Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 04



QUARTA CONSIDERAÇÃO


Especial assistência dos anjos

em tempo de oração


Uma vez sendo preciosíssimo o tempo em que passamos em oração, visto que tantos bens

podem ser alcançados, o demônio esforça-se com empenho em distrair-nos, de modo a

impedir os frutos destes preciosos momentos. E tal certamente aconteceria se nosso Anjo da Guarda não nos acudisse para suprir com sua ajuda o que falta em nossa fraqueza. O santo rei David dizia: Apenas elevo meu coração a Vós, oh! meu Deus, e eis que vossos anjos postam-se em torno de mim: "Em presença dos anjos cantar-te-ei salmos" (Salmo 137, 2). Isto acontece porque durante o tempo de oração os anjos nos veem como imitadores da vida angélica, que consiste inteira numa vida de união a Deus, por amor de Deus.


Da Sagrada Escritura deduz-se que os anjos nos convidam à oração, são nela nossos

mestres e oferecem-na a Deus. São eles os primeiros a estimular amorosamente nossos corações para que nos afastemos progressivamente das coisas terrenas e corramos com fé aos pés do trono de Deus, não somente em horas fixas do dia mas também nos momentos de dúvida e de necessidade. São eles que com uma voz secreta convidam-nos aos Sacramentos, às igrejas, aos oratórios, aos altares de Maria e dos santos, e particularmente aos lugares onde, como em pública audiência, Jesus sacramentado encontra-Se exposto. Nunca vi alguém que, apesar da tibieza, não pudesse dizer com o Profeta que de vez em quando se tenha sentido incitado a despertar-se do sono culpável e a voltar-se para Deus: "O Anjo retornou e despertou-me como homem sacudido do sono" (Zacarias 4, 1). Sendo atento companheiro de nossa alma, diz São Bernardo, nosso Anjo escolhe os momentos mais adaptados para apresentar-nos o puro prazer que se experimenta no trato com Deus.


Quando Ele nos vê piedosamente recolhidos, faz-se logo nosso querido mestre de oração, dizendo com o Profeta Daniel: "Eu vim para instruí-lo e para fazê-lo entender os desígnios de Deus" (Daniel 9, 22). Nosso Anjo fala-nos ao pensamento através de excelsas e vivas iluminações, ao coração fala-nos com ternos e incendidos afetos 1. Diz Santo Agostinho² que, sendo nossos Anjos sempre nossos custódios, ficam junto de nós durante a oração

muito contentes e exultantes. São João Crisóstomo também afirma que os anjos estão à

nossa volta formando um coro. Eles não somente se regozijam mas também unem suas

vozes às nossas com harmonia e afeto, tendo isto ocorrido sensivelmente não poucas vezes. Foi o que aconteceu com o bispo São Sabino³, que foi ouvido recitando o ofício em coro com os anjos. Também São Gustavo ao fazer a entoação, ouviu que lhe respondiam os anjos, e com eles rezou até o fim. Além disso a Sagra da Escritura nos ensina que nossos Anjos da Guarda apresentam nossas orações ante o trono do Senhor, como fizeram com as de Tobias: "Eu apresentei tuas orações ao Senhor" (Tobias 12, 12).


Oh! amoroso mestre, que Vos fazeis presente a todas as minhas preces, sacudi-me de minha preguiçosa sonolência, incendei, inflamai meu coração e fazei que, colocando-o em Vossas mãos, eu delas obtenha a força que provém "de manu Angeli" (Apocalipse 8, 4).


PRÁTICA


Acostumai-vos a oferecer a Deus vossas orações pelas mãos do Santo Anjo, pois assim adquirem elas maior mérito e valor. Durante a Missa, a Igreja suplica que o Santo Sacrifício seja apresentado pelas mãos do Anjo. Assim também vós, quando assistis à Santa Missa, apresentai à divina majestade a Hóstia Santa e o Cálice pelas mãos de vosso Anjo. Hoje, ao assistir à Santa Missa, exercitai-vos a uma especial devoção 5.


EXEMPLO


Como confirmação da verdade que hoje consideramos, leiamos um luminoso fato narrado na Sagrada Escritura, no livro de Tobias. Depois da destruição do reino de Israel, este

venerável patriarca foi levado para Ninive, junto a outros prisioneiros. Em meio à geral

prevaricação de seu povo ele permaneceu sempre fiel. Levando uma vida pura e irrepreensível, ocupava-se em consolar os aflitos, em vestir os nus e principalmente em dar sepultura aos mortos. Mas entre tantas ocupações ele não cessava de oferecer fervorosas

preces ao Senhor, que eram apresentadas ante o trono de Deus por seu Anjo da Guarda: "Eu apresentei tuas orações ao Senhor" (Tobias 12, 12). Oferecidas desta maneira a Deus pelo Anjo, tais orações valeram a Tobias muitos favores. Ele obteve assim a liberação de uma sobrinha que estava possuída pelo demônio, seu filho viu-se preservado de muitos perigos durante uma viagem e foi copiosamente enriquecido. O próprio Tobias recuperou milagrosamente a vista. De semelhantes favores seremos nós também cumulados se formos fiéis ao nosso Anjo da Guarda e apresentarmos a Deus nossas orações por suas mãos.


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1 - São Francisco de Sales, em seu livro Introdução à vida devota, diz: "Juntemos nossos corações, Filotéia, aos espíritos celestes e às almas bem-aventuradas; e assim como os rouxinóis, quando pequenos, aprendem a cantar com os que já são grandes, assim também nós, pelo convívio espiritual que devemos ter com os santos, aprenderemos a rezar e a cantar com maior perfeição os louvores divinos, e por isso dizia Davi: "Cantarei salmos em Vossa honra, oh meu Deus, em presença dos anjos". (Introdução à vida devota, 2ª parte, cap. 16).


2 - Muitas vezes nesta novena São João Bosco traz os testemunhos dos Santos Padres de forma geral e resumida, sem citações concretas e literais. É possível que ele estivesse indo buscar estas alusões nalgum sermonário ou livro piedoso que procedia da mesma maneira. Numa de suas cartas, Santo Agostinho, a respeito de uma passagem de Tobias (Tobias 12, 12), diz o seguinte: "Visto conhecerem os anjos o que se deve cumprir por ordem divina, nô-lo inspiram de maneira distinta ou velada, de acordo com o que recebem pela ordem divina." (Carta 130,9, 18/BAC 99, 69).


3 - São Sabino, bispo de Canosa, grande amigo de São Bento de Núrsia. Faleceu em torno do ano 566.


4 - São Gustavo foi abade de um mosteiro por ele fundado em Brives, na França. Diz-se ter sido milagrosa mente curado de uma doença por São Martinho de Tours. Sua festa comemora-se no dia 3 de Agosto.


5 - Referência à oração Supplices te rogamus, do Cânon romano, na qual se diz: "Pedimo-Vos humildemente, Deus todo-poderoso, que esta oferenda seja levada à Vossa presença, até o altar do céu, pelas mãos de Vosso Anjo, para que nós que, ao participarmos deste altar, recebemos o Corpo e o Sangue de Vosso Filho, abençoados por Vossa graça tenhamos também parte na plenitude de Vosso reino."