V - JUÍZO PARTICULAR - A Sentença



1 – A maldição


Depois do processo que lhe for feito, que esperará o pecador? A terrível, justa e inapelável sentença. E que dirá Jesus Cristo Juiz? Ai de mim! Tremo só ao pensar nisso! Eis o que dirá: “Como em vida menosprezaste o meu sangue com os teus pecados, esse mesmo sangue será a tua condenação: Vai-te daqui, maldito, para o fogo eterno!”

Maldição de Deus” Oh! Que espantosa desgraça!


“Fora daqui!” – Filipe II, rei da Espanha (+ 1598), quando numa festa assistia à Santa Missa, observou que dois cortesãos seus estavam na igreja sem respeito, conversando e rindo. Finda a missa, o rei os mandou chamar, encarou-os com olhar terrível e lhes disse:


- Assim assistis aos mais sagrados e tremendo Mistérios? Fora daqui! E não apareçais mais em minha Corte!


Estas palavras foram como um raio para aqueles infelizes. Trêmulos e chorosos se foram embora; e foi tal a sua mágoa que um deles morreu dois dias depois, e o outro enlouqueceu.


Vedes que fazes a cólera de um rei da terra? Ora, que angústia e espanto para um pecador quando vir Jesus Cristo Juiz indignado, e ouvir dEle as terríveis palavras: “Fora daqui, maldito!”


A alma do pecador é então presa dos demônios que dizem exultantes: “É nossa!”


2 – A condenação – pensamento salutar


Tal é o fim reservado a quem leva má vida. Pensem bem nisso os que vivem despreocupados, como se nunca devessem morrer, nem apresentar-se ao Tribunal de Deus. A cada um deles grita São Paulo: “Crês que escaparás ao juízo de Deus? Existimas, homo, quia tu effugies judicium Dei?” (Rom 2,3)


A ideia do juízo fazia tremer o santo rei Davi que dizia: “Eu temo, ó Senhor, os teus juízos: A judicium enim tuis timui” (Sl 118,120). “Não chames a rigoroso juízo o teu servo” (Sl 142,2).

E assim com essa ideia sempre fixa na mente se mantinha na santidade.


Quantos afinal, pensando na condenação do Juízo, de pecadores se tornaram penitentes e santos!


Diante de um cadáver que fala - No ano de 2082, numa grande capela junto à igreja de Nossa Senhora de Paris, celebravam-se os funerais de um Doutor da Universidade, que se chamava Raimundo Diocrès. O morto lá estava no ataúde, coberto só com um véu, segundo os costumes daquele tempo, e à roda do ataúde estavam muitas personagens. Quando, ao oficiar, um dos sacerdotes pronunciou as palavras: Responde mihi, quantas habeo iniquitates..., eis que o defunto se senta e se ouve uma voz que disse: “Por justo juízo de Deus sou acusado”. O espanto empolga os assistentes e se suspendem as cerimônias. Entrementes se observa o cadáver, porém este está imóvel, frio, rígido como antes. Aí se continua o sagrado rito: mas como? Às palavras “Respondi mihi...” de novo se ergue o defunto e diz: “Por justo juízo de Deus sou julgado”, e torna a cair no ataúde.


O espanto se faz maior em todos e se chamam o médico a fim de que examinem o cadáver; mas verificam que o morto está morto de verdade. A custo se começa outra vez o Ofício; e pela terceira vez, ao pronunciar-se as palavras Responde mihi..., o cadáver, erguendo-se, responde com acento terrível: "Por justo juízo de Deus sou condenado”.

Aí se deixa toda cerimônia sagrada, e sepulta-se o cadáver fora do sagrado.


Entre as personagens presentes àquele fato prodigioso havia um dos maiores Doutores daquele tempo, o qual tomou logo a resolução de deixar o mundo. Retirou-se por isso num lugar deserto perto de Grenoble, e ali se tornou o fundador dos cartuchos e se tornou santo. Este personagem convertido é S. Bruno. Feliz dele que pensou seriamente no Juízo de Deus! Ai, porém, dos que nunca pensam nisso, e vão a esse Tribunal com a alma maculada de tantas culpas! Que coisa horrível é cair nas mãos do Deus vivo! Horrendum est incidere in manus Dei viventis! (Hebr 10,31).


Conclusão


Queridas crianças, chegará para vós também o dia em que devereis comparecer ante Jesus Cristo Juiz para serdes julgadas; e chegará mais depressa do que pensais. Poderia ser daqui a uns anos... daqui a uns meses... e até hoje mesmo: quem o sabe?

E se Deus vos chamaste hoje ao seu Juízo, estaríeis tranquilos?...


Ora, é fácil aplacar o Senhor. E como se aplaca Deus? Com uma boa confissão e com o arrependimento.


Enquanto é tempo, procurai evitar a condenação no Juízo de Deus, e vivei como se cada dia fosse aquele em que devêsseis comparecer ante o divino Juiz. Assim não O verei irado, mas ouvirei deles as belas palavras: “Ó meu servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor: Euge, serve bone et fidelis, intra in gaudium Domini tui” (Mt 25,21).


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)