Regra de São Bento

REGRA DE SÃO BENTO

Prólogo CAPÍTULO 1 – Dos gêneros de monges CAPÍTULO 2 – Como deve ser o Abade CAPÍTULO 3 – Da convocação dos irmãos a conselho CAPÍTULO 4 – Quais são os instrumentos das boas obras CAPÍTULO 5 – Da obediência CAPÍTULO 6 – Do silêncio CAPÍTULO 7 – Da humildade CAPÍTULO 8 – Dos Ofícios Divinos durante a noite CAPÍTULO 9 – Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas CAPÍTULO 10 – Como será celebrado no verão o louvor divino CAPÍTULO 11 – Como serão celebradas as Vigílias aos domingos CAPÍTULO 12 – Como será realizada a solenidade das matinas CAPÍTULO 13 – Como serão realizadas as matinas em dia comum CAPÍTULO 14 – Como serão celebradas as Vigílias nos natalícios dos Santos CAPÍTULO 15 – Em quais épocas será dito o Aleluia CAPÍTULO 16 – Como serão celebrados os ofícios durante o dia CAPÍTULO 17 – Quantos salmos deverão ser cantados nessas mesmas horas CAPÍTULO 18 – Em que ordem os mesmos salmos devem ser ditos CAPÍTULO 19 – Da maneira de salmodiar CAPÍTULO 20 – Da reverência na oração CAPÍTULO 21 – Dos decanos do mosteiro CAPÍTULO 22 – Como devem dormir os monges CAPÍTULO 23 – Da excomunhão pelas faltas CAPÍTULO 24 – Qual deve ser o modo de proceder-se à excomunhão CAPÍTULO 25 – Das faltas mais graves CAPÍTULO 26 – Dos que sem autorização se juntam aos excomungados CAPÍTULO 27 – Como deve o Abade ser solícito para com os excomungados CAPÍTULO 28  – Daqueles que muitas vezes corrigidos não quiserem emendar-se CAPÍTULO 29 – Se devem ser novamente recebidos os irmãos que saem do mosteiro CAPÍTULO 30  – De que maneira serão corrigidos os de menor idade CAPÍTULO 31  – Como deve ser o Celeireiro do mosteiro CAPÍTULO 32 – Das ferramentas e objetos do mosteiro CAPÍTULO 33 – Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio CAPÍTULO 34  -Se todos devem receber igualmente o necessário CAPÍTULO 35 – Dos semanários da cozinha CAPÍTULO 36 – Dos irmãos enfermos CAPÍTULO 37 – Dos velhos e das crianças CAPÍTULO 38 – Do leitor semanário CAPÍTULO 39 – Da medida da comida CAPÍTULO 40 – Da medida da bebida CAPÍTULO 41 – A que horas convém fazer as refeições CAPÍTULO 42 – Que ninguém fale depois das Completas CAPÍTULO 43 – Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa CAPÍTULO 44 – Como devem fazer satisfação os que tiverem sido excomungados CAPÍTULO 45  – Dos que erram no oratório CAPÍTULO 46 – Daqueles que cometem faltas em quaisquer outras coisas CAPÍTULO 47 – Como deve ser dado o sinal para o Ofício Divino CAPÍTULO 48 – Do trabalho manual cotidiano CAPÍTULO 49 – Da observância da Quaresma CAPÍTULO 50 – Dos irmãos que trabalham longe do oratório ou estão em viagem CAPÍTULO 51 – Dos irmãos que partem para não muito longe CAPÍTULO 52 – Do oratório do mosteiro CAPÍTULO 53 – Da recepção dos hóspedes CAPÍTULO 54 – Se o monge deve receber cartas ou qualquer outra coisa CAPÍTULO 55  – Do vestuário e do calçado dos irmãos CAPÍTULO 56 – Da mesa do Abade CAPÍTULO 57  – Dos artistas do mosteiro CAPÍTULO 58 – Da maneira de proceder à recepção dos irmãos CAPÍTULO 59 – Dos filhos dos nobres ou dos pobres que são oferecidos CAPÍTULO 60 – Dos sacerdotes que, porventura, quiserem habitar no mosteiro CAPÍTULO 61 – Dos monges peregrinos como devem ser recebidos CAPÍTULO 62 – Dos sacerdotes do mosteiro CAPÍTULO 63 – Da ordem na comunidade CAPÍTULO 64 – Da ordenação do Abade CAPÍTULO 65 – Do Prior do mosteiro CAPÍTULO 66 – Dos porteiros do mosteiro CAPÍTULO 67 – Dos irmãos mandados em viagem CAPÍTULO 68 – Se são ordenadas a um irmão coisas impossíveis CAPÍTULO 69  – No mosteiro não presuma um defender o outro CAPÍTULO 70 – Não presuma alguém bater em outrem a próprio arbítrio CAPÍTULO 71 – Que sejam obedientes uns aos outros CAPÍTULO 72 – Do bom zelo que os monges devem ter CAPÍTULO 73 – De que nem toda a observância da justiça se acha estabelecida nesta Regra

