XIII – Confissão – Necessidade do propósito



Necessidade do propósito


O caçador de víboras – O Pe. Boaventura Girandeau num livro seu intitulado “Histórias e parábolas” conta este fato. Um camponês das vizinhanças de Paris se adestrara a apanhar víboras, que levava depois a um farmacêutico, tirando daí bom ganho. Direis vós: Para que serviam essas víboras? O farmacêutico extraía-lhes o veneno, para remédios utilíssimos. Ora, esse camponês fez um dia uma caçada muito abundante de víboras: apanhou mais de 50, pondo-as aos poucos numa sacola. À noite, de volta cansado para casa, pôs a sacola no quarto onde dormia e foi para a cama. Despertando dia claro, sentiu em torno do pescoço e dos braços alguma coisa fria e viscosa. Olha... e vê uma víbora que se arrasta no travesseiro, outra que põe a cabeça fora do lençol... e outras que rodam pela cama.


- Ai, de mim! Estou morto! (exclama).


As víboras haviam realmente saído da sacola, e, atraídas, pelo calor, foram para a cama daquele pobre homem. Aí, ele pede socorro e corre um filho seu.


- Depressa! Depressa! Traze cá um prato de leite e põe-no ali no chão.


O rapaz obedeceu. Ante o cheiro do leite, as víboras desceram da cama e se aproximaram todas do prato, deixando ainda ileso o homem. Aí, ele pulou da cama e com a tesoura cortou a cabeça de todas aquelas víboras. Depois disse:


- De que perigo me livrei! Esses bichos agora estão mortos; mas mesmo que eu viva cem anos, não me ocuparei mais de víboras!


E manteve a palavra.


***


Queridos filhos, não vos encontrastes por vezes também com as víboras... não na cama, mas no coração? Quer dizer, com os pecados mortais? Estes, sim, são víboras terríveis! Pois bem, com a confissão os matamos; mas depois de feita a matança, deve-se fazer como aquele camponês de quem vos falei: “para o futuro, longe das víboras!”, isto é, nada de pecados!


Eis outra condição para que a Confissão seja bem feita: o propósito. Deste modo, falar-vos-ei:


1) Da sua necessidade

2) Das qualidades que deve ter

3) Sobre a satisfação


1 – Necessidade do propósito


a) Que é o propósito


É uma vontade firme de não ofender mais a Deus. O propósito une-se à dor: se falta aquele, é sinal de que também não há dor: e, então, a confissão não é boa, e não se obtém o perdão. É preciso mais arrepender-se dos pecados e ter ao mesmo tempo a vontade de não os cometer mais.


b) É necessário?


Vê-se claramente a necessidade do propósito neste trecho do Evangelho.


A pecadora do Evangelho – Os judeus surpreenderam uma mulher a pecar. Aí levaram-na a Jesus, dizendo: “Mestre, essa mulher foi colhida em pecado: agora, segundo a lei de Moisés, deve ser lapidada”. E, Jesus, curvado, escrevia com o dedo no chão. E como os judeus insistissem em interrogá-lo, Jesus lhes disse: “Quem dentre vós está sem pecado, atire primeiro a pedra contra ela”. Eles, ouvindo isso, lá se foram um depois do outro, e Jesus, erguendo-se, disse à mulher: “Onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?”. E ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. E Jesus: “Nem eu te condenarei: vai, e não peques mais: Vade, et jam amplius noli peccare” (Jo 8, 4-11). Ouvistes? Sim, o perdão; mas não pecar mais: é palavra de Deus.


c) Se falha no propósito...


No entanto, quantos se encontram, mesmo entre as crianças, que se confessam, e pretendem ter o perdão de Deus quando ainda têm a intenção de cometer pecados! Que penitência é essa?


Penitência de comediantes - Diz S. João Crisóstomo que a confissão daqueles que não fazem o propósito, ou depois de o fazerem não o mantêm, é uma penitência de comediantes. Já vistes em cena os atores da comédia? Um, por exemplo, representa o papel de rei, e, no entanto, é sapateiro; outro representa o de magistrado, e é um tamanqueiro; outro se faz assassino, e é talvez um bom sacristão. E todos fazem o seu papel de artista. Mas, terminada a representação, cada qual volta ao que era antes; o rei, torna-se ainda o sapateiro de antes; o magistrado volta a ser tamanqueiro, e assim por diante. Faz o mesmo quem se confessa sem o propósito. Na confissão representa ele uma comédia, quando dá mostras de ser um penitente, e, no entanto, logo depois, é o pecador de pouco antes.



(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

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