XVIII – As Más Companhias - Obrigação de fugir às más companhias



1 – A palavra de Deus


A obrigação de fugir às más companhias é imposta por Deus expressamente. O Espírito Santo diz: “Evita o homem malicioso, porque ele te forja males: Attende tibi a pestifero; fabricat enim mala” (Ecl 11, 35). “Uma só faísca provoca um incêndio, e um só enganador multiplica as matanças” (ib., 34). Jesus Cristo no Evangelho nos impõe obrigação expressa de evitar os falsos profetas (Mt 7,15).


E diz ainda que às vezes ele vem a nós com vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Quem são esses falsos profetas? São as más companhias. São Paulo usa palavras ainda mais fortes: “Nós vos intimamos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, a vos afastardes de qualquer irmão que leve uma vida desregrada” (2Ts 3, 6). E acrescenta: Não tenhais relação com ele, para que não aja confusão (ib., 14). O Apóstolo São João vai ainda mais longe e diz: “Com essa espécie de gente é preciso não se misturar, nem comer juntos, e nem saudá-los (2Jo 10). Ora, que faz um cristão que se dá com os maus? Despreza os mandamentos de Deus, e excitá-lo-á à indignação.


2 – Por que o Mandamento?


Sabeis por que Deus nos faz esses mandamentos? Porque de fato as más companhias são laços insidiosos que buscam a nossa ruína. O Espírito Santo diz: “Quem tocar o pez, ficará por ele manchado; e quem trata com o soberbo, ficará também soberbo” (Ecl 13, 1). E ainda: “Com o santo, serás santo, e com o perverso perverter-te-ás” (Sl 17, 25-26).


O vício é como a peste: para transmitir-se basta apenas um pouco de contato. Mesmo no Paraíso somente Lúcifer, soberbo e rebelde para com Deus, bastou para perverter um grande número de Anjos companheiros seus, e transformá-los em demônios! Que será quanto a nós tão fracos e inclinados ao mal? Não é à toa que há um provérbio vulgar que diz: “Quem anda com lobo aprende a uivar”; e outro, assim expresso: “Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”.


3 – A palavra dos santos e dos grandes


Ouvi as sentenças e as exortações ditas sobre esse ponto por grandes homens. S. Tomás afirma que: “uma pessoa será tal quais são os companheiros com que anda”. S. Gregório Magno nos faz esta exortação: “Querido jovem, se não te afastas da companhia dos perversos, estás perdido. Suceder-te-á como quem mora em lugares infectos: isto é, ficarás insensivelmente empestado” (Homil. 9, in Ezeq). Esta outra é de São Francisco de Sales: “Eu exclamo a quem caiu nessas redes: cortai-as, rebentai-as, rompei-as. Não se deve desfazer essas amizades estultas, deve-se lacerá-las; não se deve desunir esses liames, deve-se rompê-los, cortá-los” (Filot.). Até Aristóteles, filósofo gentio, deixou escrito: “Da licença do falar desonesto se passa facilmente às coisas torpes” (Arist. 7 Polít.).

Por isso, se ouvis algum jovem falar desonestamente, podeis dizer dele: esse tem a alma maculada de imundos pecados; e deveis fugir dele. Se não fugirdes às más companhias, e o mal vos pegar, os danos serão vossos e não mereceis mais compaixão. Escutai o que diz ainda o Espírito Santo: “Quem terá compaixão do charlatão que brinca com a serpente pela qual é ferido, e de todos aqueles que se aproximam dos animais ferozes? Assim será quanto a quem segue um malvado e se acha envolvido nos pecados dele” (Ecl 12,13).


4 – As desculpas


Não faltam os que têm prontas as desculpas e os pretextos. Eis como se desculpam:


a) Eu ando com esses companheiros..., mas não me deixo prejudicar

R. FALSO.

Escutai este exemplo narrado por um célebre escritor

As peras podres – Havia em Portugal um bom homem que tinha um filho simples e de bons costumes, ao qual fazia amiúde recomendações para não andar com maus companheiros, a fim de conservar-se bom. O filho obedecia, mas um dia falou ao pai: “Acreditais que os maus companheiros pegar-me-ão o mal? Pelo contrário, eu lhes transmitirei o bem”. Para o convencer do contrário, o pai lhe mostrou um cesto de belas peras, entre as quais havia uma podre. Disse ele: “Vês? Dentre em pouco essas peras podres tornar-se-ão sadias”. Retrucou o filho: “Impossível”. “Verás!”. Fez-se a experiência; e poucos dias após todas as peras boas estavam cobertas de mofo. “Oh! As minhas peras!... Eu não o disse?”, exclamou o rapaz. E o pai: “Tens razão; e agora não dirás mais que os bons transmitem a virtude aos viciados. À desgraça das peras, todavia, se pode remediar: toma lá outras peras boas. Mas se ficares estragado pelos maus, como se poderá reparar essa desgraça?”.


b) Mas como se faz...? São tantos os que falam mal!


R. É VERDADE QUE O FALAR MAL É VÍCIO COMUM, MAS POSSO DIZER-VOS QUE MUITOS JOVENS NÃO DÃO ATENÇÃO A QUEM ASSIM FALA, E LAMENTAM-NO EM SEU CORAÇÃO

E há ainda aqueles que, como S. Luís Gonzaga, sabem censurar e fazer calar os descarados que falam mal.


Um cínico corruptor de costumes – S. Luís Gonzaga se achava um dia em casa do duque de Savóia com alguns moços nobres, aos quais se juntara também um velho de 70 anos. Durante a palestra, o velho se saiu com palavras muito indecentes. Voltado para ele, disse-lhe asperamente o santo jovem: “Que escuto, ó Senhor?! V. Mercê, um homem velho e de nobre condição, não se envergonha de falar assim no meio dos moços? Isso é dar escândalo e incitar ao pecado. Não se sabe o que diz S. Paulo? As más conversas corrompem os bons costumes” (1Cor 15, 33).


Depois se afastou da sala, deixando envergonhado o velho e edificados os jovens.


c) Faz-se apenas para rir...

R. AOS QUE VÊM COM ESSAS DESCULPAS RETRUCA S. AFONSO: “Pobres de vós! Essas burlas fazem rir o demônio, e far-vos-ão chorar por toda a eternidade” (Serm. 40).


Torpezas ditas para rir e S. Inácio – Santo Inácio de Loyola se achava num navio, em que uns viajantes e marujos, justamente por zombaria, falavam indecorosamente. Ele tomou logo a defesa da honra de Deus; e vendo que as maneiras delicadas de nada valiam, todo inflamado de santa indignação gritou àqueles desregrados: “Biltres! Estais distantes quatro dedos do inferno, e ainda ousais provocar a ira de Deus?!”.


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)