PRÓLOGO DA REGRA

Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.

Antes de tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito insistente que seja por ele plenamente realizado, a fim de que nunca venha a entristecer-se, por causa das nossas más ações, aquele que já se dignou contar-nos no número de seus filhos; assim, pois, devemos obedecer-lhe em todo tempo, usando de seus dons a nós concedidos para que não só não venha jamais, como pai irado, a deserdar seus filhos, nem tenha também, qual Senhor temível, irritado com nossas más ações, de entregar-nos à pena eterna como péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória.

Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo: “Já é hora de nos levantarmos do sono”. E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”, e de novo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. E que diz? – “Vinde, meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam”.

E procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Se, ouvindo, responderes: “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a”. E quando tiveres feito isso, estarão meus olhos sobre ti e meus ouvidos junto às tuas preces, e antes que me invoques dir-te-ei: “Eis-me aqui”. Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor a convidar-nos? Eis que pela sua piedade nos mostra o Senhor o caminho da vida.

Cingidos, pois, os rins com a fé e a observância das boas ações, guiados pelo Evangelho, trilhemos os seus caminhos para que mereçamos ver aquele que nos chamou para o seu reino. Se queremos habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas obras, de outra forma nunca se há de chegar lá. Mas, com o profeta, interroguemos o Senhor, dizendo-lhe: “Senhor, quem habitará na vossa tenda e descansará na vossa montanha santa?”. Depois dessa pergunta, irmãos, ouçamos o Senhor que responde e nos mostra o caminho dessa mesma tenda, dizendo: “É aquele que caminha sem mancha e realiza a justiça; aquele que fala a verdade no seu coração, que não traz o dolo em sua língua, que não faz o mal ao próximo e não dá acolhida à injúria contra o seu próximo”. É aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo. São aqueles que, temendo o Senhor, não se tornam orgulhosos por causa de sua boa observância, mas, julgando que mesmo as coisas boas que têm em si não as puderam por si, mas foram feitas pelo Senhor, glorificam Aquele que neles opera, dizendo com o profeta: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai Glória”. Como, aliás, o Apóstolo Paulo não atribuía a si próprio coisa alguma de sua pregação, quando dizia: “Pela graça de Deus sou o que sou” e ainda: “Quem se glorifica, que se glorifique no Senhor”.

Eis porque no Evangelho diz o Senhor: “Àquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, compará-lo-ei ao homem sábio que edificou sua casa sobre a pedra, cresceram os rios, sopraram os ventos e investiram contra a casa; e ela não ruiu porque estava fundada sobre pedra”. Em conclusão espera o Senhor todos os dias que nos empenhemos em responder com atos às suas santas exortações. Por essa razão, os dias desta vida nos são prolongados como tréguas para a emenda dos nossos vícios, conforme diz o Apóstolo: “Então ignoras que a paciência de Deus te conduz à penitência?”. Pois diz o bom Senhor: “Não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva”.

Como, pois, irmãos, interrogássemos o Senhor a respeito de quem mora em sua tenda, ouvimos em resposta, qual a condição para lá habitar: a nós compete cumprir com a obrigação do morador!

