X – A Confissão - Necessidade e Vantagens



A clemência de um rei para com um cortesão (parábola) – Uma vez havia um rei poderoso, bom e misericordioso. Esse rei acolheu em seu paço um homem pobre, ignorante e mau. Ele mandou vesti-lo de novo, instruir e educar... e, depois lhe deu um alto cargo em sua corte. Eis o malandrim transformado em cortesão, confidente do rei. Ouvi, porém, o que ele fez. Em vez de ser reconhecido e fiel a seu benfeitor, tentou, com uma conjura e uma traição, expulsá-lo do trono. O rei recebeu a tempo o ato indigno do vil traidor, e o condenou à forca, pois assim o queria a justiça.


Quando, na grande praça cheia de gente, lá estava o carrasco para enforcar o malfeitor, eis que chega um escudeiro do rei, o qual grita: “O rei quer conceder graça a esse assassino... mas sob uma condição!”. O cortesão toma fôlego e abre o coração à esperança. Quem sabe qual era a condição? Ei-la: o malfeitor devia confessar a sua culpa (que era secreta) a um dos Ministros, à sua escolha. Figurai o contentamento do condenado! Ter a salvação por tão pouco preço! Confessou logo o seu crime, e teve o perdão. Depois o bom rei ainda o acolheu em seu paço.


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Ouvistes? Quem é o rei? É Deus. E o malfeitor, quem é? É o pecador que ofendeu um Rei e um pai tão bom. Tal pecador mereceu a condenação ao inferno. Mas como o Senhor quer a salvação de todos (e por isso se fez homem e morreu na cruz), eis que instituiu um Sacramento, por meio do qual qualquer pecador, manifestando a um Ministro de Deus os seus pecados, ainda pode obter o perdão e salvar-se. Esse Sacramento é a Penitência, ou seja, a Confissão.


Compreendeis que grande benefício, que graça do Senhor é a Confissão? Ficai atentos, e ouvireis como ela é necessária e vantajosa.


I – Necessidade da Confissão


1 – A Instituição – Os caminhos que levam ao Céu são dois: o da inocência e do da penitência. Quem não é mais inocente, se quer salvar-se, deve recorrer à penitência que é o único remédio para cancelar os pecados. Quem perdoa os pecados é o Senhor; mas ele quer que os confessemos a seus Ministros, isto é, aos Sacerdotes, os quais têm de Deus o poder de perdoar os pecados cometidos após o Batismo. Eis como lhes deu o Senhor esse poder: Jesus Cristo, ressurrecto, apareceu aos seus Apóstolos, que foram os seus primeiros Sacerdotes, e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo: Serão perdoados os pecados a quem os perdoardes; e serão retidos a quem os retiverdes: Accipite Spiritum Sanctum: Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis; et quórum retinueritis, retenta sunt (Jo 20, 22-23).


2 – A Tábua da Salvação – Que seria de muitos, se não houvesse esse Sacramento? Estariam eternamente perdidos! Por quê? Depois de batizado, o homem pode ainda pecar, e não pode receber outra vez o Batismo que cancela os pecados. Ai de nós por isso se não fosse a Confissão! A qual cancela todos os pecados que se cometem após o Batismo. A Confissão é chamada a segunda tábua após o naufrágio. Quando um barco, batido pela tempestade, vai ao fundo, os marujos e viajantes que estão a bordo não tem outra salvação a não ser alguma tábua, ou pedaço de pau: a isto se agarram, e se salvam. Assim, quem sofre o naufrágio espiritual por causa dos pecados, não mais podendo ter a tábua da salvação do Batismo, salva-se com a da Penitência. E o Senhor só estabeleceu esse meio, com o qual se pode readquirir a sua graça. Por conseguinte, para quem pecou mortalmente, ou confissão, ou condenação!


Caros filhos, se algum dia tiveste a grande desgraça de cair nalgum pecado mortal, se quereis o perdão deveis confessá-lo: porque qualquer outro meio que vos viesse à mente praticar, por exemplo orações, esmolas, jejuns, penitências... seria tudo inútil. Ou confessar-se ou perder-se.


