V – O juízo particular - O Processo




V – O Juízo Particular


O Processo


1 – A ideia da prestação de contas


S. Hilarião – S. Hilarião (+ 371), penitente austeríssimo, próximo da morte tremia todo ao pensar em ter de render contas de todas as suas obras. E para criar coragem dizia à sua alma apavorada: “Ó minha alma, bem sabes que servi a Deus durante 70 anos num deserto; por que então ainda temes?”


2 – Processo rigoroso


Quando a alma estiver perante Deus, ser-lhe-á feito um rigoroso processo. Este não durará muito tempo: far-se-á num segundo; mas para compreendê-lo devemos considerá-lo de modo sensível. Eis os acusadores:


a) O demônio está ali pronto para apresentar ao pecador todas as suas iniquidades, lembrando-lhe as renúncias e as promessas feitas no Batismo: Praesto erit diabolus; ante tribunal Christi recitabit verba professionis nostrae (S. Agostinho).


“Esse pecador (dirá o demônio) renunciou a mim, e depois cedeu sempre às minhas tentações e deu atenção a minhas sugestões. Eis aqui a fila dos seus pecados...”


b) A consciência dirá com a sua censura: “Sim, é verdade: de fato cometestes esses pecados. Tua malícia será a tua condenação, e tua rebeldia gritará contra ti.”


Tente o pecador dizer: “Esse mal eu não fiz... Esse, eu não sabia que era pecado... Esse bem eu não pude fazer...”.


A consciência gritar-lhe-á: “Mentiroso! Isto são desculpas vãs! Para o bem porventura de faltou tempo? E de certos pecados não sentias remorso? A ignorância?! Tu quiseste a ignorância: podias e devias instruir-te, e essa ignorância culposa te condena”.


c) E que dirá o Anjo da guarda? Ele foi testemunha de tudo...


Deu sempre as suas boas sugestões... Mas se nunca foi ouvido?! Como poderá servir de advogado de defesa?


“Lê aqui!...” – O Ven. S. Beda conta que na Inglaterra um valoroso capitão, próximo da morte, teve essa espantosa visão. Ao pé de sua cama estavam dois homens negros com um grande livro na mão, os quais lhe disseram:


- Lê aqui: verás todas as iniquidades que cometeste em vida.


E enquanto isso os expunham ante seus olhos. Viu depois um Anjo com um livrinho em que era pouca a escrita e o resto era papel em branco. Disse-lhe o Anjo:


- Lê aqui o pouco bem que fizeste.


Fez-se, então, o confronto das partes, e os espíritos negros invocavam justiça; de sorte que o Anjo bom, muito triste, teve de dizer:


- Sim, é vosso!


3 – A prestação de conta ao Juiz


"Então pedirá o Senhor contas de suas obras ao pecador: Redde rationem

villicationis tuae" (Lc 16,2)


“Agora me reconheces?” – Um rei da Inglaterra chamado Rocaredo, indo à caça, perdeu-se numa selva. Veio a noite, e ele ficou meio medroso. Andou daqui para ali, finalmente topou uma casa. Bateu à porta e foi recebido por um aldeão. Mas este, não havendo conhecido o rei, o tratou muito mal e lhe deu até pancada. No dia seguinte o rei se repôs a caminho e, de volta à corte, mandou chamar o aldeão que o havia hospedado à noite e lhe disse:


- Agora me reconheces?


Estas palavras apavoraram de tal modo o infeliz, que ele caiu fulminando (Segneri).


***


“Agora me reconheces?”, dirá também o Juiz indignado ao pecador. Eu sou o Deus que te criou, e que devias amar e servir. Eu te fiz tantos benefícios; e tu, ingrato, começastes a ofender-me desde menino, antes de conhecer-me, e te uniste ao demônio para me fazeres guerra. Presta-me, pois, conta dos pecados que cometeste: de tantos olhares maus; de tantas palavras escandalosas. Presta-me contas de tantas obras más que fizeste ocultamente, dizendo: “Ninguém me vê”; e no entanto, eu te vi, eu que sou o Juiz e a testemunha: Ego sum judex et testis (Jer XXIX, 23).


Presta-me contas de tantas desobediências e faltas de respeito aos pais e aos mais velhos. Praticaste tais pecados e eu sempre me calei (Sl 49,20). Presta-me contas de tantas festas não santificadas, que passaste em jogos e passeatas com companheiros do pecado. Quando muito ouvias uma missa: porém, mesmo esta ouvias mal, conversando, rindo, perturbando os bons. Não ias ouvir as prédicas, na doutrina. Cometestes esses pecados e eu me calei.


Presta contas dos escândalos dados, e das almas que arruinaste tornando-as presa do demônio. Cometestes esses grandes pecados e eu me calei.


Presta contas também do bem que podia fazer e não fizestes. Tinhas tempo para jogos, mas não para recitar umas orações; levantavas-te pela manhã e dormias a noite sem nem se lembrar de mim.


Por tua causa instituí os sacramentos, fonte de toda graça; e os recebestes bem raramente! E até recebeste o meu corpo e o meu sangue na Sagrada Comunhão em estado de pecado mortal, cometendo, ainda, enormes sacrilégios! Cometestes esses pecados horríveis e eu sempre me calei.


Eis, como numa balança, as tuas iniquidades e o que eu fiz por ti. Vês? Por ti desci do Céu à terra; menino, vagi numa cabana; trabalhei até os 30 anos; fui injuriado, flagelado, coroado de espinhos! Por ti derramei o sangue; morri na cruz numa infinidade de espasmos... Podia eu fazer mais?


E tu, ó iníquo, acreditavas talvez que eu deveria calar-me sempre? E que eu fosse igual a ti? Eis diante de ti toda a tua iniquidade: Existimasti, inique, quod erro tui similis? Arguam te, et statuam contra faciem tuam (Sl 49, 21).



(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)