Vai e Vem…

Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 8-3-75

EM TODA a Divina Tragédia revelada e escondida nas Sagradas Escrituras há certos verbos que têm, ao longo de todos os textos, uma especial carga de misteriosas significações. Entre estes, começo por assinalar os dois imperativos que, como pretendo mostrar numa primeira e modesta aproximação, de certo modo enquadram toda a Criação e toda a Redenção.

NA CRIAÇÃO, é por um ite que Deus imperativamente planta a criatura na existência, envia-a, a partir do nada. Escusado é dizer que a idéia de criação ex-nihilo é excessiva para nossa compreensão e só é inteligível na dependência da fé num Deus Todo-Poderoso. Todas as atividades produtivas do homem consistem em imprimir certa forma em algo preexistente. Uma distância infinita, intransponível e inconcebível, separa a mais elaborada e gloriosa produção humana da mais humilde e obscura criação de Deus. A distância existencial entre um grão de areia e o nada é infinitamente maior que a distância operacional entre um átomo de hidrogênio e as mais poderosas e engenhosas máquinas do mundo. Digamos assim: para a simples emergência de um grão de pó na existência, ex-nihilo, precisamos pensar com fé no mistério de um Deus Onipotente. Mas observemos que esse ser criado, não tendo em si mesmo sua razão de ser, sua força de existir, guarda a lembrança do nada de onde veio, certo tropismo negativo que nele imprime uma tendência geral ao desmoronamento que os físicos observam e chamam de entropia-crescente ou evolução de um estado mais organizado para um estado mais indiferenciado e caótico. Seria melhor chamar de involução essa lei do nada, que pesa sobre toda a criação. Mas Deus Criador quer ser o primeiro e principal contemplador de sua obra, quer dizer que ela é boa, porque, na verdade, “Deus tudo criou para Si mesmo” (Prov. XVI, 4). O ato de criação se prolonga numa vocação, num veni, que imprimirá em todos os seres criados um teotropismo que o incita para Deus e assim o mantém na duração que Deus concede às mais humildes de suas criaturas. Entre essas criaturas mais humildes, compostas de matéria e forma, algumas se destacam do mundo físico e da entropia crescente pelo fato de apresentarem um comportamento maravilhosamente contrário, que o físico Schrodinger chamou de “entropia negativa” e nós chamamos “vida”. Uma roseira cresce, floresce, desabrocha, como se em suas fibras e sua seiva o veni de Deus produzisse um mais ardente e vivo atendimento. A rosa é o adqum da roseira. O “aqui estou” de Abraão.

ACIMA DA ROSEIRA Deus criou o homem, com alma espiritual, à sua imagem e semelhança, e nesse caso podemos pensar no veni como em um chamamento tão alto e tão forte que não hesitamos, como Isaías e São Paulo, em usar o termo de “nova criação”.

GOSTARIA de poder longamente expandir-me neste tema, que talvez ofereça ângulos teológicos interessantes para os que se debatem diante do falso imperativo da evolução — o mais antigo dos erros proposto a esta geração de tolos como a mais nova das descobertas. Por outras razões mais altas e mais puramente teológicas, gostaria de desenvolver essa idéia, se ainda tivesse vida e luzes para mais um livro. Receando não ter ainda as duas condições necessárias para tal empreendimento, não quero deixar passar esta Quaresma, sem esboçar, ao menos, a parte de tal obra que tratasse do “vem” e do “vai”, entre Jesus e o homem.

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TOMEMOS, leitor, o evangelho de Mateus e notemos que todo ele se inscreve, na parte principal, entre o momento em que Jesus chama seus discípulos e o ponto final, em que os envia. Aqui o veni e o ite têm ordem inversa à da Criação.

OBSERVEMOS o quadro conhecido do chamado: “… caminhando pela Galiléia, Jesus viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E Jesus lhes disse: Vinde e segui-me, que eu vos farei pescadores de homens. E eles, sem demora, largaram as redes e o seguiram.” (Mat. IV-18; Mc. I, 16; Luc. V, 1).

ANTES DE prosseguir, detive-me, longamente, diante desta linha: “E eles, sem demora, largaram as redes E O SEGUIRAM”. Proponho ao leitor o mesmo exercício: uma hora de meditação, com apelo à imaginação, à inteligência, à fé, a todas as forças da alma espiritual e da sensibilidade, a todas as ressonâncias da fé. Veja a cena, reconstitua o quadro, contemple a infinita simplicidade do chamado, e a simplicidade infinita da resposta. Estamos, talvez, diante da mais bela das linhas da Sagrada Escritura: “… e eles largaram tudo E O SEGUIRAM”. Meu Deus! que amor e que respeito sem limites ecoam em nossa alma estas simples palavras por esses eles, que eram homens como nós, apegados a seus barcos como nós a nossos tudos mais complicados, e largaram tudo sem demora, sem discussões, indagações, inquirições — E O SEGUIRAM.

O EVANGELHO de S. Mateus termina por um ite: “Ide pois e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, ensinando-os a observar tudo quanto vos ensinei. Quanto a MIM, estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo. (Mat. XXVIII, 18).

E AGORA, leitor, observai que entre os dois verbos complementares da dinâmica criadora e redentora, surgiu um novo verbo que, nos evangelhos, condensa toda a vida cristã: SEGUIR. Seja nossa quaresma uma longa meditação sobre este versículo central e essencial: “Disse Jesus: se alguém me quer imitar renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me “. (Mat. XVI, 24)