Pelágio e as inúteis penitências – Nas histórias de São Bento se lê de certo jovem de nome Pelágio, que, criado no santo temor de Deus, era uma flor de virtude e de inocência. Falecidos seus parentes, retirou-se num eremitério e ali levava uma vida de santo. O demônio, invejoso de sua virtude, continuamente o molestava com fortíssimas tentações; mas o inocente jovem vencia sempre com a arma da oração. Mas como? Um dia deixou a oração, e caiu num pecado impuro. Aí foi tomado de grande tristeza, e suspirando dizia: “Ó pobre Pelágio, como é que caíste! Antes era filho de Deus, e agora és escravo do demônio! Estão perdidos todos os méritos que adquiristes!” Nessa triste condição se pôs a maltratar seu corpo e a reduplicar as orações, pensando assim poder obter o perdão de seu pecado; mas confessar-se... não! Não teve mais coragem de dizer aquela sua culpa a nenhum confessor. Que adveio daí? Levou avante assim até a morte, e morreu com o seu pecado! Que lhe valeram todas aquelas penitências? Perdeu-se miseravelmente, quando por todos era estimado um santo!


3 – O Fácil remédio negligenciado – Porventura muito exige o Senhor para nos dar o seu perdão? Poderia com justiça exigir de nós penitências, jejuns, peregrinações...; e nós deveríamos atender a suas condições, e ainda agradecer-lhe. Olhai, no entanto, que bondade e que indulgência! Ele quer apenas que confessemos os pecados. É pouco, não é verdade? E, no entanto, muitos nem isso fazem; e a confessar-se, preferem ficar com seus pecados nas costas, fugindo do médico e do remédio que os pode curar.


Cegos e estropiados que fogem de S. Martinho – Narra-se na vida de S. Martinho, bispo, que uns desgraçados (cegos, estropiados, ulcerosos simuladores) estavam um dia reunidos a tagarelar; quando subitamente ouviram que vinha a eles o santo Bispo. Aí se confundiram, e... toca a correr, uns daqui, outros dali. Sabeis por quê? De medo que o Santo os curasse. Sabiam que ele com milagres curava muitos doentes; e eles não queriam saúde, a fim de continuarem em seu tráfico... de ganhar sem trabalhar.


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Caso estranho, sim? E, no entanto, quantos, também entre os jovens, fazem assim! Preferem viver com a alma doente, ulcerosa, sem a graça de Deus e estar à beira do inferno, a curar-se e a readquirir a graça e a amizade de Deus por meio da Confissão. Há afinal outros que gostariam de ficar curados na alma porque sabem que estão mal com os pecados; mas são preguiçosos e indolentes... e recusam o remédio da confissão, que lhes parece demasiado amargo!


4 – Deve-se procurar a cura – É mister fazer como aquele pobre enfermo de que fala o Evangelho, e que estava ao pé da piscina probática.


O enfermo e a piscina probática – Havia em Jerusalém uma fonte, denominada piscina probática, com cinco pórticos. Jazia ali uma turba de enfermos, cegos, estropiados, paralíticos, os quais esperavam o movimento da água. E de fato um Anjo do Senhor em certa época descia à piscina, e a água era agitada. E aí quem mergulhasse nela primeiro, ficava curado. Entre aquela turba havia um homem enfermo há 38 anos. Jesus o viu e lhe disse:

- Queres ficar são?

E o enfermo:

- Senhor, não tenho ninguém que me lance n’água.

E Jesus:

- Levanta-te, toma a tua cama e anda.

E naquele instante foi curado o enfermo. Apanhou sua cama e andou (Jo 5,29).


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Esse homem, sim, desejava a cura! Que significa a piscina probática? Significa o Sacramento da Penitência, por meio do qual se sara de qualquer moléstia, ou seja, de qualquer pecado.


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)