XII – Confissão – Como se concebe a dor



Como se concebe a dor


1 – Como faremos para ter tal dor?


Direis: Parece-nos quase impossível. Entretanto, não é nada difícil. Atentai para o que deveis fazer, que aqui está o segredo de uma boa confissão. Primeiro que tudo: rogai ao Senhor que vos dê essa dor dos pecados; esta é uma grande graça sua: deve-se, pois pedi-la. Fazei depois o que aconselhava um santo Bispo (Fénelon), e que fazia um rapaz que havia pecado muito: isto é, três viagens em pensamento, que requerem pouco tempo.


a) Primeira viagem: ao Paraíso.


“Eis (dizia ele) a minha pátria..., onde está a verdadeira felicidade, para a qual fui criado. Com os meus pecados a perdi! Fechei-me eu mesmo a porta do Céu! E é pouco isto? Ver-me privado de tantas delícias? Da companhia dos Santos, dos Anjos, de Maria Santíssima, de Jesus, de Deus? E depois de uma perda tão grande, não derramarei nem uma lágrima? Não darei nem um suspiro?”.


Eis aí a dor da atrição.


b) Segunda viagem: ao inferno.


Aqui, dizia ele: “Eis o cárcere horrível, onde arde o fogo eterno! Oh! Que demônios pavorosos estão lá dentro! Que tormentos! Que berros desesperados dos condenados! E eu com os meus pecados o mereci! Ai de mim! Se Deus me houvesse feito morrer em pecado, esse cárcere infernal seria a minha eterna habitação! E não devo eu sentir um grande desgosto e aversão pelo pecado, por ter merecido o inferno?”.


Ainda a atrição.


c) Terceira viagem: ao Calvário.


“Que vejo? Jesus Cristo na cruz, que morre por mim, para a minha salvação. Um Deus feito homem... flagelado... traspassado de cruéis espinhos... perfurado nas mãos e nos pés, que agoniza crucifixo entre espasmos inauditos para fechar-me as portas do inferno e abrir-me as do Paraíso! E que fiz eu com os meus pecados? Ofendi um Deus tão bom! Pisei o seu sangue! Renovei a sua crucifixão! Ai de mim! E não sentir-me-ei despedaçar o coração? Ó Senhor, eu me arrependo! Perdão!”.


Eis aí a verdadeira contrição.


Eis como se faz para ter a verdadeira dor dos pecados. Esse jovem em suas três viagens a teve e obtém certamente o perdão.


2 – A dor dos Santos


Os Santos que primeiro foram pecadores, sim, é que tiveram a verdadeira dor. S. Pedro que havia negado conhecer Jesus Cristo, chora amargamente a vida inteira. S. Jerônimo diz o mesmo de si: “Sempre em pranto, sempre em soluços!”. E ele não tinha sido um grande pecador! S. Agostinho escreveu um livro intitulado “Confissões”, no qual não faz mais do que lamentar os pecados de sua mocidade. O mesmo dizer de tantos outros.

E vós, sempre tivestes a dor dos vossos pecados? Não quero trazer-vos temores injustos; nem Deus pretende de vós essa contrição que dilacerava o coração dos Santos...


3 – A atrição


Mesmo a dor incompleta que se chama atrição (isto é, que nasce da consideração da feiura do pecado e do inferno merecido) basta para obter o perdão na Confissão, porque essa dor incompleta é valorizada pelos méritos de Jesus Cristo.


Mas que dizer desses jovens que vão confessar-se maquinalmente, depois de rir e tagarelar até o último momento..., que afinal manifestam suas culpas com indiferença e desenvoltura, como se contassem uma historieta ou uma fábula? Demonstram eles ter a dor de seus pecados?


Conclusão


Persuadi-vos, pois, ó caros filhos, de que a dor dos pecados é de absoluta necessidade para obter de Deus o perdão. Rogai essa dor a Deus, e excitai-a em vós com os meios que vos sugeri. Como serão caras as lágrimas do vosso arrependimento! Elas cancelarão todas as máculas do pecado, e serão como um novo Batismo: porque Deus garantiu, que jamais rejeitará um coração contrito e humilhado: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies (Sl 50,18).


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)