Respondendo ao Presidente da CNL da CNBB

Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 31-5-75

AMIGOS QUE ME AJUDARAM na colheita de material para a luta trouxeram-me um número do SEDOC onde, numa longa declaração sobre a Comunhão nas Mãos e outros assuntos, o Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB diz o seguinte:

Se é de lamentar que haja quem ainda hoje use o missal de Pio V em hostilidade ao missal de Paulo VI, confiando-se (sic) num ridículo imobilismo tradicionalista (e isto acontece em mais de um lugar como acena veladamente em artigo publicado no Rio de Janeiro por certo escritor em “O Globo” de 5-10-74), também se deve lamentar a leviandade com que são tomadas iniciativas individuais em matéria litúrgica…”

COMO GRITOU PERCEVAL, ao ouvir em outro canto da sala cochicharem seu nome, grito eu: — Quem por aí murmura de “certo escritor”, diga bem alto Gustavo Corção, e puxe a espada!

E AGORA NÓS DOIS, sr. Dom Clemente José Carlos Isnard, Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB. Antes de falar alto e em bom som o que penso de suas declarações de 74, lembro nosso desencontro de 1969, por ocasião da publicação da primeira versão do documento: Institutio Generalis Missalis Romani. Lendo este documento, ao chegar no Cap. II, no famoso “ponto 7” deparei com uma nova apresentação, senão uma nova definição da Santa Missa: “Cena dominica sive Missa est sacra synaxis…”, e esfreguei os olhos. Tornei a ler: lá estava a tola nova apresentação da Santa Missa posta de pernas para o ar, despojada do seu essencial caráter de sacrifício, e subvertida porque apresentada a partir da assembléia dos fiéis. Dias depois, sem nenhuma hesitação, publiquei meu grito de estupor tratando o texto com alguns rudes adjetivos até onde é permitido pelo conhecido pudor jornalístico. Creio que chamei de “asneira”, coisa que alarmou alguns amigos que me telefonaram aflitos: — O documento vem de Roma! Ao que, modestamente, respondi: — Então é uma asneira que veio de Roma!

FOI UM ALVOROÇO no qual Dom Clemente não podia se omitir. Publicou um grave artigo estranhando minha ousadia e explicando que o documento por mim criticado vinha “capeado” por não me lembrar qual outro. E veladamente, suavemente eu era acusado de querer saber mais do que as autoridades eclesiásticas.

ESCREVI OUTRO ARTIGO explicando que não ouso nem pretendo cousa nenhuma extraordinária. Todos sabiam que já nesse tempo a Igreja fora invadida pelo Cavalo de Tróia, como tão sugestivamente disse Dietrich von Hildebrand no título de seu livro, ou já se achava em processo de destruição comandada pela própria hierarquia como gemeu Paulo VI: autodestruição.

DENTRO DESSE CONTEXTO eu só me gabo de distingüir com certa facilidade a voz de minha Mãe dos relinchos do Cavalo de Tróia. Dom Clemente José Carlos Isnard, Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB, engoliu os relinchos. O mundo inteiro gritou contra os berrantes defeitos do texto redigido por Monsenhor Anibal Bunigni, que desta maneira invadia Roma e vencia a última guerra púnica. Acordados e estremunhados, os inovadores da Liturgia em Roma procuraram corrigir o texto. Meses depois aparece efetivamente o novo texto remendado. E então, acordado e estremunhado, Dom Clemente José Carlos Isnard, Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB, arregalou os olhos sem entender como é que um jornalista podia ter visto erros tão grosseiros, segundo o clamor mundial, que escaparam ao Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB. E com altiva atitude que condiz bem com aquela entidade, absteve-se de voltar ao assunto, ou, como se diria antigamente, de dar a mão à palmatória. Calou-se. Encolheu-se. E continuou a engolir. Hoje engole a “comunhão nas mãos”. Voltaremos a este assunto. No momento chamamos a atenção do leitor para um trecho do último parágrafo que atinge o sublime, como diria Eça de Queiroz, ou transvorda “le planisphère de la bêtise humaine” como ruge Léon Bloy: “Há transgressões da disciplina vigente que, embora ilícitas, estão na linha de uma evolução facilmente previsível, e que em pouco tempo poderão estar sancionadas por uma legislação proveniente da autoridade competente (?).” (grifos e interrogação nossos)

NA TENTATIVA DE EQUILIBRAR esse monstrengo o Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB acrescenta: “Há abusos que contrariam a estrutura da Liturgia, e que nunca serão aprovados pela Igreja.” Eu imagino que o Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB se refira, por exemplo, à prática da antropofagia inserida entre os ritos, porque não vejo coisa mais branda que possa resistir ao princípio da evolução indefinida apregoada na primeira parte do texto. O emprego do termo nunca pelo Presidente da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB parece-me temerário e até veladamente fixista.