Vejamos a tolice, por Gustavo Corção



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 10–12–1973


NA QUINTA-FEIRA aludi à poluição religiosa cujo principal sintoma é a alvoroçada atração que os meios católicos inovadores fazem questão de evidenciar: a atração pela torpeza e atração ainda mais incontida pela tolice. Vamos hoje ao exemplo de hiperbólica tolice que tenho diante dos olhos. É um artigo intitulado Teologia numa Universidade Latino-Americana publicado numa revista universitária brasileira.


PARA começar, o autor divide seu trabalho em "teologia na universidade e a teologia da libertação". A divisão é bizarra e de novíssima invenção, mas não é clara a começar pela diversidade de regência: no primeiro termo, temos Teologia NA Universidade; no segundo temos Teologia DA Libertação. Não formam bom binômio duas perspectivas tão heterogêneas, mas admitamos que todos entenderam o que quis dizer o autor com sua Teologia na Universidade, e agora procuremos entender o outro termo que me parece mais moderno e especificamente latino-americano. Que quererá dizer "Teologia da Libertação"? Há a vencer aqui um preconceito inicial. Como vários dos novos "teólogos" da América Latina já usaram essa expressão e já a empregaram em títulos de livros, ficou entre eles tacitamente admitido que existe uma "teologia da libertação" e que sua definição se tornou claríssima. Ora, nem uma coisa nem outra são admissíveis. Chega a ser obscuro o sentido de cada palavra tomada isoladamente. Há já alguns anos sei o que é teologia e o que pode significar "libertação", mas leio no folheto universitário que os bispos latino-americanos, em 1988, chegaram a conceitos originais em Medelin.


DELA primeira vez falou-se oficialmente em pastoral para o desenvolvimento, para a integração e para a libertação do homem. O conceito de libertação tornou-se um conceito-chave dessa conferência (Medelin). Os bispos compreenderam a libertação como desenvolvimento integral, significando não apenas a libertação do homem do pecado, mas de toda a espécie de escravidão, miséria e opressão. Deste modo, o processo do desenvolvimento pode ser definido como processo de libertação.


ORA, SE FOI dessa maneira que os senhores bispos, em Medelin entenderam o cristianismo, ou julgaram fazer teologia pastoral colocando no mesmo saco, ou na mesma perspectiva formal o pecado e o padrão de vida de suas ovelhas, tremo de pensar que mudaram de religião, deixando-me para trás a ter por base os mesmos textos escritos há dois mil anos por um povo muito menos "libertado" do que a América Latina, e nos quais não vejo nada que de longe se pareça com o mau ensaio de economia política escrito em Medelin.


O AUTOR da "teologia da libertação" que tenho diante dos olhos, diz: "A Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora."


ORA, se a Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora, isto quer dizer que, na sua doutrina, tornou-se dogma a idéia de que só existe pobreza por injustiça e opressão, ora essa idéia jamais foi sustentada pelo Magistério. Além disso, se a Igreja decidiu-se na América Latina pela práxis em defesa dos pobres, isto quer dizer que a Igreja resolveu assumir as rédeas dos governos dos países latino-americanos. Mas isso é mais fácil dizer do que fazer, porque nem os governos nem os povos, ricos e pobres, chegaram a tal loucura. Mas então, se bem entendi meu autor, e se ele bem entendeu os bispos que se decidiram pela práxis em favor dos pobres, temos uma revolução de Bispos a percorrer o infeliz continente em cavalgadas de práxis libertadora. E às crianças na beira da estrada as mamães dirão: — Lá vai Dom Anacleto a fazer Teologia de la Liberación.


OU ENTÃO, se os signatários do novo Evangelho em Mendelin se convencerem de seus poucos recursos bélicos para a efetivação da Justiça Social que resolverá por decreto a incompetência dos incompetentes, a preguiça dos preguiçosos, a burrice dos burros, só terão outra alternativa: atrelar os aparelhos das conferências episcopais à Revolução que já está em marcha e que, pela estupidez de dez papas, entre os quais um Santo, foi condenada como ímpia, monstruosa, desumana e intrinsecamente perversa.


FOI, aliás, esse o itinerário dos mendelinenses na desventura do Chile. Para vergonha dos católicos do mundo inteiro vimos os "teólogos da libertação" apoiarem no Chile o infeliz Allende, talvez induzidos em erro por seu nome de Salvador.

O FATO é que a asneira foi praticada, que o documento base ainda é lembrado, e que mais uma vez essa nova raça que ousa falar em teologia ainda insiste em não perder uma oportunidade mínima de prestar serviços à Revolução inimiga da Igreja e do Homem.


NO FOLHETO que me chegou às mãos, logo abaixo daquela frase "A Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora lê-se o toque de reunir: "Nos últimos tempos surgiu um grupo de teólogos-profetas como Hugo Arsmann, Segundo Galilea, José Comblin, Gustavo Gutierrez e outros..."


E AÍ ESTÁ mais um exemplo da poluição de tolices que Satã espalhou por cima do cristianismo para cobrir toda a beleza da verdade guardada no regaço da Santa Igreja. De todas essas experiências, só nos resta a vergonha da aventura.