XI – Confissão - Necessidade do Exame de Consciência



Necessidade do Exame


Como é bom o Senhor! Ofendido por suas criaturas, embora tenham estas praticado pecados gravíssimos e inúmeros, faz ele triunfar a sua misericórdia, e no Sacramento da Penitência perdoa tudo. É verdade: mas Deus é também justo. Por isso na Confissão exige condições, sem as quais esse Sacramento não serviria para nada; e tornar-se-ia nocivo: seria o remédio que se converte em veneno.


E quais são essas condições? São as cinco coisas, que o Catecismo diz necessárias para fazer uma boa confissão, isto é:


1) O exame de consciência;

2) A dor dos pecados;

3) O propósito de não os cometer mais;

4) A confissão ou acusação;

5) A satisfação ou penitência.


Eis as condições para fazer bem a confissão.


Dizia Sto. Afonso: “Quem sabe confessar-se bem, sabe ir para o Paraíso; muitos vão para o inferno porque se confessam mal”. Muito importa, pois, conhecer essas cinco coisas; e eu vo-las explicarei, começando pela primeira: o exame de consciência. Direi:


1) Da sua necessidade;

2) Do modo com que deve ser feito.


I – Necessidade do exame


I.I – Que é o exame de consciência


É reclamar diligente à memória os pecados cometidos, começando da última confissão bem feita. Por que se diz da ultima confissão bem feita? Porque só nas confissões bem feitas são perdoados os pecados. Por isso se alguém nalguma confissão deixasse para trás de proposito um único pecado mortal, ou por malícia ou por vergonha, as confissões que haja feito depois não seriam boas; e ainda teria na alma todos os seus pecados. Que deve fazer então? Deve fazer o exame de todos os seus pecados, partindo da confissão que sabe haver sido bem feita. Eis um exemplo:


As confissões de Tônio – Tônio até a idade de 10 anos se confessou bem: depois numa confissão deixou de dizer, por vergonha, um pecado mortal; e continuou a ocultá-lo até agora que tem 13 anos. As confissões feitas por Tônio nestes últimos 3 anos, eram boas? Não. Agora para confessar-se bem deve fazer o exame dos pecados desses três anos; depois confessar o pecado sonegado e todos os outros pecados que cometeu nos 3 anos; porque tais pecados não estavam perdoados. Pôr-vos-ei diante dos olhos uma comparação.


Uma meia mal feita – Uma jovem, fazendo uma meia, erra um ponto, e vai adiante sem corrigir o erro. Pouco depois, vê que toda a meia está mal feita. Que faz para remediar isso? Desfaz todo o trabalho até o ponto errado; em seguida corrige o erro e refaz o trabalho todo de novo. Assim quem se confessou mal: deve tornar atrás até a confissão mal feita; refazer esta e ainda todas as outras feitas depois.


I.II – É necessário esse exame? E por quê?


Mais que necessário! Para conhecer os pecados e em seguida lamentá-los e confessá-los, é preciso primeiro procurá-los; e se não se pensa neles, não se acham. Se eu vos dissesse: Que fizestes ou dissestes há cinco dias, em tal hora... Responderíeis: Deixa-me pensar! Deus se queixava um dia do povo hebreu, dizendo pela boca de Jeremias: “Esse povo me virou as costas, e não há ninguém que faça penitência do seu pecado e diga: Que fiz eu?” (Jer 8,6). Esse povo não se voltava para si mesmo. Não fazia o exame de consciência, por isso não se arrependia.


Davi comete dois grandes pecados e nem pensava neles. E Deus mandou a ele o Profeta Natã que lhe fez o exame de consciência, mostrando-lhe os seus pecados. Aí Davi os conheceu, e se arrependeu e os lamentou (2 Rs 12, 7-13).


O Filho Pródigo, fugido da casa paterna, passou a vida na pândega e nos pecados. Por fim, se converteu. Mas quando? Quando fez o exame de consciência. “Tendo entrado em si (diz o Evangelho), disse: Erguer-me-ei e voltarei a meu pai” (Lc 15, 17-18).


Vedes, pois? Se não se faz o exame de consciência, não se poderá conhecer os pecados: por conseguinte, não se poderá detestá-los, nem confessá-los, nem cancelá-los.


Uma confissão mal feita sem o exame prévio – Foi uma vez confessar-se um rapazinho que se confessava bem raramente, e ao confessor disse:


- Blasfemei!

- Quantas vezes? – perguntou-lhe o confessor.

- Duas ou três.

- Serão duas ou três por ano? – indagou o confessor?

- Sim, padre.

- Pensa um pouco: porventura serão duas ou três vezes por mês?

- Sim, isto. – continuou o rapaz.

- Ou quisestes mesmo dizer duas ou três vezes por dia?

- Padre, V. Reverendíssima adivinha tudo: eu digo blasfêmias todos os dias.

- Mas, então, por que não te explicas logo?

- Não tinha pensado nisso! – respondeu o rapaz.


Eis o que acontece quando alguém se confessa sem ter feito o exame de consciência.


I.III – “O confessor interrogará”


Assim diz alguém. E eu respondo: E se fosse um confessor que não interroga? O confessor não é obrigado a interrogar: não é ele que deve fazer a confissão. Os que fazem assim, imitam o rei Nabucodonosor.


O sonho de Nabucodonosor – Este rei teve uma noite um sonho que o deixou muito espantado. Despertando pela manhã, sabia ter tido um sonho terrível, mas não lembrava qual fosse. Pensa e repensa: não havia jeito de lhe vir à memória. Aí mandou chamar todos os sábios do reino e ordenou-lhes que lhe adivinhasse o sonho, e desse a explicação. Eles deram de ombros e retrucaram: Majestade, contai-nos o sonho, e nós o explicaremos”. “Sois uns impostores, acrescentou o rei enfurecido: far-vos-ei enforcar a todos”. Chega, nesse momento, o profeta Daniel que, inspirado por Deus, revelou e explicou o sonho (Dn 2, 1-31).


Como esse rei, fazem certos penitentes: pretendem que o confessor se faça adivinho, e eles se dispõem somente a dizer sim ou não. Mas isso é uma pretensão má. O confessor poderá com algumas interrogações: mas quem deve fazer o exame não é o confessor, e sim o penitente.


I.IV – Deve-se procurar o inimigo


Diz S. Bernardo: “Se um rei soubesse que em seu reino se escondem inimigos, que faria? Faria primeiro procurá-los e depois exterminá-los. Ora, sabeis que dentro de vós estão inimigos: estes são os pecados. Procurai-os, se os quereis exterminar”.


Os antigos anacoretas (como refere S. João Clímaco) – Eles traziam pendurados à cintura um pequeno livro, no qual anotavam todos os maus pensamentos tidos, para depois se recordarem deles quando iam confessar-se. Até certos filósofos pagãos viam a necessidade do exame de consciência para poder emendar-se de seus defeitos.


Sêneca diz que ele examinava a sua consciência toda noite: e achando que havia cometido qualquer culpa, dizia a si mesmo: “Olha o que fiz! Desta vez eu ta perdoo, mas cuida de não recaíres nisso!”. Assim conhecia a si mesmo e melhorava a sua conduta.


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)