Portanto, é preciso preparar nossos corações e nossos corpos para militar na santa obediência dos preceitos; e em tudo aquilo que nossa natureza tiver menores possibilidades, roguemos ao Senhor que ordene a sua graça que nos preste auxílio. E, se, fugindo das penas do inferno, queremos chegar à vida eterna, enquanto é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível realizar todas essas coisas no decorrer desta vida de luz, cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para sempre.

Devemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus. De modo que não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino. Amém.

[Termina o Prólogo]


CAPÍTULO 1 – Dos gêneros de monges

É sabido que há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade.

O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, dos eremitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, mas através de provação diuturna no mosteiro, instruídos então na companhia de muitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileiras fraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação de outrem, e aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos.

O terceiro gênero de monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não tendo sido provados, como o ouro na fornalha, por nenhuma regra, mestra pela experiência, mas amolecidos como numa natureza de chumbo, conservam-se por suas obras fiéis ao século, e são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. São aqueles que se encerram dois ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios; a satisfação dos desejos é para eles lei, visto que tudo quanto julgam dever fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam ilícito.

O quarto gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a sua vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou quatro dias nas celas de outros monges, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias vontades e das seduções da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Sobre o misérrimo modo de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo.

Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor, sobre o poderosíssimo gênero dos cenobitas.


CAPÍTULO 2 – Como deve ser o Abade

O Abade digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é chamado, e corresponder pelas ações ao nome de superior. Com efeito, crê-se que, no mosteiro ele faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, no dizer do Apóstolo: “Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: ABBA, Pai.” Por isso o Abade nada deve ensinar, determinar ou ordenar, que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento, como o fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus.

E saiba o Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de família puder encontrar de menos no progresso das ovelhas. Em compensação, de outra maneira será, se a um rebanho irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda diligência do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos malsãos; absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga ao mesmo com o Profeta: “Não escondi vossa justiça em meu coração, manifestei vossa verdade e a vossa salvação; eles, porém, com desdém desprezaram-me”. E então, finalmente, que prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que desobedeceram aos seus cuidados.

Portanto, quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que aos discípulos capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que. pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como a um pecador: “Por que narras as minhas leis e anuncias o meu testamento pela tua boca? tu que odiaste a disciplina e atiraste para trás de ti as minhas palavras”, e ainda: “Vias o argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu próprio”.

Que não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o nascido livre ao originário de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso; pois se parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça, fá-lo-á seja qual for a condição social; caso contrário, mantenham todos seus próprios lugares, porque, servo ou livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão: “Porque não há em Deus acepção de pessoas”. Somente num ponto somos por ele distinguidos, isto é, se formos melhores do que os outros nas boas obras e humildes. Seja pois igual a caridade dele para com todos; que uma só disciplina seja proposta a todos, conforme os merecimentos de cada um.

Portanto, em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do Apóstolo: “Repreende, exorta, admoesta”, isto é, temperando as ocasiões umas com as outras, os carinhos com os rigores, mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos obedientes, mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, lembrando-se da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. Aos mais honestos e de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e segunda advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal, desde o início da falta, sabendo que está escrito: “O estulto não se corrige com palavras”. E mais: “Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte”.

Deve sempre lembrar-se o Abade daquilo que é; lembrar-se de como é chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se exige. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasões segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um, de tal modo se conforme e se adapte a todos, que não somente não venha a sofrer perdas no rebanho que lhe foi confiado, mas também se alegre com o aumento da boa grei.

Antes de tudo, que não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que esta escrito: “Buscai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo”; e ainda: “Nada falta aos que O temem”. E saiba que quem recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para prestar contas. Saiba como certo que de todo o número de irmãos que tiver possuído sob seu cuidado, no dia do juízo, deverá prestar contas ao Senhor das almas de todos eles, e mais, sem dúvida também da sua própria alma. E assim, temendo sempre a futura apreciação do pastor acerca das ovelhas que lhe foram confiadas enquanto cuida das contas alheias, torna-se solícito para com a suas próprias, e enquanto com suas exortações subministra a emenda aos outros, consegue ele próprio emendar-se de seu vícios.


