XVII – As Ocasiões - As ocasiões de que fugir



III – As ocasiões de que fugir


As principais ocasiões em que podem achar-se os jovens, e que são como redes diabólicas nas quais caem facilmente, são estas:


a) As más companhias;

b) As figuras escandalosas;

c) Os espetáculos e divertimentos maus e perigosos.



1 – Os maus companheiros


Sobre este assunto, far-vos-ei um sermãozinho à parte. Baste-vos, no entanto, saber que a companhia dos maus tem feito e faz continuamente muita matança de almas. Quantos jovens, que antes eram anjos, foram prejudicados e pervertidos por companheiros malvados, e ficaram eternamente perdidos!


Longe desses demônios! Fugi deles, mesmo que se mostrem amigos: fugi deles como da peste!


2 – As figuras escandalosas


Quantas se veem, expostas nos negócios, nas praças, nas ruas, e até em certas casas! Mas são pessoas honestas e temerosas de Deus, essas que põem à mostra tais iniquidades? Que contas deverão prestar a Deus, pela ruína que proporcionam a tantas almas inocentes!


Um presente jogado ao fogo – Um grão-senhor deseja fazer um presente a um príncipe do Japão, moço de 18 anos e bom cristão; e lhe mandou, por intermédio de seu criado, umas figuras pintadas que custavam caro, pois eram artísticas e de valoroso pintor. Mas como quem mandava essas figuras era um idólatra, eram elas muito indecentes e escandalosas. Apenas viu o príncipe uma delas, corou no rosto, e sem mais jogou todas ao fogo. Depois disse ao tal criado: “São esses os presentes que se fazem a um cristão? Contai ao vosso patrão o que fiz do seu presente; e saiba ele que os cristãos não detêm os olhos sobre tais feiuras, mas julgam-nas dignas do fogo”.


***


Queridos filhos, se vos acontecesse ver inconvenientes pinturas ou objetos indecentes, lembrai-vos desse príncipe do Japão; e tirando logo os olhos de cima de tais feiuras, dizei: Um cristão não deve olhar essas coisas que são dignas de serem queimadas. Se cedeis à curiosidade, o diabo pegar-vos-á logo em sua rede.


3 – Os espetáculos e divertimentos maus


Antigamente essas ocasiões de pecado eram mais raras. Havia, sim, espetáculos e divertimentos, mas eram em sua maioria inocentes. Havia teatrinhos, havia marionetes, fazia-se dançar nas praças ursos e macacos...; havia saltimbancos..., circos com animais ferozes... e os jovens corriam a tais espetáculos, como o gato vai ao toucinho; e se divertiam, sem se macular a alma. Agora, entretanto, até nos espetáculos são frequentes os laços do diabo. Destes deveis fugir. Os divertimentos honestos não são proibidos; e fazem bem. Mas quanto mal fazem certos espetáculos escandalosos às almas dos jovens!


As impressões de um cinema – Faz pouco tempo, viajava num trem uma senhora com uma filha de seis ou sete anos. Essa menina, inteligentíssima, era a distração dos viajantes por causa de seu espírito. Numa estação entrou no vagão um frade. Ao vê-lo, a menina deu um grito agudo de espanto, e correu aos braços da mãe, exclamando: “Socorro! O papão! O assassino!”.


Como assim? Aquele frade era um santo homem, e a menina nunca o tinha visto: por que, então, aquele medo e aquele ódio ao frade? Eis por que: uns dias antes, a mãe levara a filha ao cinema, para ver certas representações infames contra os frades. Assim foi arruinada a menina. Mas essa mãe? Não fez ela o papel de assassino?


Vedes o que aprende amiúde em certos espetáculos? O ódio contra a religião e contra os ministros de Deus, além de muitas outras porcarias! Que rede imensa do diabo são tais tormentos!


OBS.: Mas eu não terei prejuízo com isso, dirá alguém: quando eu vir certas coisas feias, fecharei os olhos.


Isto não é verdade! Escutai este fato.


Os olhos fechados e um espetáculo fatal – S. Agostinho (em suas “Confissões”) conta de um jovem seu discípulo que era muito amante de diversões mesmo perigosas, mas que essas diversões mesmo perigosas, mas que essas diversões bem amiúde o faziam depois lamentar-se diante de Deus. Certa vez, esse jovem fez o propósito de não ir mais ao teatro, que era para ele causa de muito pecado. Mas como? Pouco tempo depois os amigos o rodeiam, e querem levá-lo à força a um espetáculo proibido aos cristãos. “Não! Não vou lá! (responde o jovem) eu fiz propósito!...”. Mas os marotos continuaram a tentá-lo, até que ele se deixou levar. E dizia a si mesmo: “Irei, mas ficarei de olhos fechados”. Durante a representação na teatro fazia-se um grande silêncio: mas em certo ponto da cena ecoaram fortes aplausos. O jovem, que até então mantivera fechado os olhos, por curiosidade os abriu... Ai de mim! O diabo tinha vencido! No coração desse incauto cristão se acenderam logo chamas impuras... Em conclusão: ele havia entrado naquele teatro com a graça de Deus, e dali saiu pecador e filho do demônio.


***


Entendestes: Não adianta dizer: “Estarei vigilante... eu tenho juízo... precaver-me-ei...”.


Ensina a experiência que ninguém deve confiar nunca em si mesmo. São muitos justos os provérbios antigos que dizer: “Tantas vezes vai o gato ao toucinho, que por fim lá deixa a patinha”:


“E tantas vezes vai ao poço o balde,

Que por fim lá deixa a alça”.


Conclusão


Fugi, pois, a todas as ocasiões de pecado, e delas fugi depressa.


Os três remédios de um eremita – Dois jovens um dia pediram a um santo eremita que lhes ensinasse um remédio eficaz para não caírem em certos pecados. “De bom grado, retruca o eremita; e, não um, mas três eu vos quero ensinar; e vós, para os não esquecer, escrevê-los-ei.


Escreve, pois:


Primeiro remédio: fugi às ocasiões;

Segunda: Fugi às ocasiões.


“Mas, caro padre, já o escrevemos duas vezes”.


“Que importa? Escrevei-o ainda a terceira: porque este é o único remédio, e, sem ele, todos os outros são inúteis”.


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Também vós, ó queridos filhos, gravai bem na memória o remédio eremita: Fugi às ocasiões! Assim mantereis em vós o grande tesouro da graça de Deus.



(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)