XII – Confissão – A dor dos pecados



Necessidade da dor


Uma caçada falha – Um caçador tomou um dia seu fuzil e... lá se foi pelos campos! A caminho topou um amigo que lhe perguntou:


- Onde vais?

- Ora essa! Vou caçar.

- Boa sorte!


Na campanha, eis logo uma lebre. O caçador apontou o fuzil e... o tiro não sai. E a lebre, olha como vai! Depois o homem vê numa árvore um bando de pássaros; conta-os: um, dois... dez... vinte e cinco... e não dá um tiro. Assim não mata nenhum... De volta para casa, o senhor topa ainda o amigo.


- E a caça?

- Eu a fiz (retruca o caçador). Vi lebres e pássaros e os contei.

- E não os mataste?

- Não.

- Mas isso é caçada? Isso é uma ficção, uma comédia.

O amigo tinha razão.


***


Meus filhos, semelhante a esse caçador é quem se vai confessar e se contenta apenas com procurar os seus pecados e saber-lhes até o número. Isto não basta: deve também matá-los. E de que modo? Com a dor... Eis o tiro que mata os pecados. Se falta a dor, a confissão seria uma ficção, uma comédia.


I – Necessidade da dor


1 – Que é a dor?


“A dor, ou arrependimento, é o desgosto e ódio dos pecados cometidos, que nos faz propor não mais pecar”. Assim diz o catecismo. Portanto, não é um mal físico e corpóreo, da cabeça, dos dentes...; mas um desgosto, uma aflição da alma por ter cometido os pecados. Com esse desgosto se fazem duas coisas:


a) Detestam-se e odeiam-se os pecados

b) Propõe-se não mais os cometer.


Eis um exemplo.


A picada de uma víbora – Um menino de dez anos andava em busca de caracóis no início do inverno. Num bosque viu uma cobra enrolada. Tocou-a com o seu bastão, e ela não se movia: estava enregelada. Apanhou-a, então, e a pôs na sacola juntamente com os caracóis. Pouco depois, querendo saber quantos eram os seus caracóis, pôs a mão na sacola... Ai de mim! Que nunca o houvesse feito! Sentiu logo uma forte picada. Dando um grito, retirou a mão; mas eis que a cobra lhe estava presa no pulso... Era uma víbora! Despertada no calor, dera-lhe na mão feroz picada. Depressa o menino a puxou e a jogou no chão com asco e pavor; depois a bastonadas a matou. Voltando para casa, o pobre garoto sentiu dores atrozes; mas com a ajuda de rápida medicação pode curar-se. Às censuras da mãe, exclamava então: “Que foi que eu fiz! Ah! Víbora maldita! Mas doutra vez não farei assim!”


Eis a dor, a abominação e o propósito!


2 – É necessária a dor?


É absolutamente indispensável na confissão. Sem arrependimento, não se é perdoado. Pretender receber o perdão dos pecados sem o desgosto de os haver cometido, e sem detestá-los, seria o mesmo que desejar andar sem pernas: vede se é possível! A dor é a alma da confissão. Um corpo sem dor é uma coisa morta que não serve para nada.


A dor na Confissão é necessária como a água no Batismo. Para batizar uma criança precisa-se da água: não é verdade? Ora, seria bom o Batismo se se dissesse apenas as palavras “eu te batizo” e não se usasse a água? Absolutamente não! A criança não estaria batizada. Assim na confissão: se quem se confessa diz todos os seus pecados e recebe mesmo a absolvição, mas não tem a dor, não fica absolvido e não é perdoado. Observai uma árvore: há nela diversas partes: raiz, tronco, ramos, folhas. Qual é a parte que dá vida à planta? É a raiz: se tirais esta, a planta morre. Assim acontece no Sacramento da Penitência: a dor é como a raiz; se ela faltar, não vale nada o Sacramento.


3 – Dor sem confissão


Pode dar-se o caso de um pecador obter o perdão de seus pecados mesmo sem confissão, quando não puder fazê-la, desde que tenha a dor; mas não o obterá nunca mediante a confissão sem a dor.


S. Vicente Ferrer e a morte de uma pecadora - S. Vicente Ferrer pregava certa vez uma porção de ouvintes. Entre estes estava também uma mulher de péssima vida, a qual, ajudada pela graça divina, ficou tão impressionada com a consideração de seus enormes pecados, que pela veemência da dor caiu morta no chão. E como todos a conheciam como grande pecadora, ergueu-se um grande rumor na igreja; e temiam todos que ela fosse condenada, pois morrera sem antes se confessar. Mas S. Vicente, iluminado por Deus, assim falou àquela gente: “Tremeis pela sorte que caberá a essa mulher na outra vida; sabei, no entanto, que ela tinha o desejo de confessar-se, e morreu com a grande dor dos seus pecados; por isso, sua alma está salva".


4 – Por que é necessária a dor?


A razão é muito clara. Se quem se confessa não tem arrependimento e desgosto do pecado cometido, é sinal de que ama ainda o pecado e o quer ainda cometer. Por isso, não merece perdão, e Deus não lho pode dar. Imaginai: um rapazola dá um tapa em seu pai, e lhe faz outras maldades; depois, vai pedir perdão, dizendo: “Meu pai, fiz mal; perdoai-me; sabei, porém, que não me importa absolutamente ter-vos ofendido e continuarei a maltratar-vos!”.


Dizei, merece perdão esse rapaz? E o pai, perdoaria? Pelo contrário! Tomaria até de uma vara!... Assim faz o Senhor: não perdoa a quem não está arrependido e ama ainda o pecado. Que importa se esse pecador faz um cuidadoso exame de seus pecados? Que importa se recebe a absolvição? Podê-lo-ão mesmo absolver todos os Sacerdotes e todos os Bispos; mas perdão ele não terá.


Uma confissão sem dor – Um dia se foi confessar a S. Francisco de Salles um pecador, que dizia seus pecados com toda a indiferença, como se contasse uma historinha. O santo, vendo essa má disposição, se pôs a chorar. E o penitente então: “Padre, sentis-vos mal?”. Responde o santo: “Oh, não, graças a Deus... Mas vejo que estais mal, e choro porque não chorais... com esses pecados horríveis, e porque não podereis obter o perdão deles!”. O penitente foi tocado pela graça de Deus e exclamou: “Miserável que sou! Não sinto a dor de tão graves pecados que fazem chorar um inocente sacerdote!”. E com grande comoção caiu desmaiado. Depois foi ajudado pelo santo a fazer bem o ato de contrição e, após a confissão, tal pecador foi todo de Deus e um modelo de penitência. (Segur)


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)