XVII – As Ocasiões - Obrigação de fugir às ocasiões



Escapo de um naufrágio – Um certo Tróquilo, discípulo do filósofo grego Platão (+ 347 a. C.), tendo visto um dia o mar calmo, disse: “Darei um belo passeio no mar”; e subindo num barquinho, ia que era um prazer. Mas eis que de repente se levanta uma furiosa borrasca; por isso o barco ficou todo escangalhado, e o pobre filósofo esteve por um fio para afogar-se. Contudo, por um grande milagre, conseguiu salvar-se. Chegando a casa cheio de pavor, sabeis qual foi a primeira coisa que fez? Fez logo murar duas janelas de seu palácio, que davam para o mar. Mas por quê? Bem sabia ele o porquê. Era para não olhar mais além daquelas janelas: assim não lhe vinham as tentações de se meter mais no mar com o risco de ali deixar a pele.


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O que fez Tróquilo também vós deveis fazer, depois de escapos do naufrágio do pecado com a confissão: deveis, pois, fugir às ocasiões perigosas. Tróquilo disse: “No mar nunca mais, pois corro o risco de perder a vida”. Ao recitardes o ato de dor, assim o terminais: “Proponho fugir às ocasiões”. Portanto, deveis manter a promessa que fazeis a Deus.


I – Obrigação de fugir às ocasiões


1 – Que é a ocasião


Denomina-se ocasião de pecado qualquer coisa ou circunstância que induz facilmente o homem a pecar; ou então o incita, o puxa, e o coloca no perigo de cometer o mal. Quereis saber quais são as principais ocasiões? Ei-las:


a) Os maus companheiros – que têm conversas maldosas ou procuram induzir a ações ilícitas.

b) Os livros e jornais – que falam mal da religião ou tratam de coisas desonestas

c) As figuras inconvenientes – que também se veem nas vitrines de certos negócios

d) Os espetáculos, os jogos e divertimentos – que são poucos honestos

e) O ócio – que é denominado o pai dos vícios e dos pecados

f) A excessiva curiosidade – que facilmente leva os jovens a pensamentos, desejos e atos maldosos;


E assim por diante... Tudo aquilo, em suma, que induz ao mal e se procura voluntariamente, se diz ocasião próxima do pecado.


2 – Há a obrigação de fugir às ocasiões?


Certamente que há essa obrigação. O Espírito Santo adverte que é preciso fugir ao pecado como se corre da frente da serpente: “Quasi a facie colubri fuge peccata” (Eclo 21, 2). Ora, do mesmo modo que evitamos não só a picada das serpentes, como até procuramos não tocá-las, também devemos fugir não apenas ao pecado, mas até às ocasiões de pecado.


Jesus Cristo no Evangelho diz: “Se tua mão, ou teu pé te servem de escândalo, corta-os fora e joga-os longe de ti” (Mt 18, 8). E depois ainda: “Se teu olho te é ocasião de pecado, tira-o, e joga-o longe de ti” (ibid. 9). E por quê? Porque, responde Jesus, é melhor com um só olho, uma única mão e um pé só ir ao Paraíso, do que com dois olhos, duas mãos e dois pés precipitar-se no inferno.


Que quer dizer Jesus Cristo com isso? Que devemos mesmo arrancar os olhos, cortar as mãos e os pés? Não! Mas nos quer fazer compreender que devemos afastar-nos, separar-nos, subtrair-nos das coisas, dos lugares, das pessoas que nos sejam grave perigo para a alma e próxima ocasião de pecar.


E é preciso fugir a tais coisas mesmo que nos sejam queridas como os olhos e necessárias como os pés e as mãos. Por isso insiste ainda o Senhor, dizendo: “Quem está longe dos laços (quer dizer, das ocasiões e dos perigos de pecar), andará salvo estará seguro: Qui cavet laqueos, securus erit” (Prov 11,15).


Entretanto, “quem ama o perigo (isto é, quem o procura voluntariamente), nele perecerá: Qui amat periculum, in illo peribit” (Eclo 3,27).



(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)