CAPÍTULO 3 – Da convocação dos irmãos a conselho

Todas as vezes que deverem ser feitas coisas importantes no mosteiro, convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Dêem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade e não ousem defender arrogantemente o seu parecer, e que a solução dependa antes do arbítrio do Abade, e todos lhe obedeçam no que ele tiver julgado ser mais salutar; mas, assim como convém aos discípulos obedecer ao mestre, também a este convém dispor todas as coisas com prudência e justiça.

Em tudo, pois, sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém temerariamente. Ninguém, no mosteiro, siga a vontade do próprio coração, nem ouse discutir insolentemente com seu abade, nem mesmo discutir com ele fora do mosteiro. E, se ousar fazê-lo, seja submetido à disciplina regular. No entanto, que o próprio abade faça tudo com temor de Deus e observância da Regra, cônscio de que, sem dúvida alguma, de todos os seus juízos deverá dar contas a Deus, justíssimo juiz. Se, porém, for preciso fazer alguma coisa de menor importância dentre os negócios do mosteiro, use o Abade somente do conselho dos mais velhos, conforme o que está escrito: “Faze tudo com conselho e depois de feito não te arrependerás”.


CAPÍTULO 4 – Quais são os instrumentos das boas obras

Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. Depois, amar ao próximo como a si mesmo. Em seguida, não matar. Não cometer adultério. Não furtar. Não cobiçar. Não levantar falso testemunho. Honrar todos os homens. E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito. Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo. Castigar o corpo. Não abraçar as delícias. Amar o jejum. Reconfortar os pobres. Vestir os nus. Visitar os enfermos. Sepultar os mortos. Socorrer na tribulação. Consolar o que sofre. Fazer-se alheio às coisas do mundo. Nada antepor ao amor de Cristo. Não satisfazer a ira. Não reservar tempo para a cólera. Não conservar a falsidade no coração. Não conceder paz simulada. Não se afastar da caridade. Não jurar para não vir a perjurar. Proferir a verdade de coração e de boca. Não retribuir o mal com o mal. Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas. Amar os inimigos. Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los. Suportar perseguição pela justiça. Não ser soberbo. Não ser dado ao vinho. Não ser guloso. Não ser apegado ao sono. Não ser preguiçoso. Não ser murmurador. Não ser detrator. Colocar toda a esperança em Deus. O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo. Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo. Temer o dia do juízo. Ter pavor do inferno. Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual. Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo. Vigiar a toda hora os atos de sua vida. Saber como certo que Deus o vê em todo lugar. Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual. Guardar sua boca da palavra má ou perversa. Não gostar de falar muito. Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso. Não gostar do riso excessivo ou ruidoso. Ouvir de boa vontade as santas leituras. Dar-se freqüentemente à oração. Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante emendar-se delas. Não satisfazer os desejos da carne. Odiar a própria vontade. Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: “Fazei o que dizem, mas não o que fazem”. Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento. Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus. Amar a castidade. Não odiar a ninguém. Não ter ciúmes. Não exercer a inveja. Não amar a rixa. Fugir da vanglória. Venerar os mais velhos. Amar os mais moços. Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos. Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença. E nunca desesperar da misericórdia de Deus. Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: “O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam”. São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.


CAPÍTULO 5 – Da obediência

O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. Deles diz o Senhor: “Logo ao ouvir-me, obedeceu-me”. E do mesmo modo diz aos doutores: “Quem vos ouve a mim ouve”.

Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. E, como que num só momento, ambas as coisas – a ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo – são realizadas simultânea e rapidamente, na prontidão do temor de Deus. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: “Estreito é o caminho que conduz à vida”, e assim, não tendo, como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: “Não vim fazer minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”.

Mas essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: “Quem vos ouve, a mim me ouve”. E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque “Deus ama aquele que dá com alegria”. Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar; e por tal ação não consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação.