XI – Confissão – Como se faz o exame



Como se faz o exame


1 – Orar antes


Ficai sabendo que sem a ajuda de Deus não podemos fazer nada bem. E o Senhor nos dará sua ajuda se lha pedirmos. Devemos, pois, suplicar o Senhor para que nos ilumine a mente, a fim de que possamos conhecer o estado de nossa consciência. Por nossa conta, somente somo capazes de cometer os pecados, e não de os conhecer. O cego do Evangelho, a quem urgia a vista, exclamava, suplicando a Jesus: “Senhor, fazei que eu veja” (Lc 18,41). Dizei, assim, também vós: Senhor fazei que eu conheça os meus pecados! Invocai ainda a ajuda de Maria Santíssima, Mãe dos pecadores, e a assistência do Anjo da Guarda.


2 – Procurar diligentemente


Fareis, pois, o exame usando de toda diligência ao procurar os pecados. O comerciante que deve fechar qualquer negócio de importância, com que diligência faz suas contas! Ora, há negócio mais importante que a salvação da alma?


Meus caros filhos, na confissão se trata ou de salvar ou de arruinar a alma! Por isso se deve usar de toda diligência possível, a começar pelo exame de consciência.


Quantos, no entanto, fazem um exame apressado! Uma olhadela de passagem... e basta! E que acharam? Alguma mentira..., alguma desobediência... e nada mais! A este se pode dizer o que por Deus foi dito a Ezequiel numa visão sua.


Uma visão de Ezequiel – O Profeta Ezequiel teve um dia uma visão. Foi erguido pelos cabelos entre o céu e a terra, e levado em espírito a Jerusalém, defronte da porta do templo, dentro do qual se cometiam coisas abomináveis. E o Senhor disse:


- Profeta, olhai... Que vês?

- Vejo um buraco na parede, disse o profeta.

- Escava a parede (continuou o Senhor), vai lá dentro e verás péssimas abominações (Ez 8, 9-10).


O Profeta abriu a parede... Ai de mim! Quantos ídolos e quanta imundície oculta viu lá dentro!


***


Meus filhos, escavai também a parede de vossas consciências... Olhai lá dentro e talvez acheis tantas coisas más e ocultas: pensamentos... desejos... escândalos... dos quais nunca fizestes caso!


3 – Não acabaremos nunca de examinar-nos?


Quem diz isso? Não é preciso ir ao excesso. Santa Margarida Maria Alacoque quando devia confessar-se, examinava-se excessivamente, e temia sempre não se ter examinado bastante. Um dia em que ela estava inquieta e perturbada por causa de seu exame, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: “Por que te atormentares? Faze o que podes. Eu amo os corações contritos que se acusam sinceramente dos pecados que conheçam, com a vontade de não mais desagradar-me” (Shouppe).


O exame de consciência feito num livro - Uma moça, querendo fazer o exame para a confissão geral, tomou entre as mãos um livro de piedade, e todos os pecados que achou indicados nesse livro, ela os copiou numa folha de papel. Lia-os depois ao confessor, sem mesmo os compreender. O confessor, ao ouvir certas iniquidades, impossíveis de cometer por uma menina, perguntou-lhe: “São teus estes pecados?”, responde a menina: “Deus me livre deles! Estes pecados jamais os cometi. Achei-os no livro”.


Podeis valer-vos do livro, mas anotando só os pecados que cometestes realmente. Aliás, o mais belo livro é a própria consciência. Se fazeis passar ante a consciência os Mandamentos de Deus um por um, dir-vos-á ela quais são os que transgredistes, e por conseguinte, quais são os vossos pecados.


4 – Número e circunstâncias


Como, afinal, se devem confessar todos os pecados mortais, é necessário no exame procurar o número deles. Se um pecado, por exemplo, foi cometido 10 vezes, não bastará dizer “cometi tal pecado”, mas deverá também dizer que esse pecado foi cometido 10 vezes. E se não se sabe o número exato? Bastará então encontrar o número aproximado: por exemplo, cerca de 4 vezes, cerca de 10 vezes...


E se nem isso se pudesse determinar? Procure-se, então, quantas vezes, aproximadamente, por mês, por semana... se cometeu esse pecado mortal.


Além do número de pecados, deve-se ainda pesquisar as circunstâncias que alteram a espécie, e tornam o pecado muito diferente. Explicarei isso com um exemplo.


O exame e a confissão de Gervasino – Gervasino espancou a mãe, cometeu um pecado horrível com seu irmão; foi imodesto, mostrando-se aos demais e dando escândalo; blasfemou a Deus, dando-lhe nomes feios; roubou na igreja... Depois, devendo confessar-se, faz o exame de consciência a seu jeito, e se prepara para dizer assim os seus pecados ao confessor: “Eu dei pancadas; cometi um pecado horrível, fui imodesto, blasfemei, roubei...”


Dizei-me: confessar-se-ia bem? Não! Porque não disse que espancou a mãe, que pecou com o irmão, que com as imodéstias deu escândalo, que deu nomes feios a Deus, que roubou na igreja.


Eis as circunstâncias que alteram a espécie do pecado, e de um pecado fazem dois diferentes. Também sobre tais circunstâncias deveis examinar-vos.


Conclusão


Começai a fazer bem o exame de consciência, se quereis confessar-vos bem. Pensai que qualquer dia far-vos-á o Senhor um severo exame: e será quando comparecerdes perante Ele. Aí Ele iluminar-vos-á a alma com a luz divina: Illuminabit abscondita tenebrarum (1 Cor 4,5), e ficarão manifestas todas as vossas culpas. Escutai o conselho que nos dá São Paulo: “Se nos julgássemos por nós próprios, certamente não seríamos julgados (1 Cor 11,31). E antes mesmo de comparecer ao juízo de Deus os pecadores que nas confissões negligenciam o exame, verão alinhados diante dos olhos os seus pecados.


Uma série de pecados – Narra um piedoso escritor que um jovem de vida muito desordenada e de consciência frouxa, ao se ver próximo da morte, mandou chamar um confessor. Mas antes de o confessor chegar, pareceu ao moribundo ver um demônio, o qual lhe mostrava uma longa lista de pecados que ele havia esquecido em suas confissões, por falta de exame. Apavorado a essa lista, o pobre jovem desesperou de sua salvação, e morreu sem confessar-se.


Isto não acontecerá a vós se, toda vez que vos confessardes, fizerdes um bom exame de consciência.


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)