Pelo mundo



Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 1º - 09 – 1973


NA QUINTA-FEIRA atrevi-me a entrar na algazarra do caso Watergate com que a esquerda norte-americana pretende abalar o presidencialismo dos Estados Unidos. Agora tenho diante de mim, espalhados, recortes relativos ao desmoronamento da experiência socialista no Chile. A inflação já ultrapassou de muito o máximo atingido no desgoverno de Goulart no Brasil; as mulheres de todas as classes continuam a bater nas panelas vazias; o Exército começa a desconfiar de que lhe compete a defesa interna do país contra os inimigos de nova espécie que se infiltraram em todas as classes e profissões; e o Congresso, que praticou a tolice de reconhecer o processo eleitoral que elegia um comunista, descobre agora, irritado, que o comunista está exorbitando e fazendo coisas que todo o mundo sabia que o comunista teria de fazer. Só não desconfiam os padres e bispos que no ano passado efetuaram, em Santiago, El Premier Encuentro de Cristianos por el Socialismo. Chegou-me às mãos uma cópia mimeografada do Secretariado General del Episcopado, Ref. nº 301/73, 2 de agosto 1973. No topo da primeira página leio: "NOTA PRÉVIA — Hacemos llegar a los obispos de la CECH este documento interno de la Compañia de Jesus sobre el tema del epígrafe."


O DOCUMENTO em questão versa sobre o "Premier Encuentro Latino Americano, de Cristianos por el Socialismo". Na página 3 do Documento lemos de início: "a) El encuentro fue principalmente una llamada a la acción: a una acción nueva por parte de los cristianos."


COMO se vê trata-se de um incitamento à acción; mas a uma acción nueva por parte dos cristãos da América Latina. Eu não sei a centena de patetas que se reuniu em Santiago para promover o Socialismo conseguirá inquietar o Exército, ou mesmo as bravas mulheres chilenas, que, nesta altura dos acontecimentos, devem saber distinguir muito bem esses energúmenos dos homens de bom-senso que certamente ainda existem no Chile.


SIM, não sei se esses patetas-cristianos conseguirão fazer explodir um espanta-coió ou um busca-pé, mas sei, sem sombra de dúvida, que uma coisa conseguirão: engrossar as fileiras dos que parecem empenhados em provar ao mundo e aos habitantes de outros planetas habitados que não existe na Terra raça mais estúpida que a dos "cristianos". Porque eles têm uma doutrina firmada que, pela voz de papas durante mais de um século, adverte contra essa experiência social de funestíssimas consequências. Deviam possuir, por várias razões, uma instintiva repulsa pelo Socialismo; deviam ser os homens mais prevenidos, mais defendidos, mais imunizados. Ora, se os ditos cristianos reunidos em Santiago ainda resistiram à evidência do fracasso na Rússia, na China, em Cuba, e especialissimamente em Santiago, poderemos concluir, sem exagero nem temeridade, que esses cristianos, que escolhem Santiago de panelas vazias para promover o Socialismo, são os homens mais estúpidos das quatro ou cinco partes do mundo.


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EFETIVAMENTE, além do pedido de demissão do Ministro da Defesa do Chile, além da passeata das caçarolas vazias, da greve dos transportes, da inquietação do Exército e da inflação galopante, nosso honrado planeta nos exibe no outro hemisfério, onde deveria existir o paraíso dos povos socializados, um espetáculo de desolação que a máquina de desinformação não consegue encobrir: a URSS se debate novamente numa grave crise de produção de cereais. Os comunistas ficarão sem pão, ou deverão pedi-lo aos Estados Unidos, como já mais de uma vez o fizeram. E aí está o aspecto do problema, que seria hilariante, se nele não estivessem envolvidas crianças russas que nada fizeram para socializar a agricultura: faz-se uma revolução para o Pão, pelo Pão, a começar pela Conquista do Pão como apregoava o príncipe revolucionário Kropotkine em 1888, zomba-se de uma religião asiática cujo fundador advertiu que não só de pão vive o homem, perseguem-se, matam-se os seguidores dessa religião antiagrícola e alienante, e ao cabo de um século e pouco acham-se esses revolucionários, na Rússia e no Chile, sem pão.


E PROVAVELMENTE sem queijo. Ora, diante dessa evidência, pão-pão, queijo-queijo, ainda se encontra na inteligentíssima França e na modesta América Latina quem acredite no Socialismo, anarquista, marxista, ou qualquer outro. A Argentina se apronta para experimentar o peronista.


HOUVE depois da Revolução Russa, e logo depois da Reforma Agrária soviética, a maior hecatombe da história. Maior do que a soma de perdas de todos os países nas duas guerras. A ideia socialista matou perto ou mais de cem milhões de russos e povos sovietizados. Entre 1926 e 1930 morria-se de fome nas ruas de Moscou com uma espantosa naturalidade.


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ERA TEMPO de desconfiar. Os soviéticos deveriam organizar infiltrações especiais para eliminar todos os esquerdistas da Watergate e dos Estados Unidos em geral, porque, vamos e venhamos, se os Estados Unidos caírem também nessa armadilha do socialismo, quem?, sim, quem então nos produzirá o pão tão apetecido pelos descendentes de Kropotkine?


SIM, PARA que três quartas partes do mundo possam se permitir delírios ideológicos é preciso que sobrem pessoas e países inteiros para cuidar do pão: não só de ideologias vive o homem!