura ao mesmo tempo a iniciava na reflexão e na abstração, sem as quais o homem não é homem.

MAS voltemos depressa à Rua Conde de Bonfim, à hora do jantar da criançada:


— Hoje a sopa é de letras, anunciava a Arabela entrando com a terrina fumegante.


E a criançada, em vez de pensar na sopa à hora da lição de leitura, pensava na leitura à hora da sopa. E cada um procurava compor seu nome na beira do prato. Não sei se foi por isso, ou por aquilo. O fato é que ganhei gosto pelas letras escritas devagar e com esmero. Escrevo devagar, como se estivesse ainda a colocar as letrinhas de massa na beira de um prato. Outro dia, ocorrendo-me o título melancólico de um livro sábio - "Ma joie terrestre, où donc est tu?" - achei-me a procurar as coisas onde ainda encontro uma alegria com gosto de vida e de terra. Estão debandando, mas uma encontrei: a alegria de achar que tracei boa letra e acertei boa frase. O ofício das palavras e das letras, com seu ritual, ainda me dão às vezes a alegria de reler-me, e de achar bom o que escrevi. Creio que esse fruto me vem do quadro em que via a atenção com que lia minha mãe, e mais especialmente daquele quadro em que seu dedo me revelava os sinais maravilhosos em que tudo o que existe no céu e na terra se encontra sacramentado. Ou talvez me venha da sopa de letras.


OU ENTÃO — já que nos entregamos ao vício das inquirições — este gosto último de escrever como quem oficia me vem por outros canais genéticos que ignoro, e é desses canais e desse último gosto, ao contrário de tudo o que disse acima, que me vem a vivacidade e o gosto com que relembro uma cena de jardim na Rua Conde Bonfim, 31-F, e um prato de sopa de letras tomado há três quartos de século.


* * *


DEVO duas palavras aos degraus seguintes: a cartilha de João de Deus, a maravilhosa tradução de "O Coração" feita por João Ribeiro. E depois a antologia de Fausto Barreto e Carlos Laet que laetificat juventutem meam. Ouvi dizer outro dia que há pedagogos modernos que condenam as antologias. Acredito. E não me admira, porque não há asneira que não tenha sido dita por algum pedagogo, defendida por algum filósofo e hoje devemos acrescentar: por algum teólogo da América Latina. E aqui me detenho resolutamente antes de transformar em discurso o meu quadro de hoje em que é tão viva a lembrança de minha mãe moça.