Reformas e contra-reformas, por Gustavo Corção



Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 27-07-1973


DEPOIS das amabilidades convencionais, o padre visitante, idoso e simpático, abordou o obsessivo tema das desordens observadas hoje em meios eclesiásticos. E esboçou uma explicação:


— Tudo aconteceu porque interpretaram mal o Concílio...


NÃO DEMONSTREI entusiasmo pela explicação do visitante, mas ele insistia e agora aludia às reformas, sem dúvida necessárias, trazidas pelo Concílio. Perguntei-lhe quais seriam as reformas que nós ambos julgáramos necessárias em 1940 quando já estávamos no meio da vida. E entregando-me eu às recordações, pus-me a procurar uma cena, uma lembrança, uma aula, uma conversa de amigos onde o tema fosse o das profundas reformas que a Igreja estava a pedir. Ocorreram-me algumas lembranças do Movimento Litúrgico que eu encontrara no Mosteiro de São Bento nos dias benditos de minha volta à Igreja. Foi entre os beneditinos que encontrei o gosto da fraternidade cristã, e principalmente o gosto mais alto dos mistérios de Deus. Guardo uma imensa gratidão por cada um dos bons religiosos que me ajudaram a encontrar a porta estreita, mas esse sentimento não pode hoje tolher a confissão da reserva que, desde o início, senti pelas singularidades e pelas novidades que às vezes comprometiam os bons frutos do movimento litúrgico, e que me pareciam destoantes dos primeiros catecismos que lera com avidez. A espiritualidade arcaizante que, com certa impertinência, pulava por cima do milênio medieval, para emendar o século XX na era patrística; a abcessão de uma ação comunitária que subestimava um São João da Cruz e uma Santa Teresinha; a visível marginalização dos santos propostos pela Igreja à nossa afetiva e mais próxima veneração, em favor da exaltação de um Cristo meio abstrato; a derrisão da piedade privada e da vida de oração, em favor de um totalitarismo litúrgico, tudo isto parecia-me dissonante do que já aprendera. Uma tarde abri-me com um dos monges que a seguir tomaria como confessor. Ele não escondeu a perturbação quando lhe disse:


- ESTOU chegando à convicção de que há nesse movimento um teor de fantasia e de novidade que, querendo arcaizar, na verdade quer modernizar, quer reformar...


MEU INTERLOCUTOR demonstrou que estava sofrendo a mesma dor, agravada por estar mais mergulhado do que eu na atmosfera do liturgismo, e encorajou-me a continuar a leitura de Garrigou-Lagrange, Gardeil e outros. Quando Pio XII publicou a Mediator Dei, que vinha pôr água naquela fervura, ouvi de um pobre amigo uruguaio, Dimas Antuim, que levava seu liturgismo até a orla de uma espécie de gnose, esta apreciação irreverente e dolorosa: "documento de una increíble mediocridad!" Para mim, e para os amigos e alunos do Centro Dom Vital, a encíclica chegara como uma bênção que nos confirmava no que já havíamos achado.


POSSO assim dizer que, desde minha volta à Igreja, até os dias tumultuosos do aggiornamento, nunca me passou pela mente a ideia de uma Reforma, ou até de várias reformas, que viessem acertar o passo da Igreja com o do século; e nunca nos passou pela mente a ideia de atribuir aos obscurantismos da Igreja e aos seus compromissos "com as classes dominantes" o afastamento e a descristianização da classe operária.


SEMPRE pensei na Igreja "com o sentimento de admiração maravilhada por sua beleza, reflexo da beleza de Deus trazida ao mundo pela Encarnação do Verbo. Desde os primeiros dias da Fé habituei-me a percorrer a Igreja em todas as dimensões de sua santidade em todos os momentos de sua história. Bem sabia que sempre houve e sempre haverá manchas e rugas no mofo humano que pedirá retoques e reformas sem ser preciso reunir todos os bispos do mundo para decidir sobre o uso ou não uso da batina e dos chapéus eclesiásticos.


ATÉ MESMO o pobre mofo humano, dentro da Igreja, recebe reflexos da beleza de Deus: nos santos a miséria humana se ilumina por gloriar-se na Cruz de Nosso Senhor; nos pecadores ilumina-se pela misericórdia de Deus. Que decadência ou envelhecimento querem ver na mesma Igreja que nos mostra os mártires dos seus primeiros séculos, e que ainda em nossos dias produz o prodígio de santidade de Santa Terezinha do Menino Jesus? Que ineficácia e que desgaste apontam nela os que tanto se entusiasmam com a ida do homem à Lua e não lembram das visitas frequentes de Nossa Senhora à Terra? Que reformas urgentes precisam fazer a sociedade de sobrenatural que dia a dia tem no seu sacerdócio a mesma força divina de trazer Jesus aos altares e aos nossos corações?


DESCONFIE de si mesmo, de seu desgaste, de seu envelhecimento, quem começa a murmurar que vê nódoas e rugas na santa face da Esposa de Cristo.


EM CERTA altura de minha vida na Igreja comecei a insistir na necessidade de reformar, de retificar os eixos desta Civilização que deixou de ser cristã. Cheguei a crer, com ingenuidade, que estava ao nosso alcance uma reforma do mundo que nos trouxesse uma nova civilização cristã. Escrevi um livro, Dois Amores, Duas Cidades, para realçar os erros principais que afastaram de Deus e da Igreja esta civilização laica, antropoexcêntrica que, entre outros riscos, corria o de perder as próprias riquezas culturais e a própria glória civilizacional de que tanto se gabava. Nunca, entretanto, me passou pela mente a ideia ímpia de que estivesse na Igreja o erro e a culpa do divórcio, e, portanto, a necessidade de reformar-se.


MAS AGORA, depois de tantos disparates, de tantas aberrações trazidas pelo mofo humano nos recintos da Igreja, começo a crer que grandes Reformas, ou melhor, que uma Contra-Reforma se impõe como remédio urgente. Está enganado quem me imagina "conservador" e hibernador de todas as coisas; ou quem me vê como se estivera colado a certo padrão ou certa época da Igreja. Ao contrário, sonho um movimento, um abalo, uma Contra-Reforma que quebre as amarras que hoje prendem a Igreja à atualidade temporal e carnal. Sonho um milagre que devolva à Mãe e Mestra todo o vigor de sua maternidade virginal. Agora sou eu, por exemplo, quem sonha com um movimento milagroso que devolvesse à santa visibilidade da Igreja toda a sua beleza, e que devolva aos seus servidores o gosto principal das coisas do céu, já que são servidores de um Reino que não é deste